De Belém a Antalya: documento propõe colocar os sistemas agroalimentares no centro da ação climática global

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Blog do IFZ | 22/06/2026

A transformação dos sistemas agroalimentares deve ocupar posição estratégica nas políticas internacionais de enfrentamento da mudança do clima. Essa é a mensagem central do documento De Belém a Antalya: Para posicionar o sistema agroalimentar no centro da ação climática, publicado pela Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis da Universidade de São Paulo (USP).

Divulgado em um momento decisivo para a governança climática internacional, o documento apresenta uma avaliação dos resultados da COP30, realizada em Belém, e propõe diretrizes para que a próxima Conferência das Partes, prevista para ocorrer em Antalya, na Turquia, consolide uma agenda capaz de articular ação climática, segurança alimentar, saúde pública, conservação da biodiversidade e justiça social.

O ponto de partida da análise é um diagnóstico que vem ganhando respaldo crescente na literatura científica internacional. Embora a transição energética tenha se tornado um dos principais focos das negociações climáticas globais, os sistemas agroalimentares permanecem relativamente periféricos nos processos de tomada de decisão, apesar de sua contribuição decisiva para o aquecimento global.

A produção, o processamento, a distribuição, o consumo e o descarte de alimentos respondem por aproximadamente um terço das emissões globais de gases de efeito estufa. No Brasil, onde as emissões associadas à agropecuária e às mudanças no uso da terra possuem peso particularmente elevado, essa participação alcança proporções ainda mais expressivas. Quando consideradas as emissões diretas e aquelas relacionadas ao desmatamento, o sistema agroalimentar responde por cerca de três quartos das emissões brutas nacionais.

O documento sustenta que esse cenário exige uma mudança de perspectiva. Não basta reduzir emissões em atividades específicas. É necessário compreender o sistema alimentar como um componente estruturante da agenda climática contemporânea. Sem uma transformação consistente das formas de produzir, distribuir e consumir alimentos, as metas internacionais de estabilização do clima tornam-se significativamente mais difíceis de alcançar.

A relação entre sistemas alimentares e mudança climática, porém, não ocorre em apenas uma direção. Os impactos do aquecimento global já afetam a produção agrícola em diversas regiões do planeta, comprometendo colheitas, pressionando preços, ampliando riscos de desabastecimento e agravando situações de insegurança alimentar. As populações mais vulneráveis são também as mais expostas a esses efeitos, o que reforça a necessidade de estratégias de adaptação orientadas pela redução das desigualdades sociais, econômicas, territoriais, raciais e de gênero.

Entre os conceitos centrais apresentados está a chamada “tríplice monotonia”, expressão utilizada para descrever três processos que caracterizam a configuração predominante dos sistemas agroalimentares contemporâneos. O primeiro é a homogeneização das paisagens agrícolas, marcada pela simplificação ecológica dos territórios e pela crescente dependência de insumos químicos. O segundo corresponde à expansão de sistemas intensivos de criação animal, frequentemente associados ao uso massivo de antibióticos e a elevados impactos ambientais. O terceiro refere-se à uniformização das dietas, com aumento da participação de alimentos ultraprocessados e redução da diversidade alimentar.

Segundo a análise, esses processos não apenas fragilizam ecossistemas e comprometem a biodiversidade. Eles também afetam a saúde humana, ampliam custos econômicos e reduzem a capacidade de adaptação dos territórios diante das mudanças climáticas. Trata-se de um modelo que gera impactos ambientais, sanitários e sociais de grande magnitude, cujos custos frequentemente permanecem invisíveis nos indicadores econômicos convencionais.

A avaliação da COP30 identifica avanços importantes. Pela primeira vez, a transformação da agricultura e dos sistemas alimentares foi incorporada como um dos eixos prioritários da Agenda de Ação da conferência. O tema esteve presente em debates técnicos, encontros ministeriais, iniciativas multilaterais e articulações entre governos, pesquisadores e organizações da sociedade civil.

Esse reconhecimento ampliou a compreensão de que alimentação, biodiversidade, clima e saúde constituem dimensões inseparáveis de um mesmo desafio global. Ainda assim, o balanço final é marcado por certa ambivalência. Embora tenha conquistado espaço político inédito, a transformação dos sistemas agroalimentares permaneceu praticamente ausente dos resultados formais da conferência, revelando a persistência de resistências relacionadas às mudanças estruturais necessárias no setor.

Entre os desdobramentos considerados mais promissores da COP30 estão iniciativas voltadas à recuperação de áreas degradadas, à redução das emissões associadas aos fertilizantes nitrogenados, ao fortalecimento dos mecanismos de financiamento para conservação das florestas tropicais e à articulação entre combate à fome, redução da pobreza e ação climática. Em conjunto, essas iniciativas indicam o surgimento de novas formas de integrar objetivos ambientais e sociais que historicamente foram tratados de maneira separada nos fóruns internacionais.

No caso brasileiro, recebem atenção especial os Planos para Acelerar Soluções, concebidos para aproximar compromissos internacionais e políticas públicas concretas. Entre eles, o PAS COACT busca fortalecer a convergência entre segurança alimentar, nutrição e ação climática por meio da articulação entre diferentes áreas governamentais e organismos internacionais. Já o PAS TERRA procura ampliar o papel da agroecologia e dos sistemas agroflorestais como respostas capazes de combinar restauração ambiental, produção de alimentos saudáveis, geração de renda e fortalecimento da resiliência territorial.

Outro tema que ganha destaque é a agropecuária regenerativa, expressão que vem adquirindo crescente relevância nos debates internacionais sobre clima e agricultura. O documento reconhece a importância dessa abordagem para a reconstrução das bases ecológicas da produção de alimentos, mas adverte que seu potencial transformador depende da profundidade das mudanças implementadas. Medidas pontuais ou exclusivamente tecnológicas podem gerar melhorias localizadas, mas não alteram necessariamente os padrões estruturais que sustentam a degradação ambiental.

Uma transição efetiva pressupõe compromissos amplos com a restauração de ecossistemas, a conservação dos recursos hídricos, a proteção da biodiversidade, o fortalecimento das capacidades institucionais de fiscalização ambiental e a eliminação do desmatamento. Pressupõe também a ampliação da oferta e do acesso a alimentos saudáveis e culturalmente adequados, valorizando a diversidade biológica e alimentar existente nos diferentes territórios.

Ao projetar o período que se abre entre Belém e Antalya, os autores defendem que a agenda agroalimentar avance da visibilidade política para a implementação efetiva. Para isso, propõem metas progressivas capazes de reduzir a dependência de fertilizantes químicos, agrotóxicos, antibióticos utilizados na produção animal e alimentos ultraprocessados, ao mesmo tempo em que fortalecem práticas regenerativas, agroecológicas e sistemas produtivos mais diversificados.

Outro elemento considerado essencial é a criação de mecanismos de discriminação positiva que garantam acesso equitativo a financiamento, tecnologias e instrumentos de apoio para agricultores familiares, povos indígenas, comunidades tradicionais e países com menor capacidade de investimento. A transição, argumentam os autores, precisa ser socialmente justa para evitar a reprodução das desigualdades que marcaram ciclos anteriores de modernização agrícola.

Como síntese de suas proposições, o documento defende a construção de um “Mapa do Caminho para a Transição Justa e Sustentável do Sistema Agroalimentar”. Inspirada nos roteiros internacionais que vêm orientando a descarbonização de setores como energia e indústria, a proposta busca estabelecer uma direção estratégica compartilhada, com metas, indicadores, mecanismos de monitoramento e compromissos verificáveis.

A ideia é oferecer uma referência comum para governos, organismos multilaterais, instituições científicas, organizações sociais e agentes econômicos, fortalecendo a coerência entre políticas climáticas, agrícolas, alimentares, sanitárias e de desenvolvimento territorial. Mais do que coordenar iniciativas já existentes, o objetivo é criar condições para que a transformação dos sistemas agroalimentares seja tratada como um processo estruturante das estratégias de desenvolvimento sustentável nas próximas décadas.

Em um cenário marcado pelo agravamento da crise climática, pela persistência da fome em diferentes regiões do mundo e pela crescente pressão sobre os ecossistemas, a transformação dos sistemas agroalimentares aparece como uma das tarefas centrais do século XXI. A passagem de Belém para Antalya poderá representar um momento decisivo para converter o reconhecimento da importância desse tema em compromissos concretos, capazes de aproximar ação climática, proteção da biodiversidade, promoção da saúde e garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada.

Autores do documento

ARILSON FAVARETO
Sociólogo, mestre em Sociologia, doutor em Ciências Ambientais e pós-doutor em Dinâmica Oceânica e Terrestre. Professor titular da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis da Universidade de São Paulo (USP) e do Programa de Pós-Graduação em Planejamento e Gestão Territorial da Universidade Federal do ABC (UFABC).

ESTELA CATUNDA SANSEVERINO
Gestora ambiental, mestre e doutoranda em Ciência Ambiental pelo Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora e supervisora de pesquisa da Cátedra Josué de Castro da USP.

NADINE MARQUES NUNES-GALBES

Nutricionista e doutora em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora e coordenadora executiva da Cátedra Josué de Castro da USP.

OLÍVIA DE FREITAS DÓREA RIBEIRO
Administradora pública e mestranda em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora e analista de incidência da Cátedra Josué de Castro da USP.

FERNANDA HELENA MARROCOS-LEITE
Nutricionista e doutora em Saúde Global e Sustentabilidade pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora colaboradora e supervisora de incidência da Cátedra Josué de Castro da USP, além de pesquisadora do Nupens-USP.

Baixe aqui o documento “DE BELÉM A ANTALYA: Para posicionar o sistema agroalimentar no centro da ação climática