Blog do IFZ | 15/08/2026
Lançado globalmente em Roma em 21 de julho, durante a 30ª Sessão do Comitê de Agricultura da FAO, o Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo 2026 — SOFI 2026 produziu uma cobertura marcada por duas leituras complementares. A primeira foi positiva: a fome global recuou pelo terceiro ano consecutivo, atingindo 7,8% da população em 2025, ou aproximadamente 645 milhões de pessoas. A segunda foi de alerta: 2,1 bilhões ainda enfrentavam insegurança alimentar moderada ou grave e cerca de 2,7 bilhões não podiam pagar por uma dieta saudável. O custo mínimo desse padrão alimentar chegou a US$ 4,28 PPC por pessoa ao dia, 25% acima de 2021. A repercussão concentrou-se, portanto, na distância entre consumir calorias suficientes e ter acesso regular a alimentos diversificados e nutritivos.
O mundo melhora, mas muito lentamente
A Folha de S.Paulo, em reportagem da AFP, adotou um enquadramento global e cauteloso. Embora reconheça a recuperação em relação ao pico de 688 milhões de pessoas com fome em 2022, o texto observa que o mundo ainda não retornou à trajetória necessária para cumprir o ODS 2. A projeção de 510 milhões a 520 milhões de pessoas subalimentadas em 2030 evidencia a distância em relação à meta de erradicação. A matéria também destaca a mudança geográfica do problema: nas palavras de David Laborde, da FAO, “o epicentro da fome deslocou-se da Ásia para a África”, continente que poderá concentrar mais da metade da população mundial subalimentada no fim da década.
O jornal português Público também colocou a África no centro de sua cobertura, sob o título “Os conflitos pesam na fome e África foi o continente mais faminto em 2025”. A ênfase recaiu sobre a combinação de guerras, deslocamentos, crises econômicas e eventos climáticos que impede que os ganhos observados em outras regiões se reproduzam no continente. Cerca de 20% da população africana sofre de subalimentação e dois terços não conseguem pagar por uma dieta saudável. O noticiário europeu, assim, tratou o recuo mundial não como uma reversão consolidada, mas como uma melhora frágil e profundamente desigual.
O SBT News, reproduzindo reportagem da Reuters, associou os resultados de 2025 aos riscos que podem interromper a tendência já em 2026. Conflitos no Oriente Médio, mudanças climáticas e perturbações no comércio internacional podem elevar novamente os preços da energia, dos fertilizantes, dos transportes e dos alimentos. A matéria ressaltou que a subnutrição diminuiu em todos os continentes, mas advertiu que mercados fechados, restrições comerciais e choques geopolíticos podem transmitir rapidamente a inflação alimentar aos países importadores e às famílias mais pobres.
Em sua análise do SOFI 2026, David McNair organiza os resultados em quatro mensagens. A primeira é a redução da fome e da insegurança alimentar global; a segunda, a divergência entre os avanços da América do Sul e do Sul da Ásia e a deterioração africana; a terceira, a desigualdade dentro dos próprios países, com maior prevalência de insegurança alimentar nas áreas rurais e impacto desproporcional sobre as mulheres; e a quarta, a dimensão estrutural do custo das dietas saudáveis. McNair chama a atenção para cadeias de frio insuficientes, energia pouco confiável e mercados ineficientes, que encarecem frutas, hortaliças e alimentos de origem animal. Ele acrescenta uma ressalva geopolítica: o Estreito de Ormuz aparece apenas uma vez no relatório, embora eventuais restrições de combustíveis e fertilizantes possam alterar custos e vulnerabilidades. Em comentário posterior, observa ainda que, embora a prevalência seja maior no meio rural, 76% das pessoas em insegurança alimentar vivem hoje em áreas urbanas e periurbanas, devido ao peso crescente da população urbana.
No LinkedIn, Martin Koome sintetizou o relatório como evidência de que os sistemas alimentares permanecem “fundamentalmente desalinhados”. Ele destaca a inversão histórica pela qual a África, com 309 milhões de pessoas afetadas, ultrapassou a Ásia, com 292 milhões, em números absolutos de fome. Seu segundo ponto é a “armadilha da caloria barata”: alimentos de maior densidade nutricional — frutas, hortaliças e proteínas de qualidade — respondem por aproximadamente 70% do custo de uma dieta saudável, enquanto grande parte dos subsídios continua favorecendo calorias básicas produzidas em grande volume. O terceiro ponto é que, diante da redução da ajuda internacional, infraestrutura deve ganhar prioridade sobre respostas emergenciais recorrentes. Cadeias de frio, armazenamento regional e processamento local preservam produtos perecíveis, reduzem perdas e diminuem custos. Para Koome, a desnutrição do século XXI não será resolvida com uma estrutura de subsídios agrícolas desenhada no século XX.
A dieta saudável vira o centro da discussão
A reportagem de O Joio e O Trigo foi uma das que mais exploraram a mudança conceitual proposta pelo relatório. O texto explica que 2,69 bilhões de pessoas — quase um terço da humanidade — não puderam pagar por uma dieta saudável em 2025, enquanto mulheres e crianças continuam especialmente vulneráveis à falta de diversidade alimentar. A matéria detalha ainda as soluções apresentadas pela FAO: investimentos em irrigação, estradas, armazenagem e cadeias de frio; redução das perdas de perecíveis; compras públicas; e revisão dos incentivos que favorecem alimentos básicos ricos em amido, mas pouco contribuem para baratear frutas, hortaliças e proteínas.
Em artigo publicado originalmente pelo Impakter, José Graziano da Silva argumenta que o recuo da fome deve ser entendido como ponto de partida, não de chegada. A próxima agenda precisa combinar dietas saudáveis com proteção social antecipatória, capaz de agir antes que secas, enchentes, inflação ou conflitos destruam renda e meios de subsistência. Para Graziano, programas de transferência de renda, alimentação escolar e compras da agricultura familiar devem ser conectados a alertas climáticos e mecanismos financeiros previamente acordados. A mensagem política é clara: combater a privação somente depois que a crise se transforma em fome é mais caro, menos eficaz e socialmente mais danoso.
A repercussão europeia ganhou um ângulo particularmente político no Politico Europe. A matéria relaciona o elevado preço de frutas e hortaliças à distribuição dos subsídios agrícolas da União Europeia, historicamente concentrados em grandes produtores e em cadeias de commodities e alimentos básicos. Com base no SOFI, questiona-se se o apoio público não está ajudando a preservar uma estrutura produtiva que oferece calorias relativamente baratas, mas torna mais onerosa uma cesta compatível com as recomendações nutricionais. O debate desloca a Política Agrícola Comum de uma discussão estritamente rural para o campo da saúde, da nutrição e da acessibilidade dos alimentos.
Joanne Bentley-McKune ampliou essa discussão ao conectar o SOFI à dependência europeia de fertilizantes nitrogenados. O custo de uma dieta saudável na Europa aumentou 36% entre 2021 e 2025, acima da média global de 25%, enquanto leguminosas como feijão e lentilha ocupam apenas 2,2% das terras aráveis da União Europeia. Para Bentley-McKune, décadas de subsídios favoráveis a cereais, laticínios e carnes tornaram o nitrogênio sintético mais atraente do que a fixação biológica proporcionada pelas leguminosas. Isso marginalizou proteínas vegetais, contribuiu para encarecer dietas saudáveis e manteve carnes vermelhas e processadas relativamente abundantes, com consequências para doenças cardiovasculares e cânceres. A mesma arquitetura criou vulnerabilidade energética, pois o gás natural é matéria-prima do fertilizante nitrogenado. Rotações com leguminosas, fertilização de precisão e melhor manejo poderiam reduzir em até 43% seu uso, com perdas administráveis de produtividade, e economizar até €5 bilhões anuais. A autora associa a lentidão da transição tanto a barreiras agronômicas quanto à influência política do lobby agrícola europeu.
América Latina: menos fome, comida saudável mais cara
Em artigo publicado pelo Diario Libre, Máximo Torero destaca que a fome caiu na América Latina e no Caribe pelo quinto ano consecutivo, alcançando o mínimo histórico de 4,8% em 2025. Foram cerca de 32 milhões de pessoas subalimentadas, 7,5 milhões a menos do que em 2020. O avanço reflete políticas agrícolas, proteção social, transferências monetárias e alimentação escolar. A contradição é que a região registra a dieta saudável mais cara do mundo: US$ 4,91 PPC diários, chegando a US$ 6,04 no Caribe. O próximo desafio, conclui Torero, é fazer com que uma alimentação nutritiva deixe de ser privilégio.
A revista Viva traduziu essa contradição para o público brasileiro. Apesar de a subalimentação regional ter recuado, 25,7% da população latino-americana ainda não consegue custear uma dieta saudável. Os vegetais são o grupo que mais pressiona o preço regional, em razão de perdas, transporte caro e infraestrutura logística insuficiente. A reportagem destaca uma simulação do SOFI segundo a qual um subsídio de 10% à produção, combinado com melhorias na distribuição, poderia reduzir em 8,06% o custo de uma dieta saudável para as famílias da região.
Uma análise sobre a América do Sul, construída a partir dos dados do SOFI 2026, observa que a prevalência de subalimentação caiu de 5,5% em 2020 para 3,5% em 2025. Se mantiver essa trajetória, a sub-região poderá ser a primeira grande região do mundo a ficar abaixo do limite de 2,5% adotado no Mapa da Fome. Mas essa média esconde diferenças expressivas: Bolívia, Suriname, Equador, Peru e Venezuela permanecem bem acima do patamar regional. Além disso, aproximadamente 90 milhões de sul-americanos ainda enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave e cerca de 107 milhões não podem pagar por uma alimentação saudável.
Brasil: o resultado e suas diferentes leituras
A Agência Brasil noticiou a permanência do país fora do Mapa da Fome no triênio 2023–2025, com prevalência de subalimentação abaixo de 2,5%. O dado confirma a saída registrada na edição anterior e mostra continuidade da melhora posterior à pandemia, quando o indicador chegou a 3,5%. A reportagem também destacou a queda da insegurança alimentar grave para 0,6% da população — menor nível da série histórica —, sem apresentar o resultado como eliminação completa da fome ou da vulnerabilidade alimentar.
O Brasil de Fato atribuiu maior peso à retomada das políticas públicas no terceiro governo Lula. Segundo a matéria, aproximadamente 16,7 milhões de brasileiros deixaram a insegurança alimentar grave entre 2023 e 2025. José Graziano da Silva associa o avanço ao crescimento econômico inclusivo, à valorização do salário mínimo, ao Bolsa Família, à alimentação escolar e às compras da agricultura familiar. Ao mesmo tempo, adverte que a média nacional encobre bolsões persistentes de fome, sobretudo no Norte, no Nordeste, na Amazônia, no Semiárido e entre povos e comunidades historicamente excluídos.
A Revista Fórum adotou o enquadramento político mais explícito, apresentando o resultado como “efeito Lula”. A publicação contrapõe a insegurança alimentar grave de 0,6% aos 6,6% registrados no triênio 2021–2023 e enfatiza a reconstrução das políticas descontinuadas em anos anteriores. A matéria também reconhece, porém, que 21,1% dos brasileiros ainda não têm renda suficiente para pagar por uma dieta saudável. Sua leitura combina, portanto, a celebração do resultado governamental com a constatação de que sair do Mapa da Fome não equivale a universalizar uma alimentação adequada.
Em “Dietas saudáveis para todos: os cinco caminhos da experiência brasileira”, Fernanda Machiaveli, ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, acrescenta uma visão programática. Segundo ela, 20 milhões de brasileiros passaram a ter condições de acessar dietas saudáveis desde 2021, elevando para 173 milhões o contingente com acesso econômico a uma alimentação adequada, equilibrada, moderada e diversificada. O texto organiza a experiência nacional em cinco frentes: mudar os incentivos à produção; reduzir os custos de produzir alimentos saudáveis; criar demanda estável; encurtar a distância entre produtores e consumidores; e proteger produtores e famílias contra a volatilidade dos preços. Machiaveli destaca o Plano Safra da Agricultura Familiar, que mobilizou mais de R$ 310 bilhões nas últimas safras e oferece juros menores para alimentos básicos, produção agroecológica, produtos da sociobiodiversidade e agricultores vulneráveis. Também menciona bioinsumos, assistência técnica, estoques públicos e o PNAE, que atende mais de 40 milhões de estudantes e destina pelo menos 45% dos recursos à agricultura familiar.
A repercussão da sociedade civil aparece na manifestação de Luciana Chinaglia Quintão, presidente da Organização Banco de Alimentos. Ela distingue três indicadores que não devem ser confundidos: prevalência de subalimentação, insegurança alimentar baseada na experiência das famílias e possibilidade econômica de comprar uma dieta saudável. No Brasil, 20,6 milhões de pessoas, ou 9,6% da população, enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave; 1,5 milhão encontra-se na categoria grave; e 44,8 milhões não têm renda suficiente para custear uma alimentação saudável. A organização interpreta os dados como advertência contra o risco de uma dieta adequada tornar-se artigo de luxo. A experiência dos bancos de alimentos evidencia que distribuir comida continua necessário, mas não basta: é preciso garantir qualidade nutricional, reduzir desperdícios e ampliar o conhecimento sobre aproveitamento integral dos alimentos. Quintão defende ação coordenada entre governos, empresas e sociedade civil, lembrando que o Brasil pode permanecer fora do Mapa da Fome e ainda conviver com milhões de famílias para as quais frutas, legumes e verduras permanecem economicamente inacessíveis.
Dois países, duas lições
No Diario Libre, José Ignacio Paliza apresenta a saída da República Dominicana do Mapa da Fome como resultado de decisão política e continuidade administrativa. O artigo menciona investimentos agrícolas, irrigação, mecanização, crédito e titulação, além do crescimento da renda real, da redução da pobreza e da ampliação da proteção social. Mais de dois milhões de estudantes recebem alimentação escolar e 1,5 milhão de famílias são atendidas pelo programa Aliméntate. Persistem desafios de obesidade, nutrição infantil e adaptação climática, mas a experiência dominicana é apresentada como demonstração de que escala territorial não determina ambição política.
O policy brief “Chile: del mapa del hambre al liderazgo mundial en obesidad”, de Juan-Ernesto Sepúlveda, descreve uma transição ainda mais complexa. Sete décadas de políticas materno-infantis, alimentação escolar, atenção primária, saneamento e redução da pobreza praticamente eliminaram a desnutrição. Hoje, porém, 74,2% dos adultos apresentam excesso de peso e 31,2% vivem com obesidade; entre escolares, a má nutrição por excesso chega a 50,9%. A rotulagem frontal e a tributação de bebidas açucaradas reduziram compras de produtos críticos, mas não bastaram para conter a obesidade diante de ultraprocessados baratos, sedentarismo, desigualdade e alimentos frescos caros.
A disputa em torno dos ultraprocessados
A investigação da Agência Pública, produzida com O Joio e O Trigo e uma coalizão internacional, ofereceu um contraponto oportuno ao SOFI. A matéria mostra como exigências da Anvisa para advertências em anúncios de produtos com excesso de açúcar, gordura e sódio foram enfraquecidas, judicializadas e permanecem sem efeito há 16 anos. A investigação identificou 239 processos promovidos pela indústria ou seus aliados em seis países entre 2010 e 2025. Se o SOFI pede ambientes alimentares favoráveis a escolhas saudáveis, a reportagem demonstra o poder econômico e jurídico mobilizado para bloquear justamente essas mudanças.
A repercussão entre os economistas da FAO
No LinkedIn, David Laborde resumiu o lançamento com uma fórmula que ganhou força na repercussão técnica: o mundo está “vencendo a batalha pelas calorias”, mas continua “perdendo a guerra pela nutrição”. Ele reuniu os principais números — 645 milhões com fome, 2,1 bilhões em insegurança alimentar e 2,7 bilhões sem acesso econômico a uma dieta saudável — e destacou que o êxito não deve ser medido pela quantidade de dados coletados, mas pelo número de pessoas capazes de pagar por uma refeição nutritiva.
Em outra publicação, Laborde perguntou se a dieta saudável está se transformando em artigo de luxo. Seu ponto central é que até 75% da conta final pode ser formado depois que o alimento deixa a fazenda, por transporte, armazenagem, processamento, distribuição e varejo. Já Máximo Torero definiu o problema como estrutural, não como simples insuficiência de produção: são necessárias cadeias de frio, estradas, irrigação e pesquisa, mas também concorrência, facilitação do comércio e redirecionamento dos incentivos agrícolas para frutas, hortaliças e outros alimentos nutritivos.
Em síntese
A repercussão do SOFI 2026 consolidou uma mudança de foco. A notícia imediata foi o terceiro ano de redução da fome mundial e, no Brasil, a permanência fora do Mapa da Fome. A mensagem mais duradoura, porém, é que o sucesso alimentar já não pode ser medido apenas pelo fornecimento de calorias. O debate deslocou-se para a qualidade, o preço e a resiliência da alimentação. As experiências do Brasil, República Dominicana e Chile mostram que políticas públicas continuadas podem derrotar a fome, mas também que a etapa seguinte exige enfrentar logística, subsídios distorcidos, desigualdade, riscos climáticos e o poder político das grandes corporações alimentícias.
