A Paz em Primeiro Lugar: por que o próximo Secretário-Geral da ONU deve recolocar a organização no centro de seu propósito fundacional

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Por José Graziano da Silva na Impakter | 30/04/2026

Na semana passada, na sede das Nações Unidas, em Nova York, as audiências informais com os quatro candidatos ao cargo de Secretário-Geral ofereceram um retrato revelador de como a organização está pensando o seu futuro. Michelle Bachelet, Rafael Grossi, Macky Sall e Rebeca Grynspan apresentaram visões distintas, moldadas por suas trajetórias e prioridades, mas ancoradas em uma preocupação comum: o sistema multilateral está sob pressão, e as expectativas em relação a ele crescem mais rapidamente do que sua capacidade de resposta.

A diversidade de abordagens ficou evidente, mas nem todas têm o mesmo peso em um momento marcado pela escalada dos conflitos e pela erosão da confiança. Michelle Bachelet destacou-se ao colocar os direitos humanos no centro de sua visão, lembrando que a paz sustentável não pode ser reduzida a cessar-fogos ou intervenções táticas. Ao vincular a paz à igualdade, à inclusão e à proteção das liberdades fundamentais, aponta para um caminho mais estrutural e, em última instância, mais duradouro — um caminho que compreende a estabilidade não como mera ausência de guerra, mas como presença de justiça e oportunidade.

Em contraste, Rafael Grossi inclinou-se fortemente para uma postura orientada pela crise e pela operacionalidade, enfatizando a intervenção rápida e a capacidade técnica. Embora isso reflita a urgência dos conflitos atuais, há o risco de reforçar uma abordagem reativa e, por vezes, excessivamente securitizada — capaz de obscurecer a linha entre o engajamento necessário e uma leitura mais belicista do papel da ONU, privilegiando a resposta em detrimento da prevenção.

Macky Sall destacou a necessidade de ampliar o diálogo político e a representatividade em um mundo multipolar, enquanto Rebeca Grynspan enfatizou a coordenação e a capacidade de entrega em um sistema sobrecarregado. Ambas as contribuições são valiosas, embora adotem um tom mais incremental.

Cabe lembrar, ainda, que, embora não exista uma regra formal de rodízio regional, as escolhas de liderança nas Nações Unidas frequentemente refletem uma busca por equilíbrio. Nesse contexto, o momento atual suscita naturalmente a possibilidade de um Secretário-Geral latino-americano — e, de forma ainda mais significativa, a expectativa, há muito adiada, de que uma mulher finalmente assuma o cargo.

Em conjunto, essas perspectivas evidenciam a amplitude do mandato da ONU — mas também sua fragmentação. Cada candidato destaca uma dimensão essencial do sistema: legitimidade, ação, representatividade e eficácia. Ainda assim, permanece insuficientemente articulada a hierarquia entre essas prioridades. O que deve vir primeiro?

A Organização das Nações Unidas foi criada, ao fim da Segunda Guerra Mundial, sobretudo para manter a paz. Trata-se não de uma prioridade entre outras, mas do fundamento sobre o qual repousam todas as demais ambições. Desenvolvimento, direitos humanos, ação humanitária e até mesmo a credibilidade do multilateralismo dependem de um nível mínimo de estabilidade. Quando a paz colapsa, todo o restante rapidamente se desintegra. Ainda assim, nas discussões atuais, a paz é frequentemente tratada como mais um item em uma agenda sobrecarregada — competindo com outras urgências, em vez de organizá-las. Essa diluição tem consequências: conduz a um sistema que reage às crises, em vez de preveni-las, e que administra sintomas, em vez de enfrentar suas causas profundas.

Poucos temas ilustram essa desconexão com tanta clareza quanto a relação entre conflito e fome. Hoje, guerras não são travadas apenas com armas; elas também se desenrolam por meio da desestruturação dos sistemas alimentares. Campos são abandonados, cadeias de abastecimento são interrompidas, os preços disparam e o acesso aos alimentos torna-se precário — sobretudo para os mais vulneráveis. A fome, por sua vez, alimenta a instabilidade, corrói a coesão social e pode prolongar ou até reacender conflitos. Trata-se de uma relação circular, cumulativa e profundamente desestabilizadora. Ainda assim, apesar dessa interdependência, a segurança alimentar continua frequentemente confinada às respostas humanitárias, em vez de ser reconhecida como elemento central da construção da paz.

Nem sempre foi assim. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), na verdade, antecede a própria ONU e foi fundada com base em um reconhecimento claro e explícito: a erradicação da fome é condição prévia para uma paz duradoura. Franklin D. Roosevelt, um dos arquitetos da ordem internacional do pós-guerra, compreendia que a prevenção de conflitos exigia mais do que diplomacia — exigia enfrentar as condições estruturais — pobreza, privação e desigualdade — que fragilizam as sociedades e tornam mais provável a escalada das tensões. Nesse sentido, a alimentação jamais se restringiu à agricultura ou à nutrição: trata-se de estabilidade, dignidade e dos próprios alicerces da convivência pacífica.

Hoje, diante de um mundo muito mais complexo e multipolar, essa intuição fundadora merece renovada atenção. As propostas dos candidatos, embora relevantes em diversos aspectos, tendem a enfatizar instrumentos — mediação, coordenação, eficiência, legitimidade — sem sempre explicitar uma hierarquia clara de prioridades. Há o risco de que, ao tentar fazer tudo, a organização perca de vista o essencial.

Uma abordagem excessivamente operacional pode aprimorar a capacidade de resposta, mas permanecer reativa. Uma orientação predominantemente normativa pode reforçar a legitimidade, mas ter dificuldade em influenciar os acontecimentos no terreno. Um foco na facilitação política pode contribuir para reconstruir o diálogo, mas carecer da urgência exigida por crises em rápida evolução. Nenhuma dessas abordagens está equivocada; todas são incompletas se não estiverem ancoradas em um compromisso claro com a prevenção de conflitos como princípio organizador do sistema.

Recolocar a paz no centro da atuação da ONU não significa restringir sua agenda. Ao contrário, implica integrar suas múltiplas funções de forma mais eficaz. Significa reconhecer que segurança alimentar, ação climática, proteção social e inclusão econômica não são agendas paralelas, mas componentes essenciais da prevenção de conflitos.

Significa, também, agir mais cedo — antes que as crises se agravem — e enfrentar as desigualdades subjacentes que alimentam a instabilidade. Isso exige vontade política, mas também coerência institucional — um desafio que a ONU, historicamente, tem tido dificuldade em superar.

José Graziano da Silva é ex-Diretor-Geral da FAO, fundador e diretor do Instituto Fome Zero e professor emérito da Universidade Estadual de Campinas

Publicado originalmente na Impakter
https://impakter.com/peace-first-why-the-next-un-secretary-general-must-recenter-the-organization-on-its-founding-purpose/