O bloqueio dos fluxos de fertilizantes, somado ao fenômeno La Niña, anuncia dificuldades para agricultores em escala mundial.
Por Ertharin Cousin, diretora-executiva do Food Systems for the Future Institute, na Foreign Policy | 02/04/2026
Crises alimentares não começam com prateleiras vazias nos supermercados. Elas se iniciam quando insumos agrícolas essenciais escasseiam e os agricultores passam a rever suas decisões de plantio para a safra seguinte. É possível afirmar que a próxima crise alimentar global já está em curso: embora os preços internacionais dos alimentos tenham recuado desde o pico de 2022, os fundamentos que sustentam a oferta futura vêm se deteriorando com rapidez.
Um mês após o início da guerra conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o Estreito de Ormuz permanece fechado. Formuladores de políticas públicas em todo o mundo têm concentrado sua atenção nos riscos que esse bloqueio representa para os mercados globais de energia — afinal, cerca de 20% do petróleo mundial transita por essa rota. No entanto, uma disrupção de alcance potencialmente mais amplo se desenrola para além do setor energético.
Aproximadamente um terço dos fertilizantes transportados por via marítima passa por esse mesmo corredor. O mercado desses insumos se contraiu rapidamente, à medida que embarques de produtos essenciais — como amônia, ureia e enxofre — enfrentam atrasos, desvios de rota e forte elevação nos custos de seguro, impulsionados pelo risco marítimo. Nas últimas semanas, os preços dos fertilizantes nitrogenados e fosfatados subiram entre 20% e 40%, refletindo não apenas restrições de oferta, mas também a crescente incerteza logística.
Energia, fertilizantes e alimentos compõem sistemas profundamente interdependentes: o gás natural sustenta a produção de fertilizantes nitrogenados; os custos de transporte condicionam sua distribuição; e os prêmios de seguro amplificam a volatilidade dos mercados.
Diante desse quadro, os agricultores reagem com rapidez ao encarecimento dos insumos e à incerteza. Reduzem a aplicação de fertilizantes, migram para culturas menos intensivas ou, em casos extremos, adiam o plantio. Essas decisões moldam diretamente a produção agrícola. Menos fertilizantes significam menor produtividade; menor produtividade restringe a oferta; e a oferta mais limitada eleva os preços dos alimentos. Regiões agrícolas centrais — como Estados Unidos, Brasil e partes da Ásia — entram agora em períodos decisivos de plantio. Nelas, muitos produtores já consideram substituir culturas de alta exigência em insumos, como milho, arroz e trigo, por alternativas menos intensivas, como soja, leguminosas e sorgo.
A segurança alimentar depende não apenas das culturas plantadas, mas da capacidade efetiva dos agricultores de acessar os insumos necessários — e da confiabilidade das cadeias globais que asseguram sua circulação.
A agricultura contemporânea se apoia em três nutrientes fundamentais: nitrogênio, fósforo e potássio. O nitrogênio sustenta o crescimento das plantas; o fósforo é indispensável ao desenvolvimento das raízes e à transferência de energia; o potássio reforça a resistência das plantas ao estresse. Entre eles, o fósforo é insubstituível. Ao contrário do nitrogênio, não pode ser sintetizado: precisa ser extraído, processado e distribuído. Sem ele, a produtividade agrícola declina, independentemente de avanços em sementes ou sistemas de irrigação. Ainda assim, sua disponibilidade depende menos da existência de reservas e mais do funcionamento contínuo do sistema produtivo.
A rocha fosfática requer processamento com enxofre e amônia — insumos diretamente vinculados ao setor energético e concentrados em regiões estratégicas, como Arábia Saudita e Catar. O enxofre permite a conversão do fosfato; a amônia sustenta a produção de fertilizantes compostos. Ambos dependem de fornecimento energético estável e de cadeias logísticas sem interrupções. Por essa razão, as perturbações no Estreito de Ormuz não se limitam às rotas marítimas: propagam-se por todo o sistema agrícola global.
Além do conflito no Oriente Médio, tendências ambientais tendem a agravar o quadro. A persistência das condições associadas ao La Niña continua a influenciar os regimes de chuva nas principais regiões produtoras, ampliando a incerteza nas decisões de plantio justamente quando os insumos se tornam mais escassos. Na América do Sul, o fenômeno costuma provocar estiagens no sul do Brasil e na Argentina, reduzindo a produtividade de soja e milho. Na África Oriental, associa-se a chuvas abaixo da média e à seca. No Sudeste Asiático e na Austrália, pode intensificar a variabilidade das precipitações e os riscos de inundação. O ciclo de 2020 a 2022 já havia contribuído para perdas expressivas de safra na América do Sul e agravado a insegurança alimentar no Chifre da África, onde milhões de pessoas dependeram de assistência humanitária.
As pressões simultâneas do conflito e do clima não atuam isoladamente — elas se reforçam. Ao decidir o que — e quanto — plantar, os agricultores respondem a um conjunto de riscos sobrepostos, e não a uma única restrição.
Os efeitos da crise dos fertilizantes serão globais, ainda que desiguais, variando conforme os ciclos agrícolas e o grau de dependência de importações. Entre os países potencialmente mais afetados estão Índia e China. A Índia, fortemente dependente de fertilizantes importados, enfrenta agora uma redução na produção doméstica às vésperas da estação das monções. O Brasil, por sua vez, importa aproximadamente 85% dos fertilizantes que utiliza para sustentar sua produção agrícola. Em grande parte da África Subsaariana e do Sudeste Asiático, agricultores operam com margens estreitas e ajustam rapidamente o uso de insumos quando os custos aumentam.
Essas regiões são pilares da produção alimentar global. O Brasil responde por mais de 50% das exportações mundiais de soja, enquanto a Índia é o maior exportador de arroz do planeta. Quando o uso de insumos diminui, os efeitos ultrapassam fronteiras nacionais, comprimindo a oferta global e ampliando a volatilidade dos preços. O resultado não se limitará a um choque nos mercados de commodities: será uma crise alimentar em grande escala.
As respostas políticas e o diálogo diplomático ainda tendem a reagir a sinais mais visíveis, como picos de preços e episódios de escassez. No entanto, os sistemas alimentares globais funcionam como redes densamente interligadas, nas quais as perturbações se propagam em cadeia. Restrições nos sistemas de energia, transporte e nas condições climáticas moldam a produção muito antes de se refletirem nos mercados.
É fundamental que formuladores de políticas reconheçam esses sinais precoces. Em primeiro lugar, os governos devem tratar os insumos do sistema alimentar — especialmente os fertilizantes e seus componentes — como ativos estratégicos, e os corredores que os transportam como infraestrutura crítica. Em segundo lugar, é necessário diversificar as cadeias de suprimento de insumos agrícolas, pois a dependência excessiva de rotas concentradas de produção e circulação gera vulnerabilidade. Em terceiro, é preciso investir no fortalecimento da resiliência nas propriedades rurais, promovendo maior eficiência no uso de nutrientes, incentivando a saúde do solo e reduzindo a exposição à volatilidade dos mercados de insumos. Por fim — e sobretudo — é necessário deslocar o foco das consequências das crises alimentares, como falhas de produção e choques de preços, para seus fatores antecedentes: o acesso a fertilizantes.
Embora tais medidas estruturais sejam essenciais para mitigar crises futuras, a recomposição imediata do acesso a fertilizantes torna a reabertura do Estreito de Ormuz uma urgência humanitária. O risco não passou despercebido pelas Nações Unidas. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima uma janela de, no máximo, três meses para ação antes que “os riscos se intensifiquem significativamente, afetando as decisões globais de plantio para 2026 e além”.
Em resposta, o secretário-geral da ONU, António Guterres, nomeou um enviado especial para coordenar a resposta internacional ao conflito, incluindo esforços para restabelecer o fluxo de fertilizantes e de bens humanitários. “O fechamento prolongado do Estreito está estrangulando o fluxo de petróleo, gás e fertilizantes em um momento crítico do calendário agrícola global”, afirmou. “Os países do Golfo são importantes fornecedores de matérias-primas para fertilizantes nitrogenados.”
Crises de segurança alimentar não começam quando consumidores se deparam com preços mais elevados. Elas têm origem quando as condições de produção de alimentos começam a se deteriorar. Hoje, esse processo decorre da criação de um gargalo geopolítico provocado pela guerra — agravado pela variabilidade climática. Quando seus efeitos se tornarem plenamente visíveis nos mercados, será tarde demais para uma intervenção eficaz. Como advertiu Guterres: “Estamos nos aproximando da época de plantio em diferentes partes do mundo. Sem fertilizantes hoje, poderemos enfrentar a fome amanhã.”
Ertharin Cousin é diretora-executiva do Food Systems for the Future Institute. Integra o Chicago Council on Global Affairs, é bolsista Robert Weizsäcker da Bosch Academy e pesquisadora visitante no Centro de Segurança Alimentar e Meio Ambiente da Universidade de Stanford. Em 2009, foi nomeada e confirmada como embaixadora dos Estados Unidos junto às agências das Nações Unidas para alimentação e agricultura, em Roma, onde atuou até 2012. De 2012 a 2017, dirigiu o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas como diretora-executiva. X: @Ertharin1
Publicado originalmente na Foreign Policy
https://foreignpolicy.com/2026/04/02/strait-hormuz-fertilizer-food-hunger-crisis-la-nina-us-iran-israel/
