Por Walter Belik para o Blog do IFZ | 23/03/2026
A reflexão sobre pobreza, segurança alimentar e promoção da saúde no Brasil adquire maior profundidade quando situada em um arco histórico amplo e, ao mesmo tempo, interpretada por uma perspectiva capaz de recompor a unidade da experiência alimentar. Ao longo de décadas, o pensamento ocidental deslocou sucessivamente seu foco, acompanhando transformações econômicas, sociais e tecnológicas. Ainda assim, persiste uma dificuldade em integrar, de forma consistente, produção, distribuição e consumo. A shiologia oferece, nesse contexto, um horizonte interpretativo particularmente fértil, ao restituir à alimentação sua condição de prática total, inseparável da vida social.
A inflexão inaugurada por Josué de Castro, ao formular a noção de fome oculta nos anos 1940, introduziu um elemento decisivo. Ao demonstrar que a carência alimentar ultrapassa a insuficiência calórica e envolve deficiências qualitativas, ele deslocou o debate para além das métricas tradicionais. A partir desse ponto, o problema alimentar passou a ser continuamente reconfigurado. O avanço da urbanização, nas décadas seguintes, suscitou inquietações quanto à oferta de alimentos; mais adiante, a concentração fundiária impulsionou propostas de reforma agrária como resposta estrutural. Nos anos 1970, a atenção recaiu sobre os sistemas de distribuição, enquanto a crise inflacionária dos anos 1980 trouxe o custo de vida para o centro das preocupações.
A década de 1990 introduziu um novo regime de organização alimentar, marcado pela retração de políticas públicas e pela liberalização dos mercados. Já no início do século XXI, compromissos internacionais recolocaram o combate à fome como prioridade, embora os resultados tenham se mostrado aquém do esperado. Progressivamente, o debate incorporou novos temas, como a qualidade das dietas, a homogeneização alimentar e os impactos ambientais da produção em larga escala. Essa ampliação, embora necessária, acentuou a fragmentação analítica do campo.
É nesse ponto que a shiologia propõe um deslocamento decisivo. Ao partir do eater — o sujeito concreto que se alimenta —, ela reorganiza o problema a partir da experiência vivida, sem dissociar necessidades fisiológicas, práticas culturais e condições materiais. O alimento, designado como shi, não se limita a um objeto; ele inclui o próprio ato de comer, formando uma continuidade que liga corpo e mundo. O conceito de shiance amplia esse entendimento ao abarcar o conjunto das práticas alimentares, da produção ao consumo, compreendidas como partes de uma mesma realidade relacional.
Essa abordagem revela com nitidez as tensões do caso brasileiro. A redução significativa da subnutrição convive com o avanço expressivo da obesidade, compondo um quadro que desafia explicações simplificadoras. Trata-se de uma configuração na qual o acesso à alimentação não é negado em termos quantitativos, mas permanece comprometido em sua dimensão qualitativa. O ambiente alimentar — entendido como a articulação entre produção, preços, regulação e contexto sociocultural — condiciona fortemente as escolhas disponíveis.
A chamada tripla monotonia dos sistemas alimentares contemporâneos ilumina esse processo. A concentração da produção em poucas culturas reduz a diversidade agrícola; a padronização da produção animal reforça essa tendência; e a uniformização das dietas, impulsionada por alimentos ultraprocessados, empobrece a experiência alimentar. No Brasil, tais dinâmicas se intensificam em meio à urbanização acelerada, que transforma hábitos de consumo e reconfigura os espaços de abastecimento.
A partir da shiologia, torna-se possível compreender que o comportamento alimentar não decorre apenas de decisões individuais, mas de condições estruturais. Quando alimentos frescos são menos acessíveis e mais caros, enquanto produtos industrializados são amplamente disponíveis e promovidos, as escolhas tendem a seguir essa lógica. A promoção da saúde, nesse contexto, exige mais do que orientação nutricional; ela requer a reorganização das condições que moldam o cotidiano alimentar.
As políticas públicas assumem, assim, uma função central. O conceito de “shi order” oferece um critério exigente para sua avaliação, ao considerar não apenas eficiência econômica, mas também a capacidade de promover saúde, sustentabilidade e equidade. No Brasil, experiências anteriores demonstraram que a ação estatal pode reduzir a fome de maneira significativa. Contudo, os desafios atuais demandam um aprofundamento qualitativo dessas políticas.
Torna-se necessário incentivar a produção diversificada, fortalecer circuitos locais de abastecimento e ampliar o acesso a alimentos frescos, sobretudo em áreas urbanas. Ao mesmo tempo, a regulação da indústria de alimentos ultraprocessados ganha relevância, especialmente no que diz respeito à publicidade e à composição dos produtos. Essas medidas, articuladas, podem contribuir para a construção de um ambiente alimentar mais favorável à saúde.
As transformações tecnológicas introduzem novas possibilidades. Plataformas digitais permitem encurtar cadeias de distribuição e aproximar produtores e consumidores, ao mesmo tempo em que valorizam identidades alimentares regionais. No entanto, seu potencial depende de orientação pública consistente, capaz de garantir qualidade, transparência e inclusão.
A dimensão cultural da alimentação merece atenção particular. Comer envolve memória, pertencimento e formas de convivência que não podem ser reduzidas a parâmetros nutricionais. No Brasil, a diversidade culinária constitui um patrimônio vivo, cuja preservação pode desempenhar papel relevante na promoção de dietas mais saudáveis. Integrar esse patrimônio às políticas públicas amplia sua eficácia e fortalece vínculos sociais.
A relação entre pobreza e alimentação, nesse quadro, revela-se multifacetada. A renda permanece um fator decisivo, mas não suficiente. A qualidade da dieta, a estabilidade do acesso e a adequação cultural dos alimentos são dimensões igualmente determinantes. A shiologia permite integrar esses elementos sem reduzi-los a variáveis isoladas, oferecendo uma base conceitual mais abrangente.
A questão alimentar, portanto, ultrapassa a dicotomia entre escassez e abundância. Ela diz respeito à forma como a vida coletiva se organiza, envolvendo economia, cultura, saúde e ambiente. Ao recolocar o ato de comer no centro da reflexão, a shiologia convida a uma compreensão mais atenta da experiência humana.
A pergunta simples sobre ter se alimentado adquire, assim, um significado mais amplo. Ela remete à qualidade das relações que sustentam a existência, à forma como se produz, se distribui e se compartilha o alimento. Pensar políticas de segurança alimentar e promoção da saúde a partir dessa perspectiva implica reconhecer que alimentar-se é, ao mesmo tempo, uma necessidade vital e uma forma de participação no mundo comum. É nesse ponto que se delineia a possibilidade de um sistema alimentar mais justo, mais diverso e mais atento à complexidade da vida social.
Baixe aqui o artigo “Poverty, Food Security and Health Promotion Policies in Brazil“





