Blog do IFZ | 08/05/2026
Os alimentos ultraprocessados ocupam hoje uma posição contraditória na vida contemporânea. Estão associados ao avanço de doenças crônicas, ao aumento da obesidade e à deterioração da qualidade alimentar. Ao mesmo tempo, oferecem algo cada vez mais escasso dentro de muitas casas: tempo. É justamente nesse ponto, frequentemente deixado à margem do debate público, que o artigo Taking cognisance of women’s domestic foodwork in the debate on ultra-processed foods, escrito por Madhura Rao, Belen Beltramo, Christina R. Sadler e Kahlile Youssef Abboud (da Universidade de Maastricht, nos Países Baixos) e publicado na revista científica Critical Public Health, propõe uma reflexão especialmente relevante.
O texto parte de uma observação simples. Boa parte das políticas de saúde que defendem a redução do consumo de ultraprocessados assume, ainda que silenciosamente, que alguém absorverá o trabalho adicional necessário para preparar refeições menos industrializadas. Esse “alguém”, na maior parte do mundo, continua sendo a mulher.
Durante décadas, o debate sobre ultraprocessados concentrou-se nos efeitos biológicos desses produtos. Estudos epidemiológicos associaram seu consumo frequente ao aumento de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, transtornos metabólicos, alguns tipos de câncer e problemas gastrointestinais. Ensaios clínicos recentes reforçaram a relação entre dietas compostas por ultraprocessados, maior ingestão calórica e ganho de peso.
O artigo não contesta esses achados. O que ele faz é deslocar o olhar para outra camada do problema. Quem cozinha quando se recomenda abandonar os produtos prontos? Quem acorda mais cedo para cortar frutas, separar a merenda das crianças, descongelar o feijão ou lembrar que acabou o arroz? Quem passa no mercado depois do expediente e tenta equilibrar preços, pressa e cansaço diante das prateleiras?
Na sociologia feminista, essa dimensão da vida cotidiana costuma ser chamada de foodwork. A expressão inclui não apenas o ato de cozinhar, mas também o planejamento das refeições, as compras, a administração da despensa, a limpeza da cozinha e toda a gestão invisível que sustenta a alimentação doméstica. O artigo mostra que esse trabalho raramente aparece nas formulações econômicas e nas políticas públicas. Como não produz salário nem costuma entrar nas estatísticas tradicionais de produtividade, acaba tratado como se estivesse sempre disponível.
Os dados reunidos pelos autores ajudam a dimensionar o problema. No Brasil, 95,6% das mulheres realizam diariamente atividades relacionadas ao preparo de refeições e à limpeza doméstica, inclusive aquelas submetidas a jornadas integrais de trabalho remunerado. Entre os homens, o percentual cai para 59,8%. Em países europeus, a diferença permanece expressiva. Na Etiópia, ela se amplia ainda mais. Em Myanmar, mulheres cozinham semanalmente muito mais refeições do que homens.
Mesmo em sociedades frequentemente apresentadas como exemplos de igualdade de gênero, a alimentação cotidiana continua organizada de forma desigual. Quando homens cozinham, isso muitas vezes aparece ligado ao lazer, à experimentação culinária ou a ocasiões específicas. Já o trabalho contínuo de pensar a alimentação da família permanece concentrado nas mulheres. São elas que lembram do iogurte que está acabando, da criança que não come determinados alimentos, da marmita do dia seguinte, da avó que precisa reduzir o sal. Pequenas decisões espalhadas ao longo do dia, quase sempre silenciosas.
Essa sobrecarga se torna ainda mais pesada entre mulheres pobres, negras, racializadas ou submetidas a empregos precários. Em bairros onde faltam mercados com alimentos frescos, o transporte é ruim e o deslocamento diário consome horas, os ultraprocessados aparecem frequentemente como solução possível para rotinas atravessadas pela exaustão. Nem sempre se trata de preferência. Muitas vezes, é uma tentativa de tornar o cotidiano minimamente administrável.
O artigo dedica atenção especial aos países de renda média e baixa. Em diferentes regiões da África, da Ásia e da América Latina, a expansão dos alimentos industrializados acompanhou a urbanização acelerada, a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho e mudanças profundas nas estruturas familiares. Nesses contextos, algum grau de processamento alimentar ajudou a aliviar o que os autores descrevem como “pobreza de tempo feminina”.
A situação, porém, está longe de ser simples. Os autores evitam tanto a celebração ingênua dos ultraprocessados quanto uma condenação moral apressada. Esses produtos podem reduzir o tempo gasto no preparo das refeições e facilitar a participação feminina no trabalho remunerado. Mas também contribuem para ambientes alimentares deteriorados e para o aumento de doenças que, mais tarde, frequentemente retornam ao espaço doméstico sob a forma de cuidado. E esse cuidado, mais uma vez, costuma recair sobre as mulheres.
A crítica central do artigo dirige-se ao individualismo presente em muitas campanhas de saúde pública. Recomendações genéricas como “cozinhe mais” ou “evite ultraprocessados” ignoram que cozinhar exige tempo, energia, acesso a alimentos frescos, equipamentos adequados e alguma divisão equilibrada do trabalho doméstico. Uma panela no fogo quase nunca representa apenas uma escolha alimentar. Há também relógios apertados, crianças esperando o jantar, ônibus lotados, turnos extras e a fadiga acumulada de quem tenta fazer caber o dia dentro de horas insuficientes.
Os autores propõem, então, um conjunto de medidas que desloca o debate da esfera exclusivamente individual para uma perspectiva mais ampla.
Uma das recomendações centrais consiste em fortalecer ambientes públicos de alimentação saudável. Escolas, universidades, hospitais e locais de trabalho poderiam oferecer refeições nutritivas e acessíveis, reduzindo a dependência do preparo doméstico constante. Evidências analisadas no artigo mostram que políticas públicas de alimentação institucional conseguem ampliar o consumo de frutas e vegetais e melhorar a qualidade geral das dietas.
Outra orientação importante envolve programas de alfabetização alimentar e culinária voltados para crianças e adolescentes de ambos os sexos. Estudos citados pelos autores indicam que meninos submetidos a experiências culinárias escolares desenvolveram maior autonomia na cozinha e melhores habilidades alimentares. A longo prazo, iniciativas assim podem contribuir para uma divisão menos desigual do trabalho doméstico.
O artigo também menciona campanhas públicas capazes de alterar expectativas sociais profundamente arraigadas. Em vez de retratar mulheres como responsáveis naturais pela alimentação familiar, essas campanhas poderiam mostrar homens e filhos participando efetivamente da rotina alimentar da casa. Experiências realizadas em países como Moçambique e Suécia aparecem como exemplos promissores dessa mudança simbólica.
Outro eixo importante envolve o desenvolvimento de alimentos convenientes mais saudáveis. Os autores fazem questão de distinguir ultraprocessamento de processamento alimentar em sentido amplo. Certas formas de processamento são fundamentais para conservação, segurança sanitária e redução do trabalho doméstico. O problema está sobretudo em formulações industriais marcadas por excesso de açúcar, gordura, sódio e estratégias agressivas de marketing corporativo.
Nesse sentido, o artigo defende regulações mais rigorosas sobre a indústria alimentícia. Os autores criticam modelos baseados apenas em autorregulação empresarial e argumentam que governos deveriam impor padrões nutricionais mais exigentes e limitar ingredientes nocivos.
Há ainda uma valorização importante de iniciativas comunitárias. Cozinhas coletivas, cooperativas alimentares e espaços compartilhados de preparo de refeições aparecem como experiências capazes de reduzir o isolamento do trabalho doméstico e distribuir de forma menos desigual as responsabilidades ligadas à alimentação. Em períodos de crise econômica na América Latina, cozinhas comunitárias muitas vezes funcionaram não apenas como espaços de alimentação, mas também como espaços de apoio mútuo e acolhimento cotidiano.
Ao final, o artigo produz uma mudança importante na maneira de pensar os ultraprocessados. Reduzir seu consumo continua sendo um objetivo relevante para a saúde pública. Mas a pergunta colocada pelos autores talvez seja outra: quando uma sociedade decide que precisa comer melhor, quem paga, em tempo e trabalho, por essa transformação?
Talvez o aspecto mais forte do texto esteja justamente em retirar a alimentação saudável do terreno abstrato das escolhas individuais e devolvê-la à experiência concreta da vida doméstica. À pia cheia no fim da noite. À marmita preparada antes do amanhecer. Ao esforço contínuo de quem sustenta a rotina alimentar de uma família inteira sem que quase ninguém perceba que esse trabalho existe.
Baixe aqui o artigo “Taking cognisance of women’s domestic foodwork in the debate on ultra-processed foods“
Citação
Rao, M., Beltramo, B., Sadler, C. R., & Youssef Abboud, K. (2026). Taking cognisance of women’s domestic foodwork in the debate on ultra-processed foods. Critical Public Health, 36(1). https://doi.org/10.1080/09581596.2026.2664922
