O que é que tem na sopa do neném?

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O índice de Dieta Minimamente Diversificada para crianças da FAO, a Agricultura Familiar e Políticas Públicas para uma alimentação saudável

Thiago Lima na Midia Ninja | 16/09/2026

“O que é que tem na sopa do neném? Será que tem espinafre? Será que tem tomate? Será que tem feijão? Será que tem agrião?” A música do grupo Palavra Cantada provavelmente faz parte da memória de muitos pais, avós e cuidadores. A cantiga brinca com os ingredientes que podem aparecer na alimentação de um bebê e até com aquilo que definitivamente não deveria estar na sopa — como o “chulé”, incluído para provocar o riso das crianças.

Por trás da brincadeira há, porém, uma ideia bastante séria: crianças pequenas precisam de uma alimentação variada e saudável. E, pela primeira vez, essa ideia passou a ser acompanhada de maneira sistemática no âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Em março de 2025, a Comissão de Estatística das Nações Unidas aprovou um novo indicador para o ODS 2: a Prevalência de Dieta Minimamente Diversificada, para crianças de 6 a 23 meses e para mulheres de 15 a 49 anos. 

Mas o que significa, afinal, uma Dieta Minimamente Diversificada para uma criança?

O indicador é simples. Considera-se que uma criança alcançou a diversidade alimentar mínima quando, no dia anterior, consumiu alimentos e bebidas pertencentes a pelo menos cinco de oito grupos alimentares: i) leite materno; ii) cereais, raízes, tubérculos e plátanos; iii) feijões, ervilhas, lentilhas, castanhas e sementes; iv) leite e derivados; v) carnes, aves, peixes e vísceras; vi) ovos; vii) frutas e hortaliças ricas em vitamina A; e viii) outras frutas e hortaliças. Não se trata, portanto, de contar calorias ou medir a quantidade consumida, mas de observar a variedade e qualidade da alimentação.

O SOFI 2026, o relatório anual das Nações Unidas sobre o estado da segurança alimentar e nutricional no mundo, mostra por que essa medida é importante. Apenas 30,8% das crianças de 6 a 23 meses no mundo alcançaram a diversidade alimentar mínima no período de 2018 a 2024. Ou seja: mais de dois terços das crianças pequenas não tiveram, no dia anterior à pesquisa, uma alimentação suficientemente diversificada. O dado permanece praticamente estagnado: entre 2011 e 2017, eram 29,4%. Na África, a proporção cai para 20,5%; na Ásia, chega a 34,9%.

Esses são dados muito preocupantes porque a falta de dietas saudáveis são causas diretas de mortalidade prematura por doenças cardiovasculares, infartos, diabetes e até câncer. Soma-se a isso a estimativa de que, globalmente, cerca de 150 milhões de crianças possuam baixos peso e estatura para a idade, 42,8 milhões estejam com desnutrição aguda e que o sobrepeso e a obesidade sejam tendência dominante em crianças com idade escolar, principalmente pelo consumo de ultraprocessados. Neste quesito, aliás, é louvável a iniciativa do governo brasileiro em pautar a regulação da venda de alimentos ultraprocessados e monitoramento da exposição da população a esses produtos na Organização Mundial da Saúde.  

E o Brasil?

Os dados disponíveis no relatório mostram uma situação melhor que a média mundial, mas ainda distante de um cenário ideal. No Brasil, 63,3% das crianças de 6 a 23 meses alcançaram a diversidade alimentar mínima. Isso significa que aproximadamente quatro em cada dez crianças não chegaram ao patamar considerado mínimo.

O que explicaria essa distância? A renda é sempre uma forte hipótese, afinal, uma alimentação diversificada não custa pouco dinheiro. O relatório SOFI aponta que a alimentação saudável está cada vez mais cara no Brasil e no mundo, resultado de um fenômeno estrutural de inflação dos alimentos. Enquanto isso, os ultraprocessados estão cada vez mais acessíveis à população, inclusive por serem beneficiados por incentivos fiscais diversos, altamente influenciados pelo lobby das indústrias. O alento, para o Brasil, é que mesmo com o encarecimento da alimentação saudável, diminuiu de 28,8% (2017) para 21,1% (2025) a proporção da população que não possui renda para adquiri-la.

De todo modo, provavelmente é insuficiente explicar o problema do acesso de crianças a dietas minimamente diversificadas apenas pela renda.  Precisamos considerar os Desertos e Pântanos alimentares. Desertos alimentares são áreas onde a população tem acesso limitado a estabelecimentos que comercializam alimentos saudáveis e variados. Já os pântanos alimentares são ambientes nos quais existe ampla oferta de alimentos, mas predominam opções pouco saudáveis, ou ultraprocessadas. Assim, mesmo quando há dinheiro disponível, o ambiente alimentar pode dificultar escolhas mais saudáveis. Tempo disponível para preparar alimentos, conhecimento, condições de armazenamento e hábitos alimentares também devem ser importantes nessa equação.

Felizmente, no Brasil, podemos contar com a agricultura familiar, que pode desempenhar um papel estratégico.

O Brasil possui uma enorme diversidade de alimentos produzidos por agricultores e agricultoras familiares. Um estudo sobre o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), na modalidade Compra com Doação Simultânea, identificou 536 diferentes produtos adquiridos entre 2011 e 2018. Entre eles estavam frutas, hortaliças, legumes, raízes, ovos, carnes, cereais e mel, além de produtos da agroindústria familiar e da sociobiodiversidade, como açaí, castanha-do-brasil e azeite de babaçu. (Sambuichi et al., 2023).

A informação é reveladora: o desafio brasileiro não é necessariamente criar diversidade a partir do zero. Parte dessa diversidade já existe nos territórios e pode ser mobilizada por políticas públicas. Mas isso não significa que ela não possa ser ampliada também, com o fortalecimento da agroecologia — diversa por natureza — e de sistemas agroflorestais. Afinal, quantos frutos da floresta amazônica e do Cerrado são completamente desconhecidos dos próprios brasileiros?

Há, contudo, uma questão ainda mais importante do que a produção e a produtividade: fazer com que essa produção diversificada percorra o caminho entre os territórios de produção e o prato.

Programas de compras públicas podem conectar agricultores familiares a escolas, creches, restaurantes, bancos de alimentos e equipamentos públicos de segurança alimentar. Políticas de transferência de renda podem ampliar a capacidade de compra das famílias. Serviços de assistência técnica, abastecimento e infraestrutura podem ajudar a garantir produção diversificada e oferta regulares. E políticas de educação alimentar podem contribuir para transformar disponibilidade em consumo saudável.

A diversidade, portanto, pode começar na agricultura familiar, mas não termina nos estabelecimentos rurais e nas áreas de extrativismo. Ela precisa chegar de forma acessível, regular e sustentável à alimentação das crianças.

Temos políticas públicas para isso? Sim. Mas elas precisam ser ampliadas, revisadas e aperfeiçoadas. A boa notícia é que há conhecimento acumulado para fazer essas políticas funcionarem. O desafio é construir o pacto social que garanta os recursos provenientes dos impostos necessários para isso. Uma solução pode ser enfatizar a Segurança Alimentar e Nutricional das crianças na construção de alianças políticas e, assim, promover transformações nos sistemas agroalimentares para que eles sejam mais agrobiodiversos. De quebra, teríamos benefícios ecológicos e climáticos também! Ou seja, essa aliança política deveria igualmente incluir os atores focados no meio ambiente.

E por que não pensar também em aumentar a tributação sobre produtos ultraprocessados para financiar políticas de promoção da diversidade alimentar das crianças? Além da possível melhoria na saúde dos pequenos e pequenas, o benefício poderia ser percebido no futuro pelas contas públicas. Crianças mais bem alimentadas podem se tornar adultos menos suscetíveis a doenças que oneram o sistema público de saúde e o orçamento das famílias, como diabetes, hipertensão e doenças renais, entre outras. Criar e aprofundar sinergias entre o SUS e a SAN é um promissor.

O novo indicador da Dieta Minimamente Diversificada nos oferece, portanto, uma oportunidade. Podemos perguntar não apenas quanto alimento produzimos, quanto distribuímos ou quanto custa uma dieta saudável, mas também o que efetivamente chega ao prato das crianças. Por um lado, podemos observar e pesquisar os países com índices melhores do que os nossos para saber onde e como podemos melhorar. Por outro, o Brasil pode oferecer cooperação internacional para aqueles que precisam atingir nosso patamar.

A renda importa, claro, mas o Direito Humano à Alimentação Adequada não pode ficar interditado para quem tem menos recursos. Garantir esse direito exige renda, sim, mas também políticas públicas capazes de aproximar produção diversificada, abastecimento, acesso e consumo qualificado.

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante seja a mesma da cantiga: o que tem na sopa do neném?

Que tenha feijão. Que tenha tomate. Que tenha carne. Que tenha verduras, ovos e outros alimentos nutritivos. Frutas para sobremesa, por favor. E que a diversidade que existe na agricultura familiar brasileira possa, cada vez mais, chegar à sopa — e ao prato — de todas as crianças.

Thiago Lima é Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais da UFPB. Membro do IFZ

Referência

Sambuichi, R. H. R., Perin, G., Almeida, A. F. C. S. de, Alves, P. S. C., Araújo, D. G. de, Câmara, R. D. F., & Januário, E. S. (2023). Diversidade de produtos adquiridos pelo Programa de Aquisição de Alimentos no Brasil e regiões. In R. H. R. Sambuichi & S. P. Silva (Eds.), Vinte anos de compras da agricultura familiar: Um marco para as políticas públicas de desenvolvimento rural e segurança alimentar e nutricional no Brasil (pp. 159–167). Ipea. https://doi.org/10.38116/978-65-5635-060-8/capitulo6

Food and Agriculture Organization of the United Nations, International Fund for Agricultural Development, United Nations Children’s Fund, World Food Programme, & World Health Organization. (2026). The state of food security and nutrition in the world 2026: Understanding and addressing the high cost of a healthy diet. FAO. https://doi.org/10.4060/cd8306en

Publicado originalmente na Mídia Ninja
https://midianinja.org/opiniao/o-que-e-que-tem-na-sopa-do-nenem/