Blog do IFZ | 15/08/2026
O que importa
A documentação da FAO apresenta o El Niño 2026 não apenas como uma previsão meteorológica, mas como um risco sistêmico para a agricultura, a segurança alimentar e os meios de subsistência rurais. A Organização trabalha com a possibilidade de um episódio de intensidade forte, capaz de provocar secas em algumas regiões e chuvas excessivas, tempestades e inundações em outras. O alerta ocorre em um contexto mais desfavorável que o de ciclos anteriores: temperaturas globais mais elevadas, conflitos, insegurança alimentar preexistente, restrições orçamentárias e aumento dos custos de energia, fertilizantes e transporte.
A mensagem comum aos materiais é que o El Niño possui desenvolvimento relativamente lento, padrões historicamente observáveis e previsibilidade de vários meses. Por isso, seus efeitos não precisam ser tratados apenas depois de se converterem em perdas agrícolas e crises humanitárias. Sistemas de alerta, mapas de risco, calendários agrícolas, financiamento pré-acordado e planos operacionais podem acionar medidas antes do impacto.
1. O portal geral da FAO: do conhecimento climático à ação antecipatória
O portal da FAO dedicado ao El Niño funciona como porta de entrada para notícias, mapas, publicações, planos de resposta e materiais multimídia. A página explica que o fenômeno decorre do aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico central e oriental, altera padrões meteorológicos em diferentes partes do mundo, reaparece em média a cada dois a sete anos e costuma durar de nove a 12 meses. Para a FAO, essas características fazem do El Niño um caso particularmente propício à ação antecipatória: diferentemente de desastres súbitos, há tempo para transformar previsões em decisões sobre plantio, água, sementes, rebanhos e proteção social.

A figura das tendências históricas do El Niño mostra que seus efeitos não são uniformes. Em amarelo aparecem áreas historicamente associadas a condições mais secas; em azul, aquelas com maior probabilidade de chuvas acima da média. As janelas temporais indicam quando esses impactos costumam ocorrer. Destacam-se a seca entre junho e dezembro no Corredor Seco centro-americano; condições secas no norte da América do Sul entre junho e março; seca na África Austral durante a principal temporada agrícola, entre novembro e março; e chuvas elevadas no Chifre da África, em partes da América do Norte, da Ásia Central e do Pacífico. O mapa representa tendências históricas, não uma previsão determinística para cada território, mas ajuda a identificar onde e quando aprofundar o monitoramento e preparar intervenções.
2. América Latina e Caribe: evidências de que antecipar protege e produz retorno
A publicação Anticipatory action for El Niño in Latin America and the Caribbean sistematiza as ações realizadas pela FAO entre junho de 2023 e fevereiro de 2024 em aproximadamente 300 comunidades de Bolívia, Colômbia, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Venezuela. Mais de 100 mil pessoas — 31.873 famílias — foram atendidas, com prioridade para agricultores de subsistência, pequenos pecuaristas, povos indígenas e domicílios chefiados por mulheres.
As ações foram acionadas com base em previsões do El Niño Southern Oscillation (ENSO), anomalias de precipitação, calendários agrícolas, análises territoriais de risco e cronogramas previamente definidos. Incluíram transferências monetárias, sementes tolerantes a secas ou inundações, recuperação de fontes de água, irrigação, reservatórios, bancos comunitários de sementes, hortas familiares, brigadas de saúde animal e armazenamento de grãos e forragem. Entre os resultados, constam 2.223 hortas familiares, atendimento a mais de 122 mil animais, 1.029 tanques de captação e armazenamento de água e 160 sistemas de irrigação.
O principal achado é econômico e operacional. As intervenções produziram, em média, US$ 2,34 em benefícios para cada dólar investido, com retornos entre US$ 1,36 e US$ 2,98 conforme o país. Houve aumentos de produtividade entre 25% e 300% para culturas como milho, feijão e sorgo e reduções das perdas de produção de até 84%. A publicação conclui que resultados sustentáveis dependem de financiamento flexível, protocolos de ativação, preparação logística, coordenação entre governos e comunidades e integração da ação antecipatória às políticas públicas e aos sistemas de proteção social responsivos a choques.
3. O mapa global dos riscos agrícolas: onde a seca pode atingir mais fortemente
A notícia da FAO “El Niño is coming. Here is where the risks to agriculture are highest”, publicada em 22 de junho, apresenta o mapeamento global dos territórios agrícolas mais expostos. A análise utiliza 41 anos de imagens de satélite do Sistema de Índice de Estresse Agrícola — ASIS — para identificar onde episódios fortes ou muito fortes do ENSO historicamente produziram seca severa em lavouras e pastagens. Em algumas áreas, a resolução chega a um quilômetro quadrado, permitindo substituir alertas nacionais genéricos por decisões territorialmente direcionadas.
Os maiores riscos aparecem no Sahel, na África Austral, no Sul e Sudeste Asiático, no Corredor Seco centro-americano e no Caribe. Partes desses territórios apresentam probabilidade superior a 50% de seca agrícola. Na América Latina, a exposição é elevada no Corredor Seco, Colômbia, Venezuela, Cuba, República Dominicana e Haiti. A previsão regional indicava 70% de probabilidade de precipitação abaixo da média.
A FAO enfatiza que risco não é sinônimo apenas de déficit de chuvas. Uma seca moderada pode tornar-se devastadora onde há fome crônica, conflito, dependência da agricultura de sequeiro, pouca cobertura de proteção social e baixa capacidade de recuperação. O mapa serve, portanto, para priorizar transferências monetárias, sementes resistentes, água, irrigação, ração animal e serviços de extensão. Seu valor dependerá de conectar os dados aos serviços meteorológicos, ministérios da agricultura e agentes locais capazes de fazer o aviso chegar aos produtores antes do plantio ou da deterioração das pastagens.
4. Apelo conjunto FAO–PMA: US$ 202 milhões para proteger 8,8 milhões de pessoas
O comunicado “Bracing for El Niño” apresenta o primeiro apelo conjunto de ação antecipatória lançado pela FAO e pelo Programa Mundial de Alimentos. As agências solicitaram US$ 202 milhões para proteger 8,8 milhões de pessoas em 22 países considerados prioritários entre junho de 2026 e março de 2027. A FAO e o PMA já possuíam recursos e capacidade operacional para alcançar 1,2 milhão de pessoas, mas necessitavam de US$ 167 milhões adicionais para atender outras 7,6 milhões.
A seleção dos países considera previsões meteorológicas, impactos históricos do El Niño, calendários agrícolas, níveis de insegurança alimentar e preparação operacional. Na América Latina e no Caribe, foram priorizados Colômbia, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras e Venezuela. As intervenções propostas incluem transferências em dinheiro, sementes tolerantes à seca ou resistentes a inundações, proteção de rebanhos, captação e armazenamento de água, infraestrutura contra enchentes, assistência técnica agrícola e comunicação de alertas.
O argumento financeiro é central: cada dólar aplicado em ação antecipatória pode produzir até US$ 7 em perdas e custos de resposta evitados. No El Niño de 2023–2024, as duas agências atenderam mais de três milhões de pessoas antes do auge dos impactos. Os planos, parceiros e sistemas de ativação para 2026 já estariam instalados; o principal obstáculo seria disponibilizar recursos antes que os gatilhos sejam atingidos. O apelo procura, assim, corrigir um problema recorrente do financiamento humanitário: a concentração de recursos depois que colheitas, animais e rendas já foram perdidos.
5. O El Niño em um planeta mais quente e em uma economia mais instável
O texto do portal de mudanças climáticas da FAO, “El Niño is coming for agriculture”, publicado inicialmente em 9 de junho, aprofunda a relação entre o risco climático e o contexto econômico global. Além das secas previstas para grandes áreas produtoras, a interrupção da navegação pelo Estreito de Ormuz pressionava os preços da energia e dos fertilizantes justamente quando produtores se preparavam para as temporadas agrícolas. Isso cria uma combinação perigosa: menor disponibilidade de água, insumos mais caros, custos crescentes de transporte e menor capacidade fiscal para responder às perdas.
A FAO recorda que o El Niño de 2015–2016 afetou mais de 60 milhões de pessoas e gerou apelos humanitários de US$ 5 bilhões em 23 países. Na África Austral, o episódio mais recente provocou a pior seca em mais de um século, deixou 61 milhões de pessoas necessitando de assistência e empurrou mais de oito milhões para a insegurança alimentar. No Sudeste Asiático, o evento de 2015 resultou na perda de aproximadamente 15 milhões de toneladas de arroz, pressionando preços e países importadores.
A publicação também mostra como os impactos se encadeiam. Primeiro são perdidas as lavouras; em seguida, deterioram-se pastagens e animais; depois, famílias vendem ativos, acumulam dívidas, reduzem refeições ou migram. A antecipação procura interromper essa sequência no início, por meio da escolha de sementes de ciclo curto, ajustes na época do plantio, reservas de água e forragem e apoio financeiro antes que a perda produtiva se consolide.
6. América Latina e Caribe: risco de perder avanços recentes contra a fome
A notícia do Escritório Regional da FAO, “Latin America and the Caribbean faces increased food insecurity risks due to El Niño”, situa o fenômeno no panorama alimentar da região. Mais de 33 milhões de latino-americanos e caribenhos ainda sofrem de fome, 167 milhões enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave e 181 milhões não conseguem pagar por uma dieta saudável. Ao mesmo tempo, as Américas respondem por 22% das perdas agrícolas mundiais provocadas por desastres, estimadas em US$ 713 bilhões.
Segundo a notícia, a Organização Meteorológica Mundial estimava entre 70% e 80% a probabilidade do El Niño, com intensidade máxima esperada para o fim de 2026. As projeções indicavam déficits de precipitação na América Central e do Norte e chuvas mais intensas em partes da América do Sul, elevando simultaneamente os riscos de seca, enchentes e interrupções produtivas. Combustíveis, fertilizantes e alimentos caros poderiam amplificar os impactos sobre a renda familiar e os orçamentos de proteção social.
Alguns países centro-americanos já haviam acionado planos antecipatórios depois que indicadores meteorológicos alcançaram limites associados à escassez de água. Mais de 76 mil pessoas estavam sendo apoiadas com mensagens práticas, transferências monetárias, distribuição de grãos básicos e monitoramento de estações meteorológicas. A experiência de 2023–2024 reforça a viabilidade dessa estratégia: ações antecipatórias em nove países atenderam mais de 100 mil pessoas e, em alguns países da América Central, contribuíram para aumentar em até 40% a produção de milho e feijão.
7. A mesa-redonda de alto nível: coordenação, financiamento de riscos e proteção social
A Mesa-redonda de Alto Nível sobre os Impactos e a Resposta ao El Niño na América Latina e no Caribe, realizada em 14 de maio, reuniu FAO, Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, PMA, governos, instituições financeiras, doadores, setor privado e organizações da sociedade civil. O ponto de partida foi que choques climáticos, sociais e econômicos já não podem ser tratados separadamente. Secas, enchentes e ondas de calor afetam a produção, mas os danos são multiplicados por inflação, fragilidade institucional, pobreza e baixa cobertura financeira dos pequenos produtores.
A mesa-redonda buscou construir uma narrativa regional comum em torno de três componentes: ação antecipatória, financiamento de riscos e resiliência de longo prazo. A FAO contribui com mapas, previsões, sistemas de alerta e apoio à produção; o FIDA enfatiza investimento rural e fortalecimento das capacidades produtivas; e o PMA agrega transferências, seguros, serviços financeiros digitais e sistemas de proteção social responsivos a choques. A complementaridade procura aproximar a resposta humanitária do desenvolvimento, evitando intervenções desconectadas e tardias.
