Blog do IFZ | 16/07/2026
Publicado em março deste ano na revista The Lancet Global Health, o artigo ”Impacto de programas de fortificação de alimentos em larga escala nas deficiências de micronutrientes e seus custos de implementação: uma análise de modelagem” (Impact of large-scale food fortification programmes on micronutrient inadequacies and their implementation costs: a modelling analysis) apresenta a primeira estimativa mundial sobre o alcance e o custo dos programas de fortificação de alimentos básicos. A pesquisa, conduzida por uma equipe internacional liderada por Valerie Friesen e Christopher Free, reuniu dados de 185 países e ofereceu um retrato até então inexistente sobre o quanto a adição de nutrientes a alimentos como sal, farinha de trigo, óleo, arroz e farinha de milho já protege a população mundial e quanto ainda falta para que essa proteção alcance seu potencial máximo.
A deficiência de micronutrientes está longe de constituir um problema periférico. Estima-se que, em todo o mundo, 372 milhões de crianças em idade pré-escolar e 1,2 bilhão de mulheres em idade reprodutiva apresentem carência de ao menos um entre quatro nutrientes essenciais: ferro, zinco, folato e vitamina A. As consequências dessas insuficiências vão do comprometimento do crescimento infantil a prejuízos cognitivos, redução da produtividade econômica e, em situações mais graves, morte prematura. Faltava, entretanto, uma avaliação global da capacidade dos programas de fortificação já existentes para reduzir esse quadro, uma vez que a maior parte dos estudos anteriores se concentrava em países ou grupos populacionais específicos.
Para enfrentar essa lacuna, os pesquisadores combinaram duas grandes bases internacionais de dados. O Global Dietary Database reúne informações sobre o consumo alimentar em 185 países. O Global Fortification Data Exchange documenta padrões regulatórios, cobertura e conformidade dos programas de fortificação em funcionamento ao redor do mundo. A partir desse cruzamento, a equipe analisou treze micronutrientes e simulou seis cenários distintos, desde a completa ausência de fortificação até uma situação que combina padrões harmonizados internacionalmente, elevada conformidade industrial e expansão da cobertura para novos países. Os custos de cada cenário incorporaram o valor dos micronutrientes adicionados aos alimentos, as despesas industriais de implementação e os gastos governamentais de monitoramento e fiscalização.
Poucas intervenções em saúde pública apresentam uma relação tão favorável entre custo e benefício quanto a observada neste estudo. Segundo os autores, os programas atualmente em vigor evitam sete bilhões de casos de ingestão inadequada de micronutrientes por ano, a um custo médio de apenas dezoito centavos de dólar por pessoa. O valor representa uma parcela diminuta das perdas econômicas associadas à subnutrição, estimadas em dezenas de bilhões de dólares anuais.
Nenhuma das iniciativas analisadas alcançou resultados comparáveis aos da iodação do sal. Antes da adoção dos programas de fortificação, cerca de 3,8 bilhões de pessoas apresentavam ingestão insuficiente de iodo. Com os programas atualmente ativos em 139 países, esse número caiu para 473 milhões de indivíduos, uma redução de 87%. A fortificação com ferro também apresenta resultados expressivos, prevenindo 1,4 bilhão de casos de deficiência e reafirmando evidências acumuladas ao longo de décadas sobre os benefícios da adição desse mineral a farinhas e outros alimentos processados.
Os autores, contudo, mantêm distância de qualquer interpretação excessivamente otimista. Mesmo considerando todos os programas atualmente em funcionamento, permanecem 38,6 bilhões de casos de inadequação nutricional em todo o mundo, sobretudo relacionados à vitamina E, ao cálcio, à riboflavina, à vitamina B6 e ao folato. Parte da explicação reside na baixa qualidade das dietas consumidas por bilhões de pessoas. Outra parte decorre das limitações dos próprios programas de fortificação, que frequentemente operam abaixo dos níveis de conformidade previstos pela regulamentação.
É precisamente nesse ponto que o estudo identifica a oportunidade mais imediata de progresso. A elevação da conformidade industrial aos padrões já existentes para pelo menos 90% permitiria evitar 13,1 bilhões de inadequações em comparação com um cenário sem qualquer fortificação, mais que duplicando os benefícios atuais, a um custo médio de apenas 23 centavos por pessoa ao ano. Quando essa medida é combinada ao alinhamento dos padrões nacionais às diretrizes internacionais da Organização Mundial da Saúde, o número sobe para 17,2 bilhões de casos evitados. A expansão dos programas para países ainda pouco contemplados elevaria esse total para 24,7 bilhões de inadequações prevenidas, praticamente três vezes o impacto observado hoje, a um custo anual médio de 1,15 dólar por pessoa.
Esses números precisam ser interpretados dentro de um contexto mais amplo. Mesmo no cenário mais favorável considerado pelos pesquisadores, 20,9 bilhões de casos de carência nutricional continuariam existindo. O resultado recorda que a fortificação, embora altamente eficaz, não substitui dietas variadas e de boa qualidade, ainda inacessíveis para aproximadamente 2,6 bilhões de pessoas em todo o planeta. O estudo também chama atenção para um aspecto menos debatido do tema, o risco de consumo excessivo. Em cenários de fortificação mais intensa, mais de 15% da população mundial poderia ultrapassar os limites recomendados de ingestão de iodo e zinco, o que reforça a importância do monitoramento contínuo e da calibragem cuidadosa dos programas.
Sob a perspectiva econômica, a farinha de trigo concentra entre 66% e 80% dos custos totais dos cenários analisados, resultado do elevado consumo global desse alimento e da diversidade de nutrientes normalmente adicionados a ele. O arroz aparece em seguida, respondendo por até 22% das despesas, enquanto sal, óleo e farinha de milho representam parcelas menores. Em praticamente todos os casos, com exceção do sal, o próprio premix nutricional corresponde a pelo menos 70% do investimento realizado, tornando os programas particularmente sensíveis às oscilações do mercado internacional desses compostos.
Os benefícios de uma maior conformidade industrial também variam consideravelmente entre os micronutrientes. A vitamina A seria a principal beneficiária, com 1,1 bilhão de casos adicionais evitados apenas por essa medida. Riboflavina, folato, zinco e tiamina aparecem logo em seguida, todas com ganhos superiores a 600 milhões de pessoas. Quando se incorpora o alinhamento dos padrões nacionais às recomendações internacionais, o folato passa a ocupar posição central, com 1,71 bilhão de casos adicionais prevenidos. O sul da Ásia oferece um exemplo particularmente ilustrativo desse potencial. Como o arroz constitui alimento cotidiano para grande parte da população da região, sua fortificação poderia reduzir a carência de folato entre centenas de milhões de pessoas.
O estudo reconhece igualmente suas limitações metodológicas. Os autores observam que as estimativas utilizam valores fixos de ingestão calórica por país, o que pode introduzir distorções em contextos específicos. Também reconhecem que parte dos dados relativos à conformidade industrial foi obtida por consultas a especialistas, incorporando um grau inevitável de incerteza, ainda que as análises de sensibilidade indiquem impacto reduzido sobre os resultados globais. Estratégias como biofortificação e suplementação direta de micronutrientes ficaram fora do escopo da pesquisa e são apontadas pelos próprios autores como caminhos importantes para investigações futuras.
A principal conclusão do trabalho permanece ao mesmo tempo simples e promissora. A fortificação em larga escala figura entre as intervenções de saúde pública mais custo-efetivas já avaliadas e pode contribuir de forma decisiva para os avanços necessários ao cumprimento da meta das Nações Unidas de erradicar a fome até 2030. Seu potencial, contudo, depende da articulação com outras estratégias, entre elas a melhoria da qualidade das dietas, a suplementação dirigida a grupos vulneráveis e sistemas de vigilância capazes de equilibrar benefícios e riscos. O estudo publicado na The Lancet Global Health oferece, assim, uma referência valiosa para compreender tanto os progressos já alcançados quanto a dimensão dos desafios que permanecem diante do combate à fome oculta.
Baixe aqui o artigo “Impact of large-scale food fortification programmes on micronutrient inadequacies and their implementation costs a modelling analysis”
Friesen V, Free C, Adams K et al. Impact of large-scale food fortification programmes on micronutrient inadequacies and their implementation costs: a modelling analysis. The Lancet Global Health, 2026; 14, e762-e771
https://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(26)00023-9/fulltext
