A Economia do prato: dados da FAO e a barreira econômica da segurança alimentar

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Pela segunda vez em sua história, o país alcançou um índice de subalimentação inferior a 2,5% da população

Por Ivette Luna no Jornal da Unicamp | 31/04/2026

Como discutido anteriormente nesta coluna, o Brasil celebrou em 2025 sua saída do Mapa da Fome. Pela segunda vez em sua história, o país alcançou um índice de subalimentação inferior a 2,5% da população — indicador monitorado internacionalmente pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) sob a rubrica “prevalência da subnutrição” ( (PoU, na sigla em inglês). Esta conquista é um marco estatístico e social rigoroso, refletindo a eficácia no monitoramento da insegurança alimentar.

Para além da saída do mapa, é fundamental celebrar a redução drástica, em apenas dois anos, do número de domicílios em situação de insegurança alimentar grave (fome), conforme detalhado na Tabela 1.

Tabela 1: Situação de segurança alimentar no domicílio (%)

Fonte: Sidra/IBGE – A partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Anual - 4º trimestre.
Fonte: Sidra/IBGE – A partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Anual – 4º trimestre.

Infelizmente, a saída do Mapa da Fome não encerra o desafio da segurança alimentar no país. Subsiste uma insegurança alimentar residual que demanda atenção urgente: ela atinge milhões de brasileiros que, embora tenham superado a carência calórica aguda, ainda não têm acesso a uma dieta nutricionalmente adequada para uma vida saudável.

Deixar o Mapa da Fome significa que vencemos a fome extrema, mas permanecemos diante do desafio do acesso econômico a alimentos nutritivos. A qualidade da dieta é o elo vital entre segurança alimentar e nutrição; sua precariedade manifesta-se em múltiplas formas de malnutrição, que abrangem desde a deficiência de micronutrientes até o avanço do sobrepeso e da obesidade. Uma dieta saudável, portanto, transcende a contagem de calorias e exige a ingestão diversificada de diferentes grupos alimentares (FAO, 2023).

A cesta básica ideal

A FAO estabelece diretrizes para padronizar globalmente a medição do custo e da acessibilidade de dietas saudáveis, partindo do conceito da Cesta de Dieta Saudável’ (The Healthy Diet Basket – HDB).

Essa cesta é composta por seis grupos fundamentais: alimentos básicos amiláceos (ricos em amido), itens de origem animal, leguminosas (como nozes e sementes), vegetais frutas, além de óleos e gorduras.

 O custo dessa alimentação não considera apenas uma métrica calórica (estabelecida em 2.330 kcal/dia), mas também o preço real para acessar os itens mais baratos que compõem uma dieta diversificada e regionalmente representativa. Ao garantir, em média, 95% das necessidades nutricionais, esse valor representa o patamar mínimo para que o indivíduo converta o alimento em “capacidades” funcionais, na perspectiva de Amartya Sen (2010). Assim, a dieta saudável definida por guias oficiais torna-se a régua para o que chamamos de segurança alimentar plena. A Tabela 2 exemplifica como essa cesta ideal pode ser estruturada.

Tabela 2: Conteúdo da cesta de dieta saudável por grupo alimentar, em quilocalorias (kcal) e gramas do alimento de referência

Fonte: Tabela 2 de FAO, 2023 (tradução do autor)
Fonte: Tabela 2 de FAO, 2023 (tradução do autor)

O custo de comer bem: os dados da FAO

O custo dessa cesta básica ideal é calculado para todos os países e atualizado anualmente. Já os custos específicos dos seis grupos alimentares que a compõem são calculados apenas quando o Programa de Comparação Internacional (PCI) do Banco Mundial publica dados atualizados sobre preços de itens individuais (BANCO MUNDIAL, 2026). Os preços necessários para uma dieta saudável utilizam dados do PCI como médias nacionais anuais, sendo o levantamento mais recente o de 2021. Como as definições dos itens são padronizadas internacionalmente, é possível calcular os custos mínimos para atingir as diretrizes alimentares de cada população, representando uma média entre mercados e ao longo de todo o ano.

Fazendo um parêntese: o Guia Alimentar para a População Brasileira, desenvolvido pelo Ministério da Saúde e pelo Nupens/USP (2006/2014), é um documento público com diretrizes acessíveis para promover a saúde e prevenir doenças crônicas, como diabetes e problemas cardíacos. Ele é o pilar das políticas nutricionais no Brasil, orientando escolhas para o bem-estar de comunidades. Ou seja: sabemos o que comer, mas temos como pagar?

Voltando aos custos, a estimativa dessa cesta escolhe, para cada grupo alimentício, o item de menor preço. Assim, o valor total é dado pela ponderação das quantidades necessárias para atender ao valor calórico e seus respectivos preços. Utilizando as métricas de paridade de poder de compra (PPC)[1] do Banco Mundial, a FAO demonstra que o preço de uma dieta de 2.330 kcal/dia com diversidade nutricional ainda é uma barreira para as famílias de menor renda.

O Gráfico 1 ilustra a evolução desse custo (em dólares PPC) para a alimentação diária de um indivíduo entre 2017 e 2024. Nota-se, primeiramente, a tendência crescente no custo mundial, com as médias da América Latina e Caribe superando as globais. Esse aumento consistente é detalhado no relatório O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (SOFI/2025), da FAO, que aponta a inflação dos alimentos desde o final de 2020, com pico em janeiro de 2023,  como um dos principais determinantes.

A inflação de alimentos foi mais severa nos países de baixa renda entre 2019 e 2024. Assim, embora o Brasil saia do Mapa da Fome em 2026, ele o faz em um cenário global ainda pressionado por esse pico inflacionário. Como a inflação atingiu mais fortemente as camadas mais pobres, o custo para atingir uma dieta saudável tornou-se proporcionalmente maior para quem mais precisa. Com o poder de compra corroído justamente no período de recuperação pós-pandemia, a insegurança alimentar residual tornou-se um desafio econômico direto.

Gráfico 1: Evolução do custo diário da cesta básica ideal, em dólares PPC (paridade de poder de compra)

Fonte: Elaboração própria a partir da base de dados estatísticos da FAO
Fonte: Elaboração própria a partir da base de dados estatísticos da FAO

O peso de cada grupo alimentício na composição do custo da cesta básica ideal, apresentado aqui a título de curiosidade, é ilustrado no Gráfico 2, com base no levantamento da FAO de 2021. A escala de cores indica a intensidade do custo: quanto mais escura a tonalidade, maior o preço em dólares PPC.

Nota-se que, tanto na média mundial quanto na América Latina e Caribe (Latam), o maior peso financeiro recai sobre o grupo de alimentos de origem animal, seguido por vegetais e hortaliças. O caso brasileiro, contudo, apresenta uma particularidade: o maior custo concentra-se no grupo de leguminosas, nozes e sementes, seguido pelos alimentos de origem animal. Isso torna o feijão e as proteínas – pilares da nossa cultura alimentar – os principais itens de pressão no orçamento das famílias.

Gráfico 2: Decomposição do custo da cesta básica ideal diária para um indivíduo, em dólar PPC

Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da base de dados estatísticos da FAO.
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da base de dados estatísticos da FAO.

Trazendo esses valores para preços mais recentes, o custo da cesta básica ideal no Brasil foi estimado, em abril de 2025, pelo Pacto Contra a Fome. No seu Boletim Mensal de Monitoramento da Inflação dos Alimentos, a organização reporta um custo mensal de R$ 432,00 por indivíduo, em um cenário onde o grupo de alimentos e bebidas exerceu o maior peso sobre o índice de preços ao consumidor amplo, o IPCA (PACTO CONTRA A FOME, 2025).

Este é, definitivamente, um custo proibitivo ao considerarmos que o rendimento médio mensal de um indivíduo ocupado foi de aproximadamente R$ 3.057,00 em 2024 — e, mais grave ainda, que 30% da população vive com um rendimento médio de até R$ 493,00 mensais (IBGE, 2024). Com isso, fica evidente que o acesso a uma alimentação saudável excede a capacidade de renda de milhões de famílias, especialmente aquelas em situação de insegurança alimentar leve ou moderada. No fim das contas, as opções não saudáveis acabam sendo financeiramente mais atrativas.

Assim, enquanto a subalimentação cai para 2,4% (PoU), a inflação dos alimentos saudáveis empurra milhões de pessoas para a fila da insegurança alimentar, onde a quantidade é mantida à custa da qualidade. Embora o Brasil lidere a recuperação na América Latina e Caribe, o custo da dieta na região permanece entre os mais altos do mundo. Essa barreira financeira força a substituição de “comida de verdade” por ultraprocessados–  por vezes muito mais  –baratos, uma transição captada pela métrica da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia) como insegurança leve, afetando principalmente os domicílios com maiores privações econômicas.

Alimentação como direito

Ao analisarmos a redução da insegurança alimentar, seja pela métrica da PoU ou da Ebia, é admirável o progresso alcançado em tão pouco tempo. Diversas ações coordenadas viabilizaram esse resultado histórico. Contudo, esses esforços representam apenas o início diante de um desafio ainda persistente: o custo social da insegurança alimentar, manifestado principalmente no binômio desnutrição-obesidade (SOFI, 2025).

É fundamental refletir sobre como as políticas que garantiram a saída do Brasil do Mapa da Fome podem ser fortalecidas e transformadas em instrumentos que promovam, agora, a acessibilidade real a uma dieta saudável. O foco deve se voltar para o preço do prato, garantindo o direito a uma vida digna, plena e com nutrição de qualidade. Afinal, a segurança alimentar só será completa quando a cesta básica ideal deixar de ser um luxo.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.


Referências

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Brasil atinge menor patamar de insegurança alimentar da história. Brasília, DF: MDS, 2024. (acesso em: 25 mar. 2026).

IPEA. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. O custo da fome. Desafios do Desenvolvimento, Brasília, DF, ano 3, ed. 23, 2006. (acesso em: 25 mar. 2026).

FAO. Food and Agriculture Organization of the United Nations. Methods Brief: FAOSTAT Cost of a Healthy Diet (CoAHD) indicators. Rome: FAO, 2023. (acesso em: 25 mar. 2026).

WORLD BANK. International Comparison Program (ICP). Washington, DC: World Bank, 2026. (acesso em: 26 mar. 2026).

FAO; IFAD; UNICEF; WFP; WHO. The State of Food Security and Nutrition in the World 2025: Addressing high food price inflation for food security and nutrition. Rome: FAO, 2025. Disponível em: [inserir link direto para o PDF ou landing page]. Acesso em: 20 ago. 2025.

PACTO CONTRA A FOME. Monitoramento da Inflação dos Alimentos: abril de 2025. São Paulo: Pacto Contra a Fome, 2025. (acesso em: 26 mar. 2026).

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Tabela 7534: Domicílios particulares permanentes, por segurança alimentar e situação do domicílio. Rio de Janeiro: IBGE, 2024. (acesso em: 26 mar. 2026).

SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


[1] O Dólar PPC (Paridade do Poder de Compra, em inglês Purchasing Parity Power) é uma taxa de câmbio teórica que iguala o custo de uma cesta de bens e serviços entre países. Ele ajusta o valor das moedas pelo custo de vida local, permitindo comparar o poder de compra real e o padrão de vida, diferentemente da taxa de câmbio comercial (IPEA, 2006).

Publicado originalmente o Jornal da Unicamp
https://jornal.unicamp.br/artigo/2026/03/31/ivette-luna/a-economia-do-prato-dados-da-fao-e-a-barreira-economica-da-seguranca-alimentar/