Etiquetagem pioneira e imposto sobre bebidas açucaradas reduziram o consumo de produtos com excesso de açúcar, mas o elevado custo da alimentação saudável, o sedentarismo, o ambiente obesogênico e as desigualdades sociais continuam favorecendo o avanço da obesidade
Blog do IFZ | 23/07/2026
“Chile: da saída do mapa da fome à liderança mundial em obesidade” (“Chile: de la salida del mapa del hambre al liderazgo mundial en obesidad“), policy brief elaborado pelo Dr. Juan-Ernesto Sepúlveda, analisa a evolução das políticas alimentares chilenas e reconstitui uma das mais bem-sucedidas e duradouras experiências de combate à fome das últimas décadas. Entre o relatório SOFI 2025, da FAO, que situou o país no limiar técnico de 2,5% de subalimentação, e a edição de 2026, que o posiciona formalmente abaixo desse patamar, o Chile concluiu um percurso iniciado ainda no começo do século XX, quando as primeiras ollas infantiles passaram a oferecer alimentação a crianças em situação de pobreza.
A conquista não pertence a um governo específico, e o documento faz questão de enfatizar esse aspecto. Ao longo de quatro grandes períodos históricos, abrangendo governos radicais, democratas-cristãos, a Unidade Popular, a ditadura militar e, posteriormente, sucessivos governos democráticos de diferentes coalizões, o país preservou, sem descontinuidades significativas, suas principais políticas de alimentação e nutrição materno-infantil. O Programa Nacional de Alimentação Complementar, criado em 1954, condicionou a distribuição de alimentos ao comparecimento aos serviços de saúde, articulando nutrição, vacinação e acompanhamento do crescimento infantil. A alimentação escolar da JUNAEB, iniciada em 1964, e a recuperação nutricional intensiva promovida pela CONIN, sob a liderança de Fernando Mönckeberg, que tratou mais de noventa mil crianças em trinta e três centros especializados, completaram uma arquitetura institucional que resistiu inclusive à grave crise fiscal de 1982 e 1983. A esse conjunto de políticas somaram-se a expansão da atenção primária à saúde, a ampliação do saneamento básico, o aumento da escolaridade materna e a expressiva redução da pobreza. Como resultado, entre 1960 e 2000, a desnutrição em crianças menores de seis anos caiu de aproximadamente 37% para 2,9%, enquanto a mortalidade infantil recuou de cerca de 120 para menos de 10 óbitos por mil nascidos vivos.
A partir de 1990, a redemocratização aprofundou essa trajetória. O crescimento econômico, acompanhado da contínua redução da pobreza, deu sustentação a programas como o Chile Solidário, criado em 2002, e o Chile Cresce Contigo, lançado em 2007, consolidando um sistema de proteção integral à primeira infância. Mesmo a alternância de coalizões no poder entre 2006 e 2022 preservou esse legado e incorporou novas respostas à transformação do perfil nutricional da população.
Da desnutrição à obesidade
Enquanto a desnutrição desaparecia dos indicadores nacionais, uma rápida transição nutricional transformava o perfil epidemiológico do país. Hoje, 74,2% dos adultos chilenos apresentam excesso de peso e 31,2% vivem com obesidade, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2017. Entre os escolares, o Mapa Nutricional da JUNAEB, construído a partir de acompanhamento censitário realizado há décadas, registra 50,9% de malnutrição por excesso. O Chile reúne atualmente a maior prevalência de obesidade adulta da América do Sul e figura entre os países de alta renda com maiores índices de obesidade entre crianças e adolescentes, realidade que o distingue mesmo em uma região marcada pela dupla carga da má nutrição.
O policy brief propõe uma interpretação cautelosa dessa transformação. As estratégias que eliminaram a desnutrição, baseadas em alimentos de elevada densidade energética, mostraram-se plenamente adequadas diante da escassez nutricional, mas perderam aderência em um ambiente alimentar profundamente modificado. O documento ressalta que essa interpretação representa uma hipótese amplamente compartilhada pela comunidade científica chilena, e não uma relação causal demonstrada. Também identifica outros fatores decisivos para a persistência da obesidade, entre eles o elevado custo da alimentação saudável, o ambiente alimentar favorável aos ultraprocessados, os altos níveis de sedentarismo e as desigualdades sociais e territoriais que afetam com maior intensidade crianças e populações mais vulneráveis.
Políticas pioneiras, resultados parciais
A resposta regulatória chilena tornou-se referência internacional. A Lei 20.606, em vigor desde 2016, instituiu o primeiro sistema obrigatório de selos frontais de advertência do mundo, enquanto o imposto sobre bebidas açucaradas foi ampliado em 2014. Estudos científicos registraram redução de 23,7% nas compras de bebidas com alto teor de açúcar e queda de 21,6% no volume adquirido das bebidas mais tributadas. A indústria reformulou diversos produtos para reduzir nutrientes críticos, sem que as avaliações disponíveis identificassem efeitos adversos relevantes sobre emprego, salários, preços ou rentabilidade.
Apesar desses resultados, a obesidade continua aumentando, sobretudo entre crianças pequenas e grupos socialmente mais vulneráveis, tendência agravada após a pandemia de COVID-19. O documento observa que reduzir o consumo de produtos ultraprocessados não basta para ampliar o acesso a alimentos saudáveis quando frutas, verduras e legumes permanecem relativamente caros para grande parcela da população. Soma-se a isso a insuficiência de políticas de promoção da atividade física e da capacidade da atenção primária para acompanhar casos de maior gravidade.
Consolidar uma nova etapa
As recomendações do policy brief mantêm a perspectiva de continuidade que caracteriza a política alimentar chilena. Entre as prioridades estão ampliar a tributação sobre bebidas açucaradas e avaliar sua extensão a outros ultraprocessados, destinar parte dessa arrecadação à ampliação do acesso da população vulnerável a alimentos frescos, fortalecer a atividade física escolar, aperfeiçoar o PAE e o PNAC com foco na qualidade nutricional e ampliar o apoio à produção e ao consumo de frutas, verduras e leguminosas. Em horizonte mais amplo, o documento propõe um plano nacional de prevenção da obesidade infantil, fortalecimento da atenção primária, aperfeiçoamento da regulação do ambiente alimentar e monitoramento contínuo dos resultados alcançados.
O caso chileno oferece uma contribuição relevante para países que convivem simultaneamente com diferentes formas de má nutrição. A experiência demonstra que a superação da fome depende da continuidade das políticas públicas e que a prevenção da obesidade requer adaptar esse legado às transformações do ambiente alimentar, incorporando novos instrumentos sustentados pelas melhores evidências científicas disponíveis.
Baixe aqui a versão integral do policy brief “Chile: de la salida del mapa del hambre al liderazgo mundial en obesidad“, com referências, limitações metodológicas e recomendações técnicas detalhadas.
