Sair do Mapa da Fome é só o começo, afirma José Graziano da Silva

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Blog do IFZ | 28/04/2026

Um ano após o Brasil voltar a sair do Mapa da Fome, o debate sobre o significado dessa conquista ganha novos contornos. Em entrevista ao Brasil de Fato, no programa Conversa Bem Viver, José Graziano da Silva, diretor do Instituto Fome Zero, reconhece o avanço, mas faz um alerta claro: a vitória é real, mas está longe de ser definitiva.

Segundo Graziano, a rapidez com que o país deixou novamente o Mapa da Fome é histórica. Em apenas dois anos, o Brasil conseguiu reverter um quadro agravado desde 2017 e aprofundado pela pandemia. Ainda assim, ele insiste: “sair do Mapa da Fome é o começo, não o fim”. O indicador utilizado pela FAO — a prevalência de subalimentação (PoU) — mede a disponibilidade média de alimentos, mas não capta plenamente as desigualdades no acesso.

E é justamente aí que reside o principal desafio. Dados recentes da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) mostram que cerca de 30 milhões de brasileiros ainda vivem em insegurança alimentar moderada ou grave. Mais grave ainda é o avanço da chamada insegurança alimentar leve, quando famílias passam a substituir alimentos de qualidade por opções mais baratas — muitas vezes ultraprocessadas. O resultado é paradoxal: menos fome extrema, mas mais má alimentação e obesidade.

Outro ponto destacado por Graziano é o caráter desigual dessa conquista. Nem todo o Brasil saiu do Mapa da Fome. Regiões como Norte e Nordeste ainda apresentam níveis elevados de insegurança alimentar. Em suas palavras, se essas regiões formassem um país, ele provavelmente ainda estaria dentro do Mapa da Fome. Isso reforça a necessidade de políticas territorializadas e mais sensíveis às desigualdades regionais.

A entrevista também chama atenção para uma mudança estrutural no perfil da fome no país. Hoje, ela está cada vez mais concentrada nas periferias urbanas. O processo de urbanização acelerada, muitas vezes marcado pela expulsão do campo, criou bolsões de pobreza onde a fome se combina com outras privações: falta de renda, moradia precária e dificuldade de acesso a serviços básicos. A fome urbana é mais complexa — e mais difícil de combater.

No campo das políticas públicas, Graziano é enfático ao apontar um problema estratégico: a ausência de estoques públicos de alimentos. Em um cenário internacional instável, com conflitos no Oriente Médio pressionando os preços do petróleo e dos fertilizantes, o Brasil perdeu uma ferramenta essencial para conter a inflação de alimentos. Sem estoques, o país fica mais vulnerável à especulação e à volatilidade dos mercados.

Por fim, a entrevista aborda dois riscos crescentes para a segurança alimentar: o uso intensivo de agrotóxicos e a expansão dos ultraprocessados. Graziano alerta para a circulação de substâncias proibidas em outros países e para os impactos ainda pouco mensurados sobre a saúde da população. Ao mesmo tempo, destaca que a substituição de alimentos frescos por produtos industrializados de baixo custo compromete a qualidade da dieta e amplia problemas como a obesidade.

A mensagem central é inequívoca: o Brasil avançou, mas precisa consolidar essa conquista com políticas estruturais. Combater a fome hoje significa ir além do acesso calórico — é garantir renda, qualidade da alimentação, estabilidade de preços e proteção contra riscos futuros.