Relatório da Global Donor Platform for Rural Development mostra que os custos econômicos, sociais e ambientais do modelo atual superam amplamente os investimentos necessários para transformá-lo e defende uma nova articulação entre recursos públicos e privados
Blog do FZ | 29/10/2026
A maneira como o mundo produz, distribui e consome alimentos tem consequências que ultrapassam em muito o abastecimento das populações. Os sistemas agroalimentares influenciam a saúde pública, a conservação da biodiversidade, a estabilidade econômica, as condições de vida das comunidades rurais e a capacidade dos países de enfrentar as mudanças climáticas. Financiar sua transformação, portanto, significa investir simultaneamente em diferentes dimensões do desenvolvimento.
Essa é a perspectiva central do relatório Financiamento de investimentos agroalimentares em grande escala: oportunidades e desafios (Financing Agrifood Investment at Scale: Opportunities and Challenges), elaborado pela Global Donor Platform for Rural Development (GDPRD). Em sua versão de outubro de 2026, o documento examina a dimensão dos recursos necessários, os obstáculos à mobilização de capital e as possibilidades de ampliar o financiamento destinado à transformação dos sistemas agroalimentares.
A análise parte de uma comparação que ajuda a compreender a urgência e a oportunidade desse investimento. Os custos ocultos dos sistemas agroalimentares atuais, associados a impactos sobre a saúde, o meio ambiente e a sociedade, são estimados em US$ 12,7 trilhões por ano. Em contrapartida, o investimento anual necessário para promover uma transformação abrangente é estimado entre US$ 1,2 trilhão e US$ 1,4 trilhão.
A diferença entre essas grandezas dá dimensão ao desafio. Os recursos necessários são expressivos, mas representam uma parcela relativamente pequena da riqueza global, sobretudo quando comparados aos prejuízos produzidos pela manutenção do modelo atual. O relatório sustenta que investir na transformação agroalimentar pode gerar retornos econômicos, sociais e ambientais de grande alcance, ao mesmo tempo que reduz pressões futuras sobre os orçamentos públicos.
Um desafio que reúne alimentação, clima e desenvolvimento
A dimensão humana dessa questão aparece nos dados reunidos pelo documento. Segundo o relatório The State of Food Security and Nutrition in the World 2026, citado no estudo, cerca de 645 milhões de pessoas enfrentaram a fome em 2025. Aproximadamente 2,1 bilhões vivenciaram insegurança alimentar moderada ou grave, enquanto 2,7 bilhões não dispunham de recursos para adquirir uma alimentação saudável.
Esses números refletem dificuldades que se combinam e se reforçam. Conflitos, eventos climáticos extremos, desastres naturais e os efeitos prolongados da pandemia de Covid-19 ampliaram as necessidades de assistência e pressionaram os recursos disponíveis. Ao mesmo tempo, os sistemas agroalimentares contribuem com quase um terço das emissões globais de gases de efeito estufa e estão associados a uma parcela expressiva da perda de biodiversidade.
A transformação desses sistemas exige, assim, uma abordagem que ultrapasse as intervenções destinadas exclusivamente a combater a fome. É necessário melhorar a nutrição, ampliar a sustentabilidade da produção, fortalecer os meios de vida rurais, reduzir os impactos ambientais e aumentar a capacidade de adaptação às mudanças climáticas.
O relatório destaca que mais de 3 bilhões de pessoas dependem, ao menos parcialmente, dos sistemas agroalimentares para sua subsistência. Grande parte delas está entre as populações mais pobres. O desempenho desses sistemas afeta diretamente suas oportunidades de trabalho e renda, assim como a capacidade dos países de construir economias mais inclusivas e resilientes.
Sob essa perspectiva, o financiamento agroalimentar deve ser compreendido como parte de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento. Seus benefícios potenciais abrangem saúde, emprego, igualdade de gênero, biodiversidade, segurança alimentar, paz e estabilidade.
Recursos escassos e prioridades que precisam mudar
A necessidade de ampliar os investimentos contrasta com a redução recente da assistência oficial ao desenvolvimento. Depois de atingir o recorde de US$ 223,3 bilhões em 2023, a ajuda oficial ao desenvolvimento dos países integrantes do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) diminuiu 6% em 2024 e 23,1% em 2025, chegando a US$ 174,3 bilhões. O relatório registra ainda uma projeção de nova queda em 2026.
Essa retração ocorre justamente quando as necessidades de financiamento se tornam mais complexas e os riscos associados à insegurança alimentar e às mudanças climáticas se intensificam. A dificuldade não consiste apenas em mobilizar mais recursos, mas também em definir como empregá-los de maneira a produzir resultados mais abrangentes e duradouros.
Um dos exemplos apresentados pelo documento é a destinação dos subsídios agrícolas. O apoio público ao setor, em escala mundial, supera amplamente os recursos da assistência oficial destinados aos sistemas agroalimentares. Entretanto, parcela significativa desses subsídios permanece desalinhada dos objetivos de melhoria nutricional, sustentabilidade ambiental e adaptação climática.
Redirecionar parte desse apoio para pesquisa e desenvolvimento, infraestrutura rural, práticas agrícolas sustentáveis e serviços ambientais pode contribuir para elevar a produtividade, fortalecer a resiliência e melhorar as condições de vida dos produtores. A mudança, contudo, exige atenção aos efeitos distributivos das reformas, uma vez que a redução ou a reorganização de determinados benefícios pode afetar a renda das famílias rurais no curto prazo.
Outra oportunidade pouco aproveitada está no financiamento climático. De acordo com o relatório, apenas cerca de 4% desses recursos chegam à agricultura, à silvicultura e a setores relacionados. Ampliar essa participação é especialmente importante para uma atividade econômica que contribui para as emissões e, simultaneamente, sofre os efeitos da elevação das temperaturas, das alterações nos regimes de chuva e dos eventos extremos.
O capital privado e os limites das soluções financeiras
A mobilização de investimentos privados ocupa posição importante na estratégia proposta pelo estudo. Os recursos públicos e a assistência internacional, por si sós, não são suficientes para atender às necessidades estimadas. Bancos, investidores, empresas e instituições financeiras de desenvolvimento podem contribuir para ampliar o volume de capital disponível, desde que encontrem condições adequadas para participar.
O relatório, entretanto, recomenda cautela diante das expectativas depositadas nessa mobilização. Apenas entre 5% e 10% dos investimentos agrícolas de instituições financeiras de desenvolvimento e bancos multilaterais de desenvolvimento mobilizam financiamento privado, segundo os dados apresentados no resumo executivo.
O documento também chama a atenção para a interpretação dos resultados do financiamento combinado, conhecido como blended finance. Essa modalidade reúne recursos concessionais, como doações e empréstimos em condições favoráveis, e capital comercial para viabilizar investimentos que, de outra forma, poderiam ser considerados excessivamente arriscados.
Embora ofereça oportunidades relevantes, esse mecanismo não garante, por si só, a entrada de recursos privados adicionais. Em determinadas operações, instituições financeiras de desenvolvimento utilizam recursos concessionais próprios para alavancar seus empréstimos comerciais. Por isso, os indicadores de alavancagem podem transmitir uma impressão exagerada do volume de capital efetivamente mobilizado de fontes adicionais.
A recomendação é aperfeiçoar a avaliação dessas operações, identificar onde a participação pública realmente amplia o investimento e concentrar os instrumentos financeiros nos contextos em que produzem resultados adicionais.
Essa distinção ganha importância quando se consideram os países de baixa renda e as regiões afetadas por conflitos e fragilidade institucional. Nesses ambientes, os riscos são elevados, a infraestrutura é frequentemente insuficiente e as perspectivas de retorno comercial podem não justificar o investimento privado. A necessidade social, entretanto, permanece intensa.
O relatório é explícito quanto a esse limite. A redução da pobreza, o enfrentamento da desigualdade e a garantia da segurança alimentar nessas regiões dependem de financiamento público continuado e de sistemas de proteção social eficazes. Esperar que todos os problemas possam ser resolvidos por projetos comercialmente viáveis significa ignorar diferenças fundamentais entre os contextos nacionais.
Produtores e pequenas empresas no centro da transformação
Um dos maiores desafios do financiamento agroalimentar está em fazer os recursos chegarem aos pequenos produtores e às micro, pequenas e médias empresas que sustentam grande parte das economias rurais.
Embora sejam fundamentais para a produção, o processamento, a distribuição e a comercialização de alimentos, esses agentes enfrentam dificuldades para obter crédito em condições acessíveis. A percepção de risco, a falta de garantias, a informalidade e o custo elevado de atender a operações de pequeno valor restringem seu acesso ao sistema financeiro.
O relatório identifica nesse segmento uma lacuna persistente, frequentemente denominada missing middle, ou faixa intermediária desassistida. São produtores e empresas que necessitam de financiamento para crescer e melhorar suas operações, mas que não conseguem acessar com facilidade os instrumentos disponíveis, seja pela escala reduzida de seus negócios, seja pelas exigências dos financiadores.
Superar essa barreira requer mais do que disponibilizar empréstimos. É necessário articular instituições intermediárias, assistência técnica, mecanismos de mitigação de riscos e agentes capazes de aproximar produtores, empresas e investidores. Também é importante desenvolver produtos financeiros compatíveis com a realidade das atividades agroalimentares, seus ciclos produtivos e suas necessidades de capital.
Essa estrutura de apoio pode ampliar a capacidade de investimento das economias locais, favorecer a geração de renda e fortalecer a segurança alimentar. Seu desenvolvimento, porém, depende de coordenação entre diferentes instituições e de políticas públicas que ofereçam condições adequadas para a atividade econômica.
Uma nova arquitetura de financiamento
A transformação proposta pelo relatório requer mudanças na maneira como doadores, governos, instituições financeiras e empresas organizam suas intervenções. Projetos isolados e de curta duração têm alcance limitado diante de problemas que envolvem estruturas produtivas, mercados, políticas públicas e condições institucionais.
Por isso, o documento defende uma abordagem sistêmica, com programas de longo prazo, maior coordenação entre os financiadores e requisitos administrativos harmonizados. A redução dos custos de transação pode facilitar a execução das iniciativas e permitir que os países beneficiários empreguem mais recursos na implementação das políticas, em vez de destiná-los ao atendimento de exigências divergentes.
A assistência oficial ao desenvolvimento continua sendo essencial nessa arquitetura. Seu papel, contudo, precisa combinar o apoio direto às necessidades mais urgentes com a capacidade de estimular investimentos públicos e privados adicionais, fortalecer instituições e promover reformas estruturais.
Os mecanismos inovadores de financiamento, como títulos verdes e climáticos, títulos de impacto, fundos fiduciários com múltiplos doadores e seguros apoiados por tecnologias de informação e comunicação, podem contribuir para esse esforço. Embora apresentem possibilidades promissoras, ainda são pequenos diante da dimensão dos recursos necessários.
Seu potencial depende da integração com outras medidas. Mercados de capitais, assistência técnica, desenvolvimento das cadeias de valor, intermediação financeira e reformas de políticas públicas precisam funcionar de maneira articulada. Sistemas de informação mais consistentes também são necessários para acompanhar os fluxos financeiros, avaliar os resultados e identificar quais modalidades de financiamento funcionam melhor em cada contexto.
O relatório recomenda, ainda, que os doadores estejam mais dispostos a assumir riscos quando isso puder produzir benefícios relevantes para o desenvolvimento. Essa disposição deve vir acompanhada de critérios transparentes, avaliação de resultados e compreensão das limitações do capital comercial.
Investir agora para ampliar as possibilidades do futuro
As conclusões do estudo apontam para uma escolha de grande alcance econômico e social. Manter os sistemas agroalimentares em sua configuração atual significa prolongar custos elevados para a saúde, o meio ambiente e a sociedade. Transformá-los exige investimentos substanciais, reformas nas políticas públicas e uma combinação mais eficiente de recursos nacionais, assistência internacional e capital privado.
A estimativa de US$ 1,2 trilhão a US$ 1,4 trilhão anuais para essa transformação deve ser considerada à luz dos benefícios potenciais indicados pelo relatório, que aponta a possibilidade de retornos econômicos, sociais e ambientais de pelo menos dez vezes o investimento. A magnitude desses retornos reforça a importância de aperfeiçoar sua mensuração, considerando tanto os resultados econômicos diretos quanto os benefícios para a segurança alimentar, a estabilidade social, a paz e a resiliência.
A Global Donor Platform for Rural Development identifica nesse campo uma agenda de trabalho que envolve governos nacionais, doadores bilaterais e multilaterais, instituições financeiras de desenvolvimento, bancos e agentes privados. Cada grupo tem responsabilidades próprias, mas os resultados dependem da capacidade de coordenar suas ações e de reconhecer os limites dos instrumentos disponíveis.
Aos governos cabe integrar a resiliência dos sistemas agroalimentares aos planos nacionais de desenvolvimento e orientar os orçamentos públicos para prioridades capazes de atrair investimentos complementares. Aos doadores compete preservar e ampliar os recursos destinados ao setor, melhorar sua coordenação e apoiar reformas que removam obstáculos estruturais. Instituições financeiras e bancos domésticos precisam desenvolver soluções compatíveis com as necessidades de pequenos produtores e empresas.
O desafio é amplo, mas as oportunidades também são. Sistemas agroalimentares mais saudáveis, sustentáveis e resilientes podem contribuir para reduzir a pressão sobre os recursos naturais, ampliar as oportunidades econômicas nas áreas rurais e fortalecer as condições de segurança e estabilidade dos países.
O relatório Financing Agrifood Investment at Scale: Opportunities and Challenges oferece uma contribuição importante para essa agenda ao reunir os desafios, as possibilidades e as condições necessárias para financiar a transformação em escala. Sua mensagem central é que a mobilização de recursos precisa ser acompanhada de escolhas melhores, maior cooperação e uma visão de longo prazo.
Financiar os sistemas agroalimentares é, em última análise, investir nas condições que permitem às sociedades produzir alimentos adequados, proteger seus recursos naturais, sustentar meios de vida dignos e construir um futuro mais próspero e estável. O alcance dessa transformação dependerá da capacidade de converter recursos financeiros em mudanças efetivas, com benefícios que ultrapassem os projetos individuais e alcancem o conjunto da sociedade.
Baixe aqui o documento “Financing Agrifood Investment at Scale“
