Modelando a transformação dos sistemas agroalimentares: caminhos, custos e escolhas para acabar com a fome

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Blog do IFZ | 28/04/2026

O artigo “Modelagem de ações para a transformação dos sistemas agroalimentares” (“Modeling Actions for Transforming Agrifood Systems”), assinado por Maximo Torero, economista-chefe da FAO, e David Laborde, diretor de Políticas Agroeconômicas da FAO, propõe uma reflexão central para o debate global: como transformar sistemas alimentares complexos sem ignorar os inevitáveis trade-offs entre fome, nutrição, meio ambiente e pobreza.

Partindo da Agenda 2030, os autores destacam que não basta aumentar a produção de alimentos. O desafio é muito mais amplo: garantir dietas saudáveis, reduzir desigualdades e preservar os recursos naturais, tudo ao mesmo tempo. Isso exige abandonar abordagens setoriais e adotar uma visão sistêmica dos sistemas agroalimentares, entendidos como redes interconectadas que envolvem produção, consumo, renda, comércio e meio ambiente.

Um dos principais aportes do artigo é o uso de modelos econômicos avançados — em especial o modelo global MIRAGRODEP — para simular diferentes cenários de políticas públicas. Esses modelos permitem testar combinações de intervenções e medir seus impactos simultâneos sobre fome, pobreza, nutrição e emissões ambientais. A mensagem é clara: não existe solução única. Diferentes caminhos podem levar aos mesmos objetivos, mas com custos e consequências distintos.

Os autores organizam a transformação dos sistemas alimentares em quatro objetivos interdependentes: erradicar a fome, garantir dietas de qualidade, preservar o meio ambiente e reduzir a pobreza. Esses objetivos funcionam como “blocos” que, quando combinados, revelam a complexidade das decisões políticas. Por exemplo, políticas focadas apenas em reduzir preços podem prejudicar produtores; já o aumento da produção, se mal conduzido, pode degradar o meio ambiente.

A modelagem mostra que combinar políticas é mais eficaz do que apostar em intervenções isoladas. Entre as principais ações analisadas estão: redes de proteção social, alimentação escolar, reorientação de subsídios agrícolas, incentivos ao consumo saudável, inovação tecnológica no campo e redução de perdas e desperdícios. Juntas, essas medidas podem gerar sinergias importantes.

Os resultados são ambiciosos, mas realistas. O estudo indica que é possível reduzir drasticamente a fome até 2030, retirando cerca de 314 milhões de pessoas da subnutrição crônica. Além disso, cerca de 568 milhões de pessoas poderiam passar a ter acesso a dietas saudáveis. No entanto, para alcançar toda a população vulnerável, será necessário fortalecer redes de proteção social bem direcionadas.

Outro ponto crucial é o custo. Acabar com a fome exigiria recursos equivalentes a cerca de 8% do valor dos mercados globais de alimentos — um montante significativo, mas viável quando comparado a outros gastos globais. Mais importante ainda, o estudo mostra que investimentos estruturais reduzem drasticamente o custo futuro das políticas sociais, diminuindo a necessidade de transferências diretas.

Ao mesmo tempo, os autores alertam para os trade-offs ambientais. Algumas políticas podem aumentar emissões ou pressionar o uso da terra, enquanto outras — como a redução de perdas e desperdícios — geram benefícios ambientais claros. Isso reforça a necessidade de políticas integradas, capazes de equilibrar produtividade, inclusão e sustentabilidade.

No fundo, o artigo traz uma mensagem política poderosa: transformar sistemas agroalimentares não é apenas uma questão técnica, mas uma escolha coletiva sobre prioridades e distribuição de recursos. Modelos ajudam a iluminar caminhos, mas as decisões continuam sendo políticas — e urgentes.

Mensagens principais

  • Não há solução única: diferentes políticas podem reduzir a fome, mas geram impactos distintos sobre desigualdade e meio ambiente.
  • Sistemas agroalimentares exigem abordagem integrada, conectando produção, consumo, renda e sustentabilidade.
  • A combinação de políticas é essencial: redes de proteção social, inovação agrícola e mudanças no consumo precisam atuar juntas.
  • Acabar com a fome até 2030 é possível, com redução significativa da subnutrição e ampliação do acesso a dietas saudáveis.
  • O custo é elevado, mas viável — cerca de 8% do mercado global de alimentos.
  • Investimentos estruturais reduzem custos futuros, diminuindo a necessidade de transferências sociais.
  • Trade-offs ambientais existem, reforçando a necessidade de políticas que conciliem produtividade e sustentabilidade.

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Baixe aqui o artigo “Modeling Actions for Transforming Agrifood Systems