Blog do IFZ | 11/05/2026
O relatório especial The New Geopolitics of Food: Navigating Policies for Resilient Self-Reliance, publicado pelo IPES-Food, oferece uma das análises mais consistentes já produzidas sobre a transformação em curso nos sistemas alimentares globais. Seu ponto de partida é simples apenas na aparência. A alimentação voltou a ocupar posição estratégica nas disputas internacionais.
Durante décadas, predominou a ideia de que mercados integrados, cadeias logísticas globais e livre circulação de mercadorias seriam suficientes para garantir abastecimento contínuo, preços estáveis e segurança alimentar. Em nome dessa lógica, muitos países reduziram estoques públicos, desmontaram mecanismos de regulação agrícola e ampliaram sua dependência de importações.
O relatório sustenta que esse modelo entrou em uma fase de instabilidade estrutural.
Pandemia, guerras, disputas comerciais, eventos climáticos extremos, crises energéticas e enfraquecimento das instituições multilaterais passaram a atuar simultaneamente sobre produção, transporte, preços e acesso aos alimentos. O resultado é um ambiente internacional marcado por volatilidade crescente e por uma sensação permanente de insegurança.
Mais do que uma sequência de crises isoladas, o documento identifica uma mudança profunda na organização do sistema alimentar mundial. A segurança alimentar já não pode ser tratada apenas como consequência automática do funcionamento dos mercados globais. Ela depende cada vez mais da capacidade dos Estados de proteger, coordenar e estabilizar seus próprios sistemas alimentares.
Dependência externa e fragilidade estrutural
O estudo mostra que a arquitetura alimentar construída nas últimas cinco décadas foi organizada em torno de cadeias produtivas extensas, estoques reduzidos e elevada concentração econômica. Esse modelo funcionava relativamente bem em períodos de estabilidade geopolítica. Quando sucessivos choques passaram a atingir o sistema simultaneamente, suas fragilidades tornaram-se evidentes.
A pandemia de Covid-19 expôs a vulnerabilidade das cadeias globais de abastecimento. A guerra na Ucrânia agravou a instabilidade ao comprometer fluxos essenciais de grãos, fertilizantes e energia. Em seguida, o aumento das tensões comerciais entre grandes economias aprofundou ainda mais a volatilidade internacional.
Os impactos são especialmente severos para países dependentes de importações alimentares.
O relatório observa que diversas economias do Sul Global chegaram aos últimos anos com capacidade reduzida de intervenção pública. Programas de ajuste estrutural implementados ao longo de décadas enfraqueceram políticas agrícolas nacionais, diminuíram estoques estratégicos e ampliaram dependências externas.
Nesse contexto, oscilações internacionais rapidamente se convertem em inflação doméstica, aumento da fome e pressão sobre contas públicas.
Segundo o estudo, os preços globais dos alimentos permaneceram, em média, mais de 35% acima dos níveis registrados em 2019. Em muitos países de baixa renda, o encarecimento dos alimentos ocorreu ao lado do crescimento do endividamento externo e da deterioração das condições sociais.
O poder crescente das grandes corporações
Outro eixo central do relatório é a concentração econômica do sistema agroalimentar.
Nas últimas décadas, fusões sucessivas reduziram drasticamente o número de empresas dominantes nos setores de sementes, fertilizantes, agroquímicos, processamento e distribuição de alimentos. O documento argumenta que essa concentração ampliou a capacidade de grandes corporações influenciarem preços, cadeias de suprimento e estratégias produtivas em escala global.
Durante períodos de crise, empresas altamente concentradas conseguem proteger margens de lucro com muito mais facilidade do que produtores e consumidores conseguem se proteger dos aumentos de preços.
O relatório menciona casos em que grandes grupos do setor varejista e fabricantes de fertilizantes elevaram preços acima do crescimento efetivo de seus custos entre 2020 e 2022.
Há ainda outro problema. Cadeias globais excessivamente centralizadas possuem baixa capacidade de adaptação diante de rupturas simultâneas. O sistema foi desenhado para máxima eficiência operacional em tempos normais, não para absorver crises prolongadas.
As mudanças climáticas tornam essa situação ainda mais delicada. Secas, enchentes e eventos extremos ampliam oscilações produtivas e pressionam mercados agrícolas já instáveis. A crise climática e a instabilidade geopolítica passaram a reforçar-se mutuamente.
O retorno das políticas públicas de estabilização
Diante desse cenário, o relatório propõe recuperar instrumentos de política econômica que perderam espaço nas últimas décadas.
O estudo dedica atenção especial aos mecanismos de gestão de mercados, entre eles estoques públicos de alimentos, reservas estratégicas, sistemas de controle de oferta e estruturas cooperativas de comercialização.
O objetivo não é defender isolamento econômico nem fechamento comercial. O argumento é mais pragmático. Em um ambiente internacional cada vez mais instável, governos precisam recuperar capacidade de estabilização alimentar.
A experiência da Índia ocupa lugar central nessa discussão.
O sistema público administrado pela Food Corporation of India combina compras governamentais de grãos, preços mínimos para produtores e distribuição subsidiada de alimentos para grande parte da população. Segundo o relatório, cerca de dois terços dos indianos são alcançados pelo programa.
O documento reconhece limitações importantes, incluindo custos elevados e falhas logísticas. Ainda assim, sustenta que o sistema desempenhou papel decisivo na redução da volatilidade durante a crise alimentar de 2007-2008 e também no período posterior à pandemia.
Na África Ocidental, o estudo destaca as reservas alimentares regionais organizadas pela ECOWAS. O modelo articula estoques locais, nacionais e regionais para responder a emergências climáticas e interrupções de abastecimento. Além disso, prioriza compras de produtores da própria região, fortalecendo mercados locais e reduzindo dependências externas.
Canadá, Noruega e os sistemas de gestão de oferta
O relatório também analisa experiências de países desenvolvidos que mantiveram instrumentos públicos de coordenação agrícola mesmo durante o avanço da liberalização econômica.
No Canadá, mecanismos de gestão de oferta ajudaram a estabilizar o setor de laticínios, reduzindo oscilações extremas de preços e oferecendo maior previsibilidade aos produtores. Na Noruega, cooperativas agrícolas desempenham papel central na comercialização e na sustentação econômica de regiões rurais menos favorecidas.
O documento não ignora críticas dirigidas a esses sistemas. Modelos de regulação podem elevar custos ao consumidor e exigir maior investimento público. Ainda assim, o relatório questiona a ideia de que políticas alimentares devam ser avaliadas exclusivamente pelo menor preço imediato.
Estabilidade social, segurança alimentar, sustentabilidade ambiental e capacidade de enfrentar crises futuras também precisam integrar o cálculo econômico.
A proposta de uma autonomia resiliente
O conceito que organiza o relatório é o de resilient self-reliance, expressão que pode ser traduzida como autonomia resiliente.
A proposta busca evitar dois extremos. De um lado, a dependência excessiva de mercados globais altamente concentrados e vulneráveis. De outro, respostas nacionalistas fechadas e protecionismos agressivos.
O estudo defende o fortalecimento de sistemas alimentares domésticos e regionais capazes de reduzir vulnerabilidades externas sem romper cooperação internacional e comércio.
Nesse contexto, a agroecologia aparece como elemento estratégico. O relatório argumenta que sistemas produtivos excessivamente dependentes de fertilizantes sintéticos, combustíveis fósseis e insumos concentrados tornam-se particularmente frágeis em períodos de instabilidade geopolítica. Já sistemas agroecológicos diversificados tendem a apresentar maior capacidade de adaptação diante de choques econômicos e climáticos.
O documento também valoriza mercados territoriais e cadeias curtas de abastecimento. Durante os períodos mais críticos da pandemia, estruturas locais demonstraram maior capacidade de manter circulação de alimentos mesmo diante de rupturas logísticas internacionais.
Um debate que vai além da agricultura
A principal contribuição do estudo talvez esteja em recolocar a alimentação no centro do debate sobre soberania, estabilidade social e democracia.
Durante muito tempo, sistemas alimentares foram tratados como questão essencialmente técnica ou comercial. O relatório mostra que essa visão se tornou insuficiente. A forma como países produzem, distribuem e regulam alimentos influencia diretamente sua capacidade de enfrentar crises econômicas, climáticas e geopolíticas.
Num cenário internacional cada vez mais fragmentado, dependência alimentar tornou-se também vulnerabilidade política.
O relatório do IPES-Food não oferece soluções simples nem modelos únicos. Seu argumento é mais cuidadoso. Defende que governos recuperem capacidade pública de coordenação, fortaleçam sistemas produtivos locais, reduzam dependências excessivas e ampliem mecanismos cooperativos capazes de proteger populações diante de crises futuras.
A questão central já não consiste apenas em ampliar produção agrícola. O desafio é construir sistemas alimentares capazes de combinar estabilidade, sustentabilidade, diversidade e segurança social em um mundo menos previsível.
As mensagens centrais do relatório
O estudo organiza suas conclusões em quatro mensagens principais.
A primeira afirma que uma nova geopolítica dos alimentos já está transformando a segurança alimentar global. Conflitos armados, guerras comerciais, choques climáticos e enfraquecimento das instituições multilaterais ampliam volatilidade, fome e desigualdades, atingindo sobretudo países dependentes de importações alimentares.
A segunda sustenta que mecanismos de gestão de mercados podem ajudar a estabilizar sistemas alimentares. Estoques públicos, reservas estratégicas e sistemas cooperativos demonstraram capacidade de reduzir vulnerabilidades e proteger produtores e consumidores em períodos de crise.
A terceira mensagem defende a construção de uma autonomia resiliente baseada no fortalecimento das capacidades domésticas e regionais de produção, no apoio à agroecologia e em formas mais equilibradas de cooperação comercial.
Por fim, o relatório afirma que o mundo atravessa um momento decisivo para a política alimentar. As escolhas realizadas agora determinarão se os sistemas alimentares do futuro serão mais resilientes, mais justos e mais preparados para enfrentar crises sucessivas — ou mais vulneráveis à concentração econômica, à instabilidade geopolítica e às mudanças climáticas.
Baixe aqui o relatório “The New Geopolitics of Food: Navigating Policies for Resilient Self-Reliance“
