Estudo revela que a má nutrição no Brasil tem relações socioculturais

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A pesquisadora Claudia Pastorello aponta as relações entre má alimentação e classe social no País

Jornal da USP | 28/01/2026

Má nutrição no Brasil — entrevista com Claudia Pastorello

Um estudo da USP sobre má nutrição analisou casos de desnutrição e excesso de peso entre 2006 e 2021 no Brasil, o que permitiu identificar relações entre gênero, raça, cor de pele e classe social com o cenário de insegurança alimentar e obesidade. Claudia Cristina Vieira Pastorello, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da USP, explica o estudo.

“Nós buscamos analisar de uma forma detalhada, sistemática e temporal o crescimento da má nutrição, que inclui tanto a desnutrição quanto o excesso de peso. Foram utilizados dados sociodemográficos públicos do Brasil, que incluem dados da série histórica do Vigitel e da Pesquisa Nacional de Saúde do ano de 2019. Focamos em compreender como aconteceu essa dinâmica de crescimento da obesidade ao longo do tempo e em quais categorias ele foi mais rápido para tentar entender realmente quais são os estratos sociais mais afetados por essas condições. Analisamos um longo intervalo e em diferentes cenários históricos, incluindo períodos de maior proteção social ou de crise econômica”, explica a pesquisadora.

O que é a má nutrição?

Claudia reforça que a má nutrição não se limita à desnutrição ou à fome. “A má nutrição é um termo guarda-chuva, que engloba tanto a desnutrição, como baixo peso e magreza, como a obesidade e o excesso de peso, que são os cenários em que nós nos preocupamos mais no momento, porque eles são muito mais prevalentes. A verdade é que essas condições são geradas por insegurança alimentar e nutricional, pois a obesidade, apesar de parecer contraintuitiva, ela também é um tipo de insegurança nutricional.”

Os resultados do estudo

De acordo com a pesquisadora, a má nutrição atinge as populações mais vulneráveis de forma variada. “Quando a gente fala de obesidade, notamos que as mulheres negras, incluindo pretas e pardas, e de menor renda e escolaridade são as mais afetadas hoje no Brasil. Você pode pensar que a população que tem mais vulnerabilidade necessariamente vai ter mais obesidade, mas não, pois o inverso ocorre no sexo masculino. Os homens negros de menor renda e de menor escolaridade tiveram menor prevalência de obesidade. Mas o nosso estudo também mostrou que, quando a gente olha para a desnutrição, principalmente os homens pardos, eles tiveram um pouquinho de regressão na baixa prevalência. Isso pode ser um indicativo de que essa vulnerabilidade dentro da má nutrição atinge diferentes populações.”

“A obesidade no Brasil, assim como no mundo, não pode ser compreendida apenas como resultado de escolhas individuais, falta de informação ou comportamento inadequado das pessoas. Ela é consequência populacional direta de um sistema alimentar desigual, de políticas públicas que falharam em garantir de forma plena e justa direitos à alimentação adequada e saudável da população. Se uma população inteira apresenta um crescimento contínuo de obesidade ao longo de 15 anos, ainda que a gente tenha tido uma desaceleração, esse aumento ainda continua. Esses dados mostram que o ambiente que as pessoas vivem, que elas trabalham, como elas se deslocam, como elas se alimentam, está organizado de uma forma desigual,” finaliza Claudia.

Baixe aqui “Má-nutrição no Brasil (2006–2021): tendências e desigualdades nas intersecções de gênero, raça/cor da pele e classe social”, tese de doutorado de Claudia Cristina Vieira Pastorello, defendida na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

Publicado originalmente no Jornal da USP
https://jornal.usp.br/radio-usp/estudo-da-usp-revela-que-a-ma-nutricao-no-brasil-tem-relacoes-socioculturais/