Sair do Mapa da Fome não basta: o Brasil precisa garantir uma alimentação saudável para todos na crise climática

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Blog do IFZ | 26/08/2026

Em artigo publicado no jornal Valor Econômico em 26 de agosto de 2026, intitulado “Desafio agora é alimentar um país em transformação climática”, Cláudia Calais, diretora-executiva da Fundação Banco do Brasil, e Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa e professora aposentada da Universidade Estadual de Londrina, analisam os avanços recentes do Brasil no combate à fome e alertam para a necessidade de torná-los permanentes. A principal mensagem é clara: deixar o Mapa da Fome é uma conquista importante, mas o país ainda precisa construir um sistema alimentar capaz de enfrentar a má nutrição, as desigualdades e as mudanças climáticas.

O relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026, da FAO, confirma que o Brasil permanece fora do Mapa da Fome. A proporção da população subnutrida está novamente abaixo do limite de 2,5% utilizado pela Organização, depois de ter alcançado 3,5% no período anterior.

O resultado acompanha uma melhora, ainda que insuficiente, no cenário internacional. Em 2025, aproximadamente 645 milhões de pessoas — 7,8% da população mundial — enfrentaram a fome. Isso representa 14 milhões de pessoas a menos do que em 2024 e cerca de 17 milhões a menos em comparação com 2022.

A redução demonstra que políticas de proteção social, geração de renda, combate à pobreza e recuperação econômica podem produzir efeitos concretos. Entretanto, esses avanços permanecem vulneráveis. Conflitos, eventos climáticos extremos, deslocamentos forçados e desequilíbrios do sistema produtivo podem rapidamente reverter resultados que levaram anos para ser alcançados.

A dimensão do problema fica mais evidente quando se observa que 2,5 bilhões de pessoas, aproximadamente 28% da população mundial, ainda vivem em situação de insegurança alimentar moderada ou grave. O fenômeno atinge homens e mulheres em proporções semelhantes e aparece com intensidade crescente nas cidades, contrariando a visão de que a insegurança alimentar seria predominantemente rural.

Ao mesmo tempo, fome e excesso de peso passaram a coexistir dentro dos mesmos países, cidades e até famílias. Em 2025, cerca de 1,9 bilhão de pessoas estavam com sobrepeso e 890 milhões viviam com obesidade. O sobrepeso alcançava 24% dos adultos e 12% das crianças. Em 2024, aproximadamente 450 milhões de crianças apresentavam excesso de peso, número 15% superior ao registrado no ano anterior.

Esses dados revelam uma crise nutricional complexa. A humanidade não enfrenta apenas a falta de calorias, mas também dietas inadequadas, deficiência de nutrientes e aumento das doenças crônicas não transmissíveis, responsáveis por mais de 70% das mortes no mundo. Quase metade da população mundial apresenta alguma deficiência de micronutrientes, sobretudo ferro, vitamina A, iodo e zinco.

No Brasil, uma das respostas mais importantes é o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que alcança cerca de 40 milhões de estudantes em mais de 150 mil escolas. Além de oferecer refeições, o programa melhora as condições de aprendizagem, estimula hábitos alimentares mais saudáveis e cria mercados institucionais para a agricultura familiar.

Outras políticas, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), também contribuíram para ampliar a renda no campo, apoiar o desenvolvimento rural e fortalecer a produção de alimentos.

A agricultura familiar ocupa uma posição estratégica nesse processo. Segundo os dados mencionados pelas autoras, ela responde por grande parte dos alimentos tradicionais consumidos no país e tem participação importante na produção de arroz, feijão, mandioca, milho, frutas e hortaliças. Também mantém alimentos regionais, práticas culturais, sementes crioulas, variedades tradicionais e raças adaptadas às condições locais.

Esse patrimônio é especialmente valioso diante da transformação climática. Sistemas produtivos diversificados, conhecimentos territoriais e recursos genéticos adaptados podem aumentar a resistência da agricultura a secas, enchentes, ondas de calor e novas pragas. Por isso, apoiar a agricultura familiar e a agroecologia não é apenas uma política social: é uma estratégia de segurança alimentar e adaptação climática.

A trajetória brasileira mostra, porém, que os avanços ainda são frágeis. O país já saiu e voltou ao Mapa da Fome em diferentes momentos. Essa alternância evidencia como o direito à alimentação pode ser enfraquecido quando programas são descontinuados, estruturas institucionais são desmontadas ou recursos públicos deixam de ser assegurados.

Transformar conquistas conjunturais em garantias irreversíveis e permanentes exigirá um pacto envolvendo governos, sociedade civil, setor privado, universidades e organismos internacionais. Será necessário articular proteção social, agricultura familiar, agroecologia, educação alimentar, pesquisa, inovação, extensão rural e desenvolvimento territorial.

Segundo as autoras, o novo desafio brasileiro não é somente produzir mais alimentos, mas assegurar que alimentos adequados, saudáveis e sustentáveis cheguem a todas as pessoas, inclusive durante crises climáticas. Combater a fome significa proteger a vida, a dignidade e a justiça social. O Brasil já mostrou que sabe fazer isso. Agora precisa garantir que não haja retrocessos.

A matéria original está publicada no Valor
https://valor.globo.com/opiniao/coluna/um-ano-fora-do-mapa-da-fome.ghtml