Revisão de 327 estudos em 64 países destaca a importância de feiras, mercados e vendedores ambulantes para a alimentação, o emprego e a segurança alimentar, e alerta para a necessidade de políticas públicas mais inclusivas.
Blog do IFZ | 01/11/2026
O comércio informal de alimentos desempenha um papel fundamental no abastecimento das cidades, no acesso da população de baixa renda à alimentação e na geração de trabalho e renda. Apesar disso, continua sendo pouco compreendido e frequentemente marginalizado pelas políticas públicas. Essa é a principal conclusão de uma revisão científica publicada em setembro de 2026 na revista Food Policy, intitulada Informality in food environments: a systematic scoping review of nutrition, livelihood, and sociopolitical outcomes and implications for food policy.
O estudo, liderado por Ramya Ambikapathi, do Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT) e da Universidade Cornell, com a participação de pesquisadores de diversas instituições internacionais, analisou 327 publicações científicas referentes a 64 países. A pesquisa examina como a informalidade é definida e como os vendedores de alimentos se relacionam com a nutrição, os meios de subsistência e as condições sociais e políticas.
Os autores lembram que os sistemas alimentares empregam aproximadamente 1,23 bilhão de pessoas no mundo, muitas delas em ocupações informais. Em países de renda baixa e média, vendedores ambulantes, comerciantes de rua, pequenos mercados e outras formas tradicionais de comercialização constituem uma parte indispensável dos ambientes alimentares.
Esses trabalhadores não apenas oferecem alimentos à população, mas também contribuem para aproximar consumidores dos pontos de venda, especialmente em bairros populares e áreas com acesso limitado a outros canais de abastecimento. Para milhões de famílias, a possibilidade de comprar alimentos em pequenas quantidades, perto de casa ou do trabalho, representa uma dimensão importante da segurança alimentar.
A revisão também revela uma lacuna significativa na produção científica: menos de um quarto dos estudos analisados apresenta uma definição explícita de informalidade. Além disso, apenas 10% mencionam a proteção social dos vendedores, indicando que as condições de trabalho e os direitos desses profissionais recebem atenção insuficiente.
As pesquisas identificam desafios relacionados à regulamentação, à governança, às desigualdades de gênero, ao acesso à água e ao saneamento, à utilização dos espaços públicos e às condições de funcionamento dos pequenos negócios. São questões que ultrapassam a fiscalização sanitária e exigem uma abordagem integrada de planejamento urbano, saúde pública, desenvolvimento econômico e proteção social.
Para o Brasil, as conclusões oferecem elementos importantes para o debate sobre o futuro das feiras livres, dos mercados populares e dos circuitos curtos de comercialização. Em vez de considerar esses espaços apenas como atividades a serem formalizadas ou fiscalizadas, as políticas alimentares precisam reconhecer suas contribuições ao abastecimento, à geração de renda e ao acesso a alimentos saudáveis.
Essa perspectiva também pode fortalecer a articulação entre agricultura familiar, políticas de segurança alimentar e estratégias municipais de desenvolvimento. Investimentos em infraestrutura, condições sanitárias, capacitação, proteção social e participação dos comerciantes nas decisões públicas podem melhorar simultaneamente a qualidade dos alimentos oferecidos e as condições de vida de quem os comercializa.
A principal mensagem do estudo é que transformar os sistemas alimentares exige reconhecer a diversidade de atores que os sustentam. Combater a fome não depende apenas de produzir alimentos suficientes, mas também de garantir que eles cheguem às pessoas por canais acessíveis, inclusivos e socialmente protegidos.
Principais mensagens
- Papel essencial no abastecimento: vendedores informais e mercados tradicionais contribuem para o acesso cotidiano aos alimentos e para a segurança alimentar.
- Ampla base científica: a revisão reuniu 327 estudos de 64 países, dos quais 84% foram realizados em ambientes urbanos.
- Proteção social negligenciada: apenas 10% dos estudos abordaram a proteção social dos vendedores.
- Desafios estruturais: infraestrutura, saneamento, regulamentação, gênero e acesso aos espaços públicos influenciam o funcionamento do comércio informal.
- Implicações para o Brasil: fortalecer feiras livres, mercados populares e circuitos curtos pode aproximar a agricultura familiar dos consumidores e ampliar o acesso à alimentação saudável.
- Prioridade para as políticas públicas: reconhecer e apoiar os trabalhadores informais, combinando segurança dos alimentos, inclusão econômica e direitos sociais.
Referência: Ambikapathi, R. et al. (2026). Informality in food environments: a systematic scoping review of nutrition, livelihood, and sociopolitical outcomes and implications for food policy. Food Policy, 145, 103197. https://doi.org/10.1016/j.foodpol.2026.103197
Baixe aqui o estudo “Informality in food environments: a systematic scoping review of nutrition, livelihood, and sociopolitical outcomes and implications for food policy“
