Por José Giacomo Baccarin e Gustavo Jun Yakushiji | 28/04/2026
Baixe aqui o estudo “Os Efeitos dos Choques de Março de 2026 no Preço da Alimentação no Brasil“
1 – Introdução
O ataque bélico concatenado dos EUA e de Israel ao Irã, iniciado em 28 de fevereiro de 2026, trouxe diversas consequências para a economia mundial. O que nos propomos aqui a discutir são os efeitos nos preços que impactam os custos agrícolas, em especial do petróleo (e derivados) e dos fertilizantes. Verificaram-se aumentos expressivos em ambos os casos, com repercussões imediatas no preço do óleo diesel no Brasil. No caso dos fertilizantes, as repercussões tendem a se acentuar no segundo semestre de 2026, quando se inicia a safra brasileira 2026/27.
Houve várias iniciativas do Governo Federal na tentativa de amenizar as repercussões nos preços internos brasileiros. Independentemente de sua fundamentação e oportunidade, deve-se levar em conta que o Brasil apresenta duas fragilidades estruturais que dificultam que medidas de curto prazo sejam mais efetivas. No caso da cadeia do petróleo, embora o Brasil seja, atualmente, exportador do produto, ele depende da importação de um dos seus derivados, o diesel, em um nível de 25% a 30% do consumo interno. No caso dos fertilizantes, a situação é mais frágil ainda, com o Brasil importando próximo a 90% dos fertilizantes químicos usados em sua agricultura.
O que se propõe neste texto é abordar prováveis repercussões ocorridas nos preços ao consumidor brasileiro, no mês de março de 2026. Faz-se isso com o uso das informações do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), relativas ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) e seus componentes, grupos e subgrupos.
2 – Impactos nos Grupos do IPCA
A Tabela 1 apresenta uma comparação entre o ocorrido no primeiro trimestre de 2025 e de 2026. No presente ano, o IPCA registrou um valor menor que em 2025, mas é bom que se diga que, comparando apenas o mês de março, essa relação se inverte. Em março de 2025, o IPCA havia se elevado em 0,56%, passando para 0,88% em março de 2026, podendo caracterizar apenas uma pressão momentânea ou indicar uma mudança de patamar nos preços ao consumidor.

Entre os grupos do IPCA, em três, as variações de 2026 foram menores do que em 2025, ocorrendo o contrário em outros seis grupos. Nos dois que nos interessam mais de perto analisar, observou-se, no grupo de alimentação e bebidas, menor variação em 2026 do que em 2025 e, no grupo de transportes, maior variação. Neste caso, fica evidenciado o efeito da guerra EUA/Israel vs. Irã sobre seus preços, restando saber se isso se reproduzirá nos próximos meses.
3 – Impactos nos Componentes de Alimentação e Bebidas
Entende-se por bem, nesse caso, avaliar o ocorrido em um período maior, no quadriênio 2023-2026. Tem-se verificado, nesses quatro últimos anos, com exceção de 2024, uma acomodação dos preços dos alimentos no Brasil em relação ao forte aumento ocorrido no período da Covid-19, de 2020 a 2022. Nesse triênio, o IPAB (Índice de Preços de Alimentação e Bebidas), em média, subiu 11,2%, enquanto no triênio 2023-25 subiu 3,9%.
Ademais, é importante considerar que a variação de preços de alimentação e bebidas, em especial do subgrupo alimentação no domicílio, tem forte caráter sazonal em determinado ano. Nos meses mais quentes e chuvosos, os preços dos produtos perecíveis tendem a crescer mais do que nos meses mais frios e secos.
Levando esses dois pontos em conta, analisa-se o ocorrido com os dois subgrupos de alimentação e bebidas, com o auxílio da Figura 1. Percebe-se que, no caso da alimentação fora do domicílio (IPAF), suas flutuações no começo de 2026 não se diferenciaram do padrão observado nos anos anteriores.
No caso da alimentação no domicílio, em janeiro e fevereiro de 2026, sua variação de preço foi menor que as verificadas nos mesmos meses de 2024 e 2025. Contudo, em março de 2026, ocorreu uma variação de quase 2,0% no IPAD, a maior variação mensal em todo o período considerado. Dos 16 itens que compõem a alimentação no domicílio, os maiores aumentos constatados em março de 2026 foram em tubérculos, raízes e legumes, com variação de 16,8%; leite e derivados, 4,3%; cereais, leguminosas e oleaginosas, 2,8%; e hortaliças e verduras, com aumento de 2,2%. Em cereais, leguminosas e oleaginosas, a pressão altista se concentrou nos preços do feijão.

Não se pode ter certeza de que a elevação de preços dos itens citados acima esteve ligada aos efeitos derivados da Guerra EUA/Israel vs. Irã. É bem provável que sejam derivados de contingências próprias da produção sazonal das chamadas olerícolas, bem como estejam relacionados com aumentos que já vinham acontecendo nos preços agrícolas do leite e do feijão.
4 – Considerações Finais
Observou-se um impacto no IPCA no mês de março de 2026 da Guerra EUA/Israel vs. Irã, mais evidente no item transportes do que no de alimentação e bebidas. No primeiro trimestre de 2026, contudo, tanto o IPCA quanto o IPAB registraram valores menores que em igual período de 2025. Ou seja, havia espaço para acomodação do ocorrido em março de 2026, diante dos resultados favoráveis de janeiro e fevereiro do mesmo ano.
A questão que resta é o que acontecerá nos próximos meses: se março de 2026 se revelará como início de uma nova trajetória da inflação ao consumidor e de alimentos no Brasil, ou se mostrará apenas como um resultado momentâneo, amenizado nos meses seguintes.
Fugindo do objeto que aqui se analisa, costumeiramente, fica uma questão a ser tratada no longo prazo, que é a dependência do Brasil da importação de diesel e, especialmente, de fertilizantes. Sem elevar custos de produção, seria possível diminuir essa dependência via maior produção nacional?
José Giacomo Baccarin é Professor Economia Rural e Política Agrícola UNESP, campus Jaboticabal (SP). Credenciado Pós-Graduação Geografia UNESP, campus Rio Claro (SP). Diretor Instituto Fome Zero. E-mail: [email protected]
Gustavo Jun Yakushiji é Engenheiro Agrônomo e Mestrando em Estatística e Experimentação Agronômica pela ESALQ/USP.
Referência
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. Rio de Janeiro: SIDRA, 2026. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/home/ipca/brasil. Acesso em: 18 abril 2026.
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