CAFÉ COADO #240

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Instituto Fome Zero | 09 a 17 de outubro

Acabamos de passar nosso cafezinho!

O fim da escala 6×1 também é uma questão de alimentação saudável

Por José Graziano da Silva

O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888. Mais de um século depois, começamos a superar outra herança de jornadas exaustivas: seis dias de trabalho para apenas um de descanso.

A aprovação pelo Senado essa semana, por 75 votos a um, da proposta que acaba com a escala 6×1 – reduzindo a jornada sem diminuir salários – representa uma conquista histórica com implicações que ultrapassam os direitos trabalhistas.

Combater a fome exige renda, alimentos disponíveis e políticas públicas. Mas também exige tempo para comprar, preparar e compartilhar refeições saudáveis. Tempo que falta especialmente às mulheres, que continuam acumulando trabalho remunerado, cuidados familiares e tarefas domésticas.

A entrada das mulheres no mercado de trabalho foi uma conquista extraordinária. O problema é que não foi acompanhada por uma divisão equivalente das responsabilidades do lar.

Um estudo publicado em 2026 na revista The Lancet Regional Health – Africa relaciona urbanização, trabalho feminino e persistência das responsabilidades domésticas à chamada pobreza de tempo, que favorece o consumo de ultraprocessados.

Essa realidade também está presente no Brasil.

A indústria alimentícia explora essa situação oferecendo produtos prontos, convenientes e intensamente anunciados, cujo consumo elevado está associado à obesidade e a doenças crônicas. Enquanto isso, arroz, feijão, mandioca, frutas e preparações tradicionais perdem espaço. Não podemos responsabilizar famílias exaustas por escolhas condicionadas pela falta de tempo e renda.

O Chile oferece uma experiência interessante. Desde 2024, reduz gradualmente a jornada semanal, que chegou a 42 horas em 2026 e alcançará 40 em 2028. Paralelamente, adotou, desde 2016, rotulagem frontal com advertências sobre açúcar, sódio, gorduras saturadas e calorias, além de restrições à publicidade de alimentos não saudáveis dirigida às crianças e na televisão.

Mais tempo para comprar e cozinhar precisa vir acompanhado de um ambiente alimentar que favoreça escolhas saudáveis.

No Brasil, isso exige fortalecer feiras, compras da agricultura familiar, educação alimentar, rotulagem de advertência e regulação da publicidade infantil.

Mas reduzir a jornada não pode significar transferir às mulheres mais trabalho doméstico. Homens precisam compartilhar responsabilidades, enquanto o Estado deve garantir creches, transporte eficiente e serviços de apoio.

O Fome Zero demonstrou a importância de políticas articuladas, como Bolsa Família — que priorizou as mulheres na gestão do benefício —, PAA, PNAE e valorização do salário mínimo.

Agora precisamos incorporar outro direito: o tempo necessário para uma alimentação adequada e saudável.

O fim da escala 6×1 não resolverá sozinho nossos problemas alimentares, mas oferece uma oportunidade histórica de unir direitos trabalhistas, saúde pública, igualdade de gênero e valorização da cultura alimentar brasileira.


Ontem celebramos o Dia Mundial da Alimentação. A marca a fundação da FAO em 1945. No seu 81º aniversário, reafirmamos o princípio por trás de sua criação: libertar a humanidade da fome e garantir o direito à alimentação para todos! A fome global está diminuindo novamente, mas lentamente demais para alcançar a Fome Zero até 2030.

Devemos nos comprometer a erradicá-la, não apenas a reduzi-la. Hoje, o desafio vai além de calorias suficientes. Devemos garantir dietas saudáveis, diversas e acessíveis enquanto enfrentamos a desnutrição, obesidade e doenças relacionadas à dieta.

O aumento do consumo de alimentos ultraprocessados exige políticas públicas mais fortes e ambientes alimentares mais saudáveis. Este também é um desafio One Health, que conecta a saúde humana, animal, vegetal e ambiental.

As mudanças climáticas tornam a tarefa mais urgente. Secas, enchentes e condições climáticas extremas destroem meios de subsistência, elevam os preços dos alimentos e aprofundam a desigualdade. Precisamos passar de reagir a crises para proteção social antecipatória, conectar previsões climáticas, alertas precoces, apoio de renda e políticas de segurança alimentar antes que choques se tornem emergências humanitárias.

Erradicar a fome é possível. Garantir dietas saudáveis para todos é um desafio ainda maior. O mundo precisa manter o compromisso de Fome Zero além de 2030.


Convidamos você a ouvir nosso podcast. Neste episódio especial, celebramos o Dia Mundial da Alimentação com uma tese: a alimentação é um fenômeno irremediavelmente multidisciplinar.

Partindo de um simples prato de arroz com feijão, o episódio mostra como agronomia, economia, biologia, antropologia e o direito se encontram na mesa, resgatando a provocação de Josué de Castro, que em Geografia da Fome provou que a fome não é fenômeno natural, mas uma invenção humana.

Com base no relatório SOFI 2026, o debate parte de uma boa notícia incompleta: a fome atingiu 645 milhões de pessoas em 2025, o terceiro ano seguido de queda, mas ainda um escândalo civilizatório. O episódio fatia o problema em sete dimensões. Na nutrição e na saúde, analisa por que 2,69 bilhões de pessoas não podem pagar por uma dieta saudável e como os preços alimentam o duplo fardo da má-nutrição.

Na economia, aborda a perda e o desperdício de quase um terço dos alimentos, subsídios políticos que atrapalham a produção de alimentos variados e a queda dos investimentos em pesquisa agrícola.

Na ecologia, mostra como o sistema agroalimentar degrada a base natural de que depende, sendo responsável por 30% das emissões de gases de efeito estufa e 70% do uso de água doce no mundo.

No encontro entre saberes, apresenta o sistema do Argan, no Marrocos, a captação de água da chuva dos povos Tikuna e Yagua e as Escolas de Campo para Agricultores. Em seguida, discute as desigualdades de gênero, raça e território, incluindo a emergência nutricional Yanomami, e o papel dos conflitos armados como principal motor da fome extrema.

O episódio volta os olhos para o Brasil e para o papel das políticas públicas: a arquitetura do SISAN, a extinção e a reconstrução do CONSEA, o PAA, o PNAE e o debate sobre transferência de renda. Tópicos importantes para as eleições presidenciais de segundo turno no Brasil: a escolha entre entrar na fila do osso ou sair do Mapa da Fome.

Por fim, apresenta os quatro verbos da FAO para o cotidiano: aprender, escolher, reduzir e agir, sob o lema “Innovate today. Nourish tomorrow.”

Prepare-se para enxergar tudo o que cabe em um prato de comida e descubra por que combater a fome exige integrar ciência, saber tradicional, justiça social e vontade política.


O QUE FOI NOTÍCIA NO BRASIL E NO MUNDO


FOME

´É preciso agir como se pudéssemos mudar o mundo’, diz historiadora que estuda fome e a gastronomia- Estadão
Acabar com a fome é uma questão de prioridade política – Midia Ninja
Arcebispo de Aparecida pede desarmamento e atenção à fome e à pobreza – Agência Brasil
O combate à fome não pode ser vítima de guerra ideológica – Midia Ninja
Brasil tem o menor índice de fome da sua história, comemora Alckmin – Hora do Povo
Dia Mundial da Alimentação e a contribuição brasileira para a História do século XXI – Midia Ninja
No Dia Mundial da Alimentação, ONU busca inovação para nutrição no futuro – ONU
Dia Mundial da Alimentação: mulheres da agroecologia cobram compromisso com o combate à fome nas eleições – Midia Ninja

COMIDA E CLIMA

Acabar com a fome é uma questão de prioridade política – Midia Ninja
Não é só no Brasil: El Niño preocupa agro da Argentina, Uruguai e Paraguai – CNN
Produção brasileira de grãos deve aumentar apesar do El Niño – Agência Brasil
Super El Niño pode aumentar riscos climáticos para a agricultura – Agrolink
El Niño de 2026 reacende alerta para produtores do Vale do São Francisco – G1
Seis efeitos que o consumidor deve sentir com o El Niño muito forte – Gazeta do Povo
El Niño e chuvas até dezembro preocupam produtores de batata no Paraná – Agrolink
Estado lança Operação El Niño, com investimento de R$ 29 bilhões para prevenção – Jornal da Orla
Governo de SP cria novo nível de alerta para antecipar resposta a eventos extremos via Operação El Niño – Agência SP

COMIDA E CIDADE

Semana Municipal da Alimentação abre em Campinas com debate sobre a comida que vai para o lixo – Prefeitura de Campinas
No Dia da Alimentação, Banco de Alimentos de Sorocaba combate a fome na região – G1
Segurança alimentar exige esforço coletivo e articulação – Jornal de Uberaba
TCE aponta que 80% das cidades de Mato Grosso não destinam recursos ao combate à fome – Esportes e Notícias
Fome e desperdício de alimentos acendem alerta para saúde: saiba os riscos – Estado de Minas

COMIDA E CULTURA

Poder público reconhece o papel das cozinhas solidárias no combate à fome – Midia Ninja
Fome e desperdício de alimentos acendem alerta para a saúde e a sustentabilidade – A Crítica
Cerca de 645 milhões de pessoas enfrentam fome no mundo, revela relatório da FAO, destacando a urgência de inovações para garantir a segurança alimentar – Repórter Maceió
Agricultura familiar e cozinhas solidárias reforçam combate à fome no Brasil – Gazeta News Guarulhos

INTERNACIONAL

Na ‘zona da morte’, cidade da Ucrânia é ameaçada pela fome durante a guerra – Folha de SP
Venezuela lança plano contra a fome em meio à crise alimentar – Isto É
Delcy Rodríguez anuncia na FAO o ‘Plano Venezuela Alimenta’ para erradicação da fome – Brasil de Fato
Guerra no Sudão faz alimentos custarem dez vezes mais e agrava crise de fome – SIC Notícias
Papa pede pelo combate à fome e pela agricultura sustentável – A 12
Somália: ante a ameaça de inundações causadas pelo El Niño, milhões de pessoas podem enfrentar ainda mais dificuldades e fome – Cruz Vermelha
Mais de 1,4 milhão de palestinos estão no mapa da fome por conta do bloqueio israelense – Opera Mundi
Dois terços de quem padece fome extrema no planeta se concentram em apenas dez países – Democrata
ONU destaca inovação para combater fome no Brasil – Notícias do Planalto