O tempo que falta à mesa: alimentos ultraprocessados e o trabalho invisível das mulheres na África Subsaariana

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Blog do IFZ | 29/08/2026

Em milhões de lares da África Subsaariana, o dia de muitas mulheres se divide entre o trabalho remunerado e uma extensa rotina de responsabilidades domésticas. É preciso decidir o que a família comerá, providenciar os ingredientes, muitas vezes buscar água e combustível para o fogão e administrar recursos que nem sempre são suficientes. Ao fim do expediente, o trabalho alimentar continua. Essa rotina constitui parte importante do contexto em que cresce o consumo de alimentos altamente processados e ultraprocessados na região.

O estudo Consumo de alimentos ultraprocessados na África Subsaariana: uma revisão narrativa sob a perspectiva de gênero (Ultra-processed food consumption in sub-Saharan Africa: a narrative review through a gender lens), publicado na revista The Lancet Regional Health – Africa e assinado por Madhura Rao, Belen Beltramo, Phyllis Addo e Suleiman Oshioke Yakubu, examina esse fenômeno a partir de uma perspectiva ainda pouco considerada no debate sobre alimentação e saúde pública: a organização de gênero do trabalho alimentar.

Os autores não ignoram fatores como a expansão das cadeias de abastecimento, a urbanização e a transformação dos sistemas alimentares. Seu argumento é que a crescente presença dos alimentos altamente processados e ultraprocessados também precisa ser compreendida à luz das condições de trabalho e do uso do tempo pelas mulheres.

O trabalho que não aparece nas estatísticas

A pesquisa recorre ao conceito de foodwork, desenvolvido pela socióloga Marjorie DeVault e incorporado a uma extensa literatura feminista sobre trabalho e reprodução social. O termo designa um conjunto de atividades muito mais amplo do que cozinhar. Inclui planejar refeições, administrar o orçamento, comprar ou cultivar alimentos, processá-los e armazená-los, lavar a louça, alimentar crianças e responder às necessidades dos diferentes membros da família. É trabalho físico, mas também cognitivo e emocional, realizado em grande parte sem remuneração e fundamental para a manutenção dos domicílios.

Na África Subsaariana, esse trabalho recai desproporcionalmente sobre mulheres e meninas, mesmo quando elas também exercem atividades remuneradas. Os números reunidos pelos autores ajudam a dimensionar essa sobreposição. A participação feminina na força de trabalho na região chega a 64,3%, acima da média mundial de 53,7% e das taxas registradas na América Latina (57,4%), no Sul da Ásia (29,9%) e no Norte da África e Oriente Médio (21,4%). O aumento da participação das mulheres no trabalho remunerado, contudo, não foi acompanhado por uma redução proporcional de suas responsabilidades domésticas.

Em outros contextos de transformação estrutural, o crescimento do emprego feminino foi acompanhado, em alguma medida, pela substituição de parte do trabalho doméstico por serviços de mercado. Na África Subsaariana, segundo os autores, essa substituição permanece limitada. O resultado é a sobreposição de jornadas e uma forte restrição do tempo disponível, condição frequentemente descrita como pobreza de tempo.

Os exemplos reunidos no artigo dão dimensão concreta a esse fenômeno. Em Ohafia, sociedade matrilinear no sudeste da Nigéria, o trabalho alimentar continua sendo atribuição feminina e inclui o controle de plantações de subsistência e a intensificação das atividades agrícolas em períodos de escassez. No Zimbábue, um estudo realizado durante a pandemia mostrou que, mesmo em lares de dupla carreira nos quais ambos os parceiros trabalhavam de casa, as mulheres continuavam assumindo a maior parte do preparo das refeições, do cuidado com as crianças e de outras tarefas domésticas. A participação dos homens era frequentemente percebida como ajuda, e não como responsabilidade compartilhada.

Em Uganda, uma pesquisa sobre a vida urbana mostrou ainda que mulheres identificadas como “donas de casa” frequentemente realizavam atividades geradoras de renda, como costura, lavagem de roupas, agricultura ou preparo de alimentos para venda. A flexibilidade dessas ocupações permitia conciliá-las com as responsabilidades de cuidado, mas também tornava menos visível sua contribuição econômica.

A conveniência como resposta às restrições de tempo

É nesse contexto que os alimentos altamente processados e ultraprocessados ganham espaço. O estudo reúne evidências de diferentes países que apontam para uma relação entre restrições de tempo, trabalho remunerado e procura por alimentos que reduzem o esforço necessário para preparar as refeições.

Na Tanzânia, o aumento do emprego assalariado não agrícola entre mulheres, tanto em áreas urbanas quanto rurais, está associado a maior consumo de alimentos processados e refeições fora de casa. Na Nigéria, pesquisas indicam que a disponibilidade crescente desses produtos pode reduzir o tempo anteriormente dedicado ao processamento e ao preparo doméstico, permitindo maior participação das mulheres no trabalho remunerado e no empreendedorismo. Na África do Sul, estudos mostram que as restrições de tempo associadas ao trabalho remunerado tornam a conveniência um fator importante nas escolhas alimentares.

As mães ocupam lugar central nesse quadro. Em Adis Abeba, mulheres que trabalham em tempo integral relatam falta de tempo e energia para cozinhar, tornando a praticidade um critério importante na escolha do que oferecer à família. Em Nairóbi, a crescente participação feminina no mercado de trabalho, combinada à persistência das responsabilidades de cuidado, reduz o tempo disponível para preparar alimentos caseiros e favorece a compra de alimentos complementares processados comercialmente para bebês e crianças pequenas. No Senegal, pesquisas também registram que cuidadores associam a escolha desses produtos à praticidade, mas também a percepções de segurança e adequação nutricional.

Os autores identificam, assim, uma relação de mão dupla. O trabalho remunerado aumenta o custo de oportunidade do tempo destinado ao preparo doméstico dos alimentos, estimulando a procura por alternativas que economizem trabalho. Ao mesmo tempo, a disponibilidade desses alimentos pode reduzir parte do trabalho alimentar não remunerado e facilitar a permanência das mulheres em atividades remuneradas.

Essa relação ajuda a compreender por que políticas que simplesmente condenam o consumo desses produtos ou recomendam mudanças individuais de comportamento podem ser insuficientes. Se não considerarem as condições concretas em que as refeições são produzidas, tais políticas podem aumentar justamente o trabalho que já recai de forma desigual sobre as mulheres.

Uma questão de saúde que não desaparece

Reconhecer as restrições de tempo que favorecem a conveniência não diminui as preocupações sanitárias relacionadas aos alimentos ultraprocessados. O artigo parte da evidência de que dietas com elevada participação desses produtos estão associadas a pior qualidade da dieta e a doenças crônicas relacionadas à alimentação, entre elas obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e determinados tipos de câncer.

Um dos argumentos conceituais destacados pelos autores é que o tempo poupado no preparo dos alimentos pode ter custos posteriores. Quando doenças crônicas aumentam as necessidades de cuidado dentro das famílias, parte do trabalho anteriormente destinado à preparação das refeições pode dar lugar a novas tarefas não remuneradas, como acompanhar familiares a consultas, administrar medicamentos, preparar dietas específicas e oferecer apoio físico e emocional. Em contextos nos quais o cuidado continua fortemente marcado pelo gênero, essas responsabilidades tendem novamente a recair sobre as mulheres.

A questão, portanto, é compreender quem realiza o trabalho necessário para alimentar e cuidar das famílias e como as políticas alimentares podem reduzir, em vez de ampliar, desigualdades já existentes.

Uma cautela importante sobre o conceito de ultraprocessado

O próprio artigo faz uma ressalva metodológica importante. A aplicação da classificação NOVA ao contexto africano nem sempre é simples, porque ainda são limitados os dados detalhados sobre ingredientes, composição e consumo de alimentos em diferentes países da região.

Por essa razão, os autores utilizam conjuntamente os termos alimentos altamente processados e ultraprocessados, ou HP-UPFs, para designar alimentos e bebidas de conveniência, geralmente de perfil nutricional pouco saudável, produzidos por empresas formais ou informais e comercializados por diferentes canais.

Essa cautela é relevante porque alguns alimentos comercialmente produzidos e consumidos na região podem apresentar características semelhantes às de produtos industrializados mesmo quando não são fabricados por grandes corporações ou vendidos em embalagens convencionais. O artigo cita, como exemplo, o mandazi, pão frito tradicional que pode conter quantidades consideráveis de açúcar, óleo e farinha refinada.

A distinção mostra que o estudo não propõe uma simples transposição das categorias desenvolvidas em outros contextos para toda a África Subsaariana. Ele reconhece as particularidades dos sistemas alimentares da região e as limitações dos dados disponíveis.

Os limites de “cozinhe mais em casa”

Diante desse quadro, políticas públicas que se resumem a incentivar o preparo doméstico dos alimentos merecem exame cuidadoso. Do ponto de vista nutricional, ampliar o acesso a alimentos frescos e minimamente processados pode ser desejável. Mas, quando essa recomendação não vem acompanhada de mudanças nas condições de tempo e trabalho, ela pode aumentar a carga física e cognitiva das mulheres.

O estudo relaciona essa questão ao conceito de agência sobre o uso do tempo, desenvolvido em pesquisas de Sabina Eissler e colaboradoras como uma dimensão relevante do empoderamento feminino. Ter maior controle sobre o próprio tempo não significa apenas dispor de algumas horas adicionais, mas também poder decidir como utilizá-las.

A alternativa proposta pelos autores não é abandonar a busca por dietas mais saudáveis, mas ampliar o foco das políticas para os ambientes alimentares. O artigo menciona, a partir da revisão de Michelle Holdsworth e colaboradores, medidas como restrições à publicidade de alimentos não saudáveis, compras públicas para alimentação escolar, melhoria dos mercados informais, reformulação obrigatória de produtos, regulamentação da localização de estabelecimentos de comida rápida, programas de proteção social, tributação de alimentos não saudáveis, subsídios para alimentos saudáveis e políticas comerciais orientadas pela nutrição.

Essas medidas podem ser complementadas por ações que dependem mais diretamente das escolhas dos consumidores, como diretrizes alimentares, rotulagem frontal, regulação de alegações de saúde, educação nutricional e incentivos à oferta de alimentos de rua mais saudáveis.

O princípio é simples. Uma política alimentar não deve exigir das famílias, sobretudo das mulheres, um volume adicional de trabalho que elas já têm dificuldade de acomodar.

As mulheres na produção, não apenas no consumo

Uma contribuição importante do artigo é deslocar as mulheres do lugar de consumidoras ou cuidadoras para reconhecê-las também como agentes econômicas dos sistemas alimentares.

Empresas de pequeno e médio porte lideradas por mulheres estão cada vez mais envolvidas na produção e comercialização de alimentos processados, incluindo farinhas, óleos, lanches, misturas e condimentos destinados também a consumidores de baixa renda. Muitas enfrentam dificuldades de acesso a financiamento, o que limita sua capacidade de cumprir exigências de fortificação, rotulagem e segurança dos alimentos.

Os autores defendem que mecanismos de financiamento vinculados ao cumprimento verificado desses padrões, e não apenas ao volume produzido, podem contribuir para elevar a qualidade e a regularização dessas empresas. Crédito associado a assistência técnica também pode apoiar investimentos em equipamentos de fortificação, controle de qualidade, embalagens e rotulagem adequada.

As compras públicas podem desempenhar papel semelhante. Programas de alimentação escolar, nutrição materna, proteção social e assistência alimentar de emergência poderiam priorizar empresas lideradas por mulheres que cumpram padrões de qualidade e segurança. Além de melhorar a oferta de alimentos, essa estratégia poderia fortalecer iniciativas econômicas conduzidas por mulheres.

Para os autores, essas políticas devem ser construídas com a participação das próprias mulheres, incluindo produtoras, comerciantes, cooperativas e organizações de empresas lideradas por mulheres. Sua experiência deve contribuir para a concepção, implementação e avaliação das medidas adotadas.

Fortificação exige cuidado

A fortificação de alimentos também merece atenção especial. Em contextos nos quais o acesso a dietas diversificadas permanece limitado, alimentos fortificados podem contribuir para enfrentar deficiências de micronutrientes sem aumentar o tempo necessário para preparar as refeições.

Mas a escolha do alimento utilizado como veículo de fortificação é fundamental. Fortificar produtos associados a dietas de baixa qualidade, especialmente quando a regulamentação e a fiscalização são frágeis, pode reforçar a dependência desses produtos e conferir legitimidade a alimentos que continuam apresentando problemas nutricionais.

Por isso, o artigo defende que políticas de fortificação sejam acompanhadas por critérios claros sobre os veículos alimentares utilizados, padrões regulatórios, controle de qualidade e mecanismos de prestação de contas. A fortificação não deve se transformar em justificativa para ampliar a presença de produtos pouco saudáveis na alimentação.

Uma advertência contra leituras simplistas

O artigo também evita tratar a África Subsaariana como uma realidade homogênea. Os países da região apresentam diferenças importantes de renda, urbanização, estrutura dos sistemas alimentares e estágio da transição nutricional. Pesquisas anteriores mostram que países costeiros e de renda mais elevada experimentaram uma adoção mais precoce e acelerada de alimentos processados do que países de renda mais baixa e sem litoral.

Qualquer política precisa, portanto, levar em conta essas diferenças.

Há ainda outra cautela importante. O artigo recorre a estudos feministas africanos que questionam a aplicação automática de perspectivas ocidentais sobre o trabalho alimentar. Elaine Salo e Desiree Lewis, citadas pelos autores, chamam atenção para o fato de que o trabalho das mulheres com os alimentos não pode ser reduzido a fardo ou opressão. Ele também pode envolver conhecimento, autoridade, criatividade, identidade e formas de agência.

Reconhecer a distribuição desigual do trabalho alimentar não exige negar esses significados. Uma política sensível às relações de gênero precisa considerar simultaneamente o peso das responsabilidades e os saberes e capacidades das mulheres que as desempenham.

Os limites da evidência

É importante lembrar que o estudo é uma revisão narrativa, e não uma revisão sistemática. Os próprios autores reconhecem limitações relacionadas à reprodutibilidade, à abrangência da literatura selecionada e ao risco de viés de seleção.

A pesquisa também considerou exclusivamente publicações em língua inglesa. Isso pode ter deixado de fora evidências relevantes produzidas em contextos francófonos e lusófonos da África Subsaariana, além de trabalhos publicados em línguas locais.

Outra limitação decorre da escassez de pesquisas que examinem diretamente a relação entre o uso do tempo pelas mulheres e o consumo de HP-UPFs na região. Parte das conclusões resulta, portanto, da articulação entre diferentes conjuntos de evidências, e não de uma extensa literatura empírica que tenha investigado diretamente essa relação.

Essas limitações não anulam a contribuição do estudo. Elas ajudam a delimitar o alcance de suas conclusões e apontam para a necessidade de novas pesquisas.

Redistribuir o trabalho, ampliar as escolhas

A principal contribuição do estudo está em mostrar que o debate sobre alimentos ultraprocessados não pode ser separado das condições em que as pessoas trabalham, cuidam e se alimentam.

Reduzir o consumo de HP-UPFs continua sendo uma questão relevante de saúde pública. Mas uma política que transfira para as mulheres todo o trabalho necessário para substituí-los por alimentos preparados em casa pode produzir um resultado paradoxal: melhorar um aspecto da alimentação enquanto amplia uma desigualdade existente.

Por isso, os autores defendem medidas capazes de reduzir as restrições de tempo e melhorar os ambientes alimentares. Investimentos em abastecimento confiável de água, combustíveis limpos para cozinhar, energia doméstica, creches, serviços de cuidado e outras infraestruturas públicas podem diminuir o trabalho necessário para sustentar a vida cotidiana.

A redistribuição das responsabilidades domésticas também é fundamental. Preparar refeições, cuidar das crianças e realizar outras tarefas da casa não devem ser compreendidos como colaboração ocasional dos homens, mas como responsabilidades compartilhadas.

O desafio colocado pelo artigo é construir condições nas quais uma alimentação saudável não dependa da existência de horas adicionais na rotina de quem já carrega uma parcela desproporcional do trabalho alimentar e de cuidado. Para isso, é preciso melhorar os alimentos disponíveis, mas também transformar as condições sociais que determinam quem tem tempo para prepará-los, quem decide sobre sua compra e quem arca com o trabalho necessário para alimentar e cuidar de uma família.

Baixe aqui o artigo “Ultra-processed food consumption in sub-Saharan Africa: a narrative review through a gender lens

Rao M, Beltramo B, Addo P et al.Ultra-processed food consumption in sub-Saharan Africa: a narrative review through a gender lensThe Lancet Regional Health – Africa, 2026; 0