Uma nova arquitetura da solidariedade: a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza em uma era de multilateralismo enfraquecido

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Blog do IFZ | 30/04/2026

Em meio a um ambiente internacional marcado por tensões geopolíticas persistentes, retração de compromissos coletivos e aprofundamento das desigualdades, a permanência da fome e da pobreza adquire um significado que ultrapassa a esfera social e alcança o campo institucional. Mais do que um problema de distribuição, revela limites concretos dos arranjos tradicionais de cooperação. É nesse horizonte que se apresenta o artigo “Uma nova arquitetura da solidariedade: a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza em uma era de multilateralismo enfraquecido” (A new architecture of solidarity: the Global Alliance Against Hunger and Poverty in an age of weakened multilateralism), de Thiago Lima e Adriana Erthal Abdenur, publicado na Development Policy Review. O estudo oferece uma análise rigorosa e cuidadosa de uma iniciativa que busca reorganizar práticas e expectativas no campo da governança global.

O ponto de partida é um contraste incômodo. A expansão das capacidades produtivas e tecnológicas convive com a permanência de privações elementares para milhões de pessoas. Os autores examinam como esse quadro se intensifica à medida que instituições multilaterais enfrentam dificuldades crescentes de coordenação e perda de legitimidade política. Nesse contexto, a criação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada durante a presidência brasileira do G20 em 2024, surge como tentativa de resposta a um sistema fragmentado, frequentemente incapaz de transformar compromissos formais em resultados tangíveis.

O artigo reconstrói com precisão as condições políticas, geopolíticas e institucionais que viabilizaram o surgimento da iniciativa. A atuação brasileira recebe atenção especial, não como gesto isolado, mas como expressão de uma estratégia diplomática que combina tradição e adaptação. Ao articular interesses diversos e explorar margens de convergência possíveis, o país contribuiu para a formação de uma coalizão ampla em um cenário de baixa coesão entre grandes potências.

Entre os elementos centrais da análise está o desenho institucional da Aliança. Em lugar de propor novas estruturas burocráticas ou mecanismos financeiros centralizados, a iniciativa adota um modelo flexível, orientado pela articulação entre demandas nacionais e ofertas internacionais de apoio. Esse formato privilegia a coordenação e a circulação de informações qualificadas, com o objetivo de ativar recursos já disponíveis e frequentemente subutilizados. A ênfase recai sobre a capacidade de conectar políticas públicas, experiências e financiamentos de maneira mais eficiente.

Esse arranjo contribui para explicar a adesão política expressiva que a Aliança alcançou em curto espaço de tempo. A ausência de compromissos financeiros compulsórios e a leveza institucional reduzem resistências e ampliam as possibilidades de participação. Ao mesmo tempo, essa escolha traz implicações relevantes. A dependência de contribuições voluntárias e a falta de instrumentos de obrigatoriedade tornam o projeto sensível a oscilações políticas e disputas de influência, o que pode afetar sua continuidade e alcance.

Lima e Abdenur também desenvolvem uma reflexão consistente sobre uma abordagem que denominam “pós-ajuda”. Nessa perspectiva, a cooperação internacional deixa de ser concebida como fluxo unilateral e passa a ser entendida como construção compartilhada, sustentada por evidências, intercâmbio de experiências e corresponsabilidade entre os atores envolvidos. A Aliança Global, assim, não se limita a oferecer soluções operacionais, mas propõe um deslocamento no modo de pensar o desenvolvimento e a ação coletiva em escala internacional.

Outro aspecto relevante do estudo está na atenção dedicada ao papel das potências intermediárias. Em um sistema internacional menos coeso, países como o Brasil podem exercer influência ao formular propostas pragmáticas e reunir apoios em torno de objetivos específicos. Essa atuação requer, contudo, constância diplomática e capacidade de adaptação diante de um ambiente em transformação contínua.

Ao longo do texto, os autores mantêm um equilíbrio criterioso entre a identificação de potencialidades e o reconhecimento de limites. A análise não se orienta por expectativas excessivas nem por desconfiança generalizada. O resultado é uma leitura madura de uma experiência em desenvolvimento, cuja trajetória dependerá tanto de sua implementação quanto das condições políticas mais amplas.

A publicação chega em momento particularmente sensível para o debate internacional. As dificuldades enfrentadas pelos mecanismos tradicionais de cooperação tornam urgente a busca por alternativas capazes de produzir resultados mais consistentes. Ao examinar os fundamentos e o funcionamento da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, o artigo contribui para qualificar esse debate e ampliar o horizonte de possibilidades.

A leitura deixa ao final uma impressão duradoura. Mais do que descrever uma iniciativa específica, o estudo oferece elementos para repensar a própria ideia de solidariedade em escala global, sugerindo caminhos que conciliam pragmatismo institucional e compromisso ético.

Baixe aqui o artigo A new architecture of solidarity: the Global Alliance Against Hunger and Poverty in an age of weakened multilateralism

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