José Graziano da Silva | 16/10/2026
Hoje, 16 de outubro, o Dia Mundial da Alimentação marca a fundação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em 1945. Em seu 81º aniversário, reafirmamos o princípio que inspirou sua criação: libertar a humanidade da fome e assegurar a todos o direito à alimentação!
Tive a honra de dirigir a FAO entre 2012 e 2019. Sua missão permanece tão essencial quanto sempre foi. O direito universal a uma alimentação adequada e saudável é inegociável, independentemente da renda, do lugar de nascimento ou das circunstâncias políticas.
A fome no mundo voltou a diminuir, mas em ritmo lento demais para alcançarmos a meta de Fome Zero até 2030. Os desafios ao multilateralismo, o enfraquecimento dos compromissos políticos e as divisões ideológicas não podem diminuir nossa ambição. O combate à fome transcende a política. Devemos nos comprometer com sua erradicação, e não apenas com sua redução.
Hoje, o desafio vai além de garantir calorias suficientes. Precisamos assegurar dietas saudáveis, diversificadas e acessíveis, enfrentando, ao mesmo tempo, a desnutrição, a obesidade e as doenças relacionadas à alimentação. O aumento do consumo de alimentos ultraprocessados exige políticas públicas mais robustas e ambientes alimentares mais saudáveis. Esse também é um desafio da abordagem Uma Só Saúde (One Health), que articula a saúde humana, animal, vegetal e ambiental.
As mudanças climáticas tornam essa tarefa ainda mais urgente. Secas, inundações e eventos climáticos extremos destroem meios de subsistência, elevam os preços dos alimentos e aprofundam as desigualdades. Precisamos deixar de apenas reagir às crises e avançar para uma proteção social antecipatória, articulando previsões climáticas, sistemas de alerta precoce, apoio à renda e políticas de segurança alimentar antes que os choques se transformem em emergências humanitárias.
Isso exige um multilateralismo renovado e a reforma das Nações Unidas. Precisamos superar a fragmentação da governança alimentar global e reunir organizações internacionais, governos, bancos de desenvolvimento e sociedade civil.
A Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada durante a presidência brasileira do G20, oferece um caminho para mobilizar recursos financeiros, conhecimento e vontade política em torno de políticas públicas comprovadamente eficazes. Seu sucesso exige engajamento internacional duradouro e responsabilidade compartilhada. Não devemos criar novas iniciativas nem novas estruturas.
Erradicar a fome é possível. Garantir uma alimentação saudável para todos é um desafio ainda maior. O mundo precisa manter seu compromisso com a meta de Fome Zero para além de 2030.
