Relatório global mostra que nenhum dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável está no caminho para ser plenamente alcançado até 2030
Blog do IFZ | 23/06/2026
Baixe aqui o relatório “Sustainable Development Report 2026 – Implementing Sustainable Development: 2030 and Beyond”
A publicação do Sustainable Development Report 2026 (SDR 2026), elaborada pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (SDSN), traz uma mensagem ambivalente para o mundo.
De um lado, confirma que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) continuam sendo a principal referência internacional para orientar políticas públicas, investimentos e cooperação internacional.
De outro, mostra que, faltando apenas quatro anos para 2030, nenhum dos 17 ODS está no caminho para ser plenamente alcançado em escala global.
O relatório revela que apenas 16,5% das metas globais dos ODS estão atualmente em trajetória compatível com seu cumprimento até 2030. A maioria permanece estagnada ou avança em ritmo insuficiente. Os maiores atrasos concentram-se nos temas relacionados às cidades sustentáveis, biodiversidade terrestre e marinha, paz e instituições, além da alimentação e nutrição.
Essa constatação é particularmente preocupante porque a Agenda 2030 foi concebida justamente como um pacto global para enfrentar simultaneamente pobreza, fome, desigualdades, degradação ambiental e mudanças climáticas. O SDR 2026 conclui que os governos continuam comprometidos com os ODS em termos políticos, mas que os mecanismos concretos de implementação permanecem insuficientes.
A fome continua sendo um dos maiores desafios globais
Entre os resultados mais alarmantes do relatório está o desempenho do ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável.
Segundo o SDR 2026, vários dos indicadores globais mais distantes das metas estão diretamente vinculados ao ODS 2. Entre eles destacam-se:
- prevalência da obesidade;
- progresso insuficiente rumo à agricultura produtiva e sustentável;
- persistência da insegurança alimentar;
- padrões alimentares não saudáveis;
- degradação ambiental associada aos sistemas alimentares.
O relatório reforça algo que vem sendo destacado há anos por organismos internacionais: o desafio alimentar do século XXI não se resume à falta de calorias. O mundo enfrenta simultaneamente a fome, a má nutrição e a obesidade. A chamada “tripla carga da má nutrição” continua avançando em diversas regiões.
Por isso, o SDR 2026 passou a incorporar novos indicadores da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) voltados à medição do progresso rumo a uma agricultura mais produtiva e sustentável. A inclusão desses indicadores mostra o reconhecimento crescente de que a transformação dos sistemas alimentares será decisiva para o sucesso da Agenda 2030.
O documento também enfatiza que a segurança alimentar está cada vez mais ameaçada por conflitos armados, mudanças climáticas e restrições fiscais nos países em desenvolvimento. Em várias regiões, os avanços obtidos na década passada foram parcialmente revertidos por crises sucessivas.
O desempenho global: avanços na Ásia e estagnação em outras regiões
Uma das conclusões centrais do relatório é que a Ásia Oriental e Meridional foi a região que mais avançou nos ODS desde 2015.
China e Índia registraram os maiores ganhos de posição no ranking global do SDG Index entre as grandes economias do mundo. A Índia subiu 18 posições desde 2015, enquanto a China avançou 14 posições. Em contraste, os Estados Unidos perderam cinco posições no período.
Os países nórdicos continuam liderando o ranking global. A Finlândia permanece em primeiro lugar, seguida por Suécia e Dinamarca. Mesmo assim, o relatório destaca que nem esses países estão livres de desafios, especialmente nos ODS relacionados ao consumo sustentável, mudanças climáticas e biodiversidade.
Brasil melhora desempenho e consolida recuperação
Para o Brasil, o relatório traz sinais encorajadores.
O país alcançou uma pontuação de 74,2 no SDG Index, ocupando a 53ª posição entre 169 países avaliados. Trata-se de um desempenho superior à média da América Latina e Caribe, que ficou em 70,5 pontos. O Brasil também registrou um ganho acumulado de 4,3 pontos desde 2015. Mais importante ainda é a trajetória recente.
Os dados históricos apresentados pelo SDR mostram que o Brasil vinha experimentando uma tendência de deterioração ou estagnação relativa ao longo dos anos anteriores. Entretanto, entre 2022 e 2025, período que coincide com o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, observa-se uma recuperação gradual no ranking global do SDG Index.

O gráfico comparativo das maiores economias do mundo mostra que o Brasil saiu de posições próximas ao 62º lugar em 2022 para aproximadamente o 53º lugar em 2025, recuperando terreno perdido na década anterior. O ganho acumulado desde 2015 foi de quatro posições no ranking global.
Embora o avanço seja modesto quando comparado ao salto observado em países asiáticos, ele representa uma inflexão importante após anos de retrocessos em áreas sociais e ambientais.
Os pontos fortes e os desafios brasileiros
O painel dos ODS mostra um quadro misto para o Brasil.

Entre os melhores desempenhos aparecem:
- acesso à energia;
- ampliação da conectividade digital;
- expansão da cobertura vacinal;
- redução da mortalidade infantil;
- melhoria em alguns indicadores educacionais;
- fortalecimento da infraestrutura.
Por outro lado, persistem desafios significativos em:
- desigualdade social;
- sistemas alimentares;
- biodiversidade;
- padrões de produção e consumo;
- mudanças climáticas;
- violência e segurança pública;
- fortalecimento institucional.
No ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável, o Brasil apresenta um quadro misto, combinando avanços importantes em alguns indicadores tradicionais de segurança alimentar com desafios persistentes relacionados à qualidade da alimentação e à sustentabilidade dos sistemas produtivos.
A prevalência de subalimentação encontra-se em torno de 2,5% da população, um dos níveis mais baixos entre os países em desenvolvimento, refletindo décadas de políticas públicas voltadas à redução da pobreza e à ampliação do acesso aos alimentos – o que confirma a ausência do Brasil do Mapa da Fome da ONU.
Já os indicadores de desnutrição infantil também permanecem relativamente baixos: a taxa de atraso de crescimento (stunting) entre crianças menores de cinco anos é de cerca de 8%, enquanto a emaciação (wasting) permanece próxima de 3%. A diversidade alimentar mínima entre crianças de 6 a 23 meses alcança aproximadamente 63%, indicando avanços relevantes, embora ainda exista espaço para melhorias, sobretudo nas regiões mais vulneráveis do país.
Por outro lado, o relatório evidencia desafios crescentes associados à transformação dos sistemas alimentares brasileiros. A prevalência de obesidade já atinge cerca de 28% da população adulta, tornando-se um dos principais obstáculos para o cumprimento integral do ODS 2. O indicador de produtividade e sustentabilidade agrícola apresenta desempenho relativamente positivo, com nota superior a 3,9 em uma escala de 1 a 5, refletindo a elevada capacidade produtiva da agricultura nacional e avanços em práticas sustentáveis.
Os rendimentos médios dos cereais continuam elevados, superando 5 toneladas por hectare, e as exportações agrícolas seguem entre as maiores do mundo. Entretanto, o relatório chama atenção para a coexistência de forte desempenho produtivo com desafios ligados à qualidade das dietas, ao consumo crescente de alimentos ultraprocessados, à pressão ambiental sobre recursos naturais e à necessidade de tornar frutas, legumes e verduras mais acessíveis à população. Em outras palavras, o Brasil avançou significativamente no combate à fome, mas ainda precisa enfrentar o desafio mais complexo de garantir uma alimentação saudável, sustentável e acessível para todos.

Esse resultado dialoga diretamente com o debate atual sobre o custo crescente de dietas saudáveis, a expansão dos alimentos ultraprocessados e o aumento da obesidade, inclusive entre crianças e adolescentes.
O protagonismo brasileiro nos Relatórios Nacionais Voluntários
Outro aspecto em que o Brasil se destaca é seu engajamento institucional com a Agenda 2030.
O SDR 2026 registra que o país já apresentou três Relatórios Nacionais Voluntários (Voluntary National Reviews – VNRs) às Nações Unidas, instrumento utilizado pelos governos para prestar contas sobre os avanços e desafios na implementação dos ODS.
A participação ativa nesse processo é importante porque demonstra compromisso político com a transparência, o monitoramento e a cooperação internacional.
O relatório observa que, globalmente, 190 países já participaram do processo de VNRs desde 2016, tornando-o um dos principais mecanismos de acompanhamento da Agenda 2030.
No caso brasileiro, os VNRs refletem uma tradição de diálogo entre governo, academia e sociedade civil na construção de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável.
Uma agenda que vai além de 2030
Talvez a principal mensagem do SDR 2026 seja que os ODS continuarão relevantes mesmo após 2030.
Os autores defendem que o desafio central não é redefinir metas, mas fortalecer os meios de implementação. Isso inclui mais financiamento, melhor governança, fortalecimento do multilateralismo, ampliação da cooperação internacional e maior utilização da ciência para orientar políticas públicas.
Para o Brasil, que saiu novamente no ano passado do Mapa da Fome da ONU e retomou protagonismo em fóruns internacionais sobre segurança alimentar e nutricional, o relatório sugere uma oportunidade estratégica: transformar os avanços recentes em políticas permanentes de Estado.
A melhora observada entre 2022 e 2025 mostra que progresso é possível. Mas os desafios ainda são enormes. Sair do Mapa da Fome é apenas uma etapa. O próximo desafio é garantir que todos os brasileiros tenham acesso permanente a uma alimentação adequada, saudável e sustentável, ao mesmo tempo em que o país avança nos demais Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Mensagens principais
- Nenhum dos 17 ODS está atualmente no caminho para ser plenamente alcançado até 2030.
- Apenas 16,5% das metas globais estão em trajetória compatível com seu cumprimento.
- O ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) continua entre os mais atrasados globalmente.
- A fome, a obesidade e a insustentabilidade dos sistemas alimentares permanecem desafios centrais.
- A Ásia Oriental e Meridional lidera os avanços globais desde 2015.
- O Brasil alcançou 74,2 pontos no SDG Index e ocupa a 53ª posição mundial.
- O país melhorou sua colocação no ranking global entre 2022 e 2025, recuperando posições perdidas anteriormente.
- O Brasil já apresentou três Relatórios Nacionais Voluntários (VNRs) à ONU.
- Os maiores desafios brasileiros concentram-se em desigualdade, sistemas alimentares, clima, biodiversidade e instituições.
- O SDR 2026 conclui que o principal desafio da próxima década não será criar novos objetivos, mas fortalecer os mecanismos de implementação da Agenda 2030 e do período pós-2030.
Baixe aqui o relatório “Sustainable Development Report 2026 – Implementing Sustainable Development: 2030 and Beyond”
O Relatório de Desenvolvimento Sustentável (anteriormente denominado SDG Index & Dashboards) é uma avaliação global do progresso dos países em direção ao alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Ele complementa os indicadores oficiais dos ODS e as revisões nacionais voluntárias.
Todos os dados apresentados neste site baseiam-se na publicação: Sachs, J.D., Lafortune, G., Fuller, G., Iablonovski, G. (2026). Implementing Sustainable Development: 2030 and Beyond. Sustainable Development Report 2026. Paris: SDSN; Dublin: Dublin University Press. DOI: 20.500.14765/118015
Publicado pelo The SDG Transformation Center https://dashboards.sdgindex.org
