Um Início de 2026 Promissor para os Preços dos Alimentos no Brasil, ma non troppo

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Por José Giacomo Baccarin e Gustavo Jun Yakushiji | 19/02/2026

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1 – Introdução

A divulgação dos dados da inflação ao consumidor no Brasil, relativos a janeiro de 2026, trouxe a confirmação de uma tendência observada ao longo de 2025. Diferentemente de 2024, os alimentos vêm contribuindo para conter o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) no limite da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para a inflação brasileira. No primeiro mês de 2026, enquanto o IPCA crescia 0,33%, um de seus componentes, o IPAB (Índice de Preços de Alimentação e Bebidas), aumentava 0,23% (IBGE, 2026).

Contudo, no grupo Alimentação e Bebidas, há um comportamento diferenciado entre os subgrupos Alimentação no Domicílio e Alimentação Fora do Domicílio, com o segundo mantendo uma pressão altista significativa nos preços ao consumidor. Isso está relacionado a diferenças importantes nos fatores que afetam os preços dos alimentos nos supermercados, vis-à-vis os de bares, lanchonetes e restaurantes.

Pretende-se caracterizar melhor essa diferença, com a análise dos dados desde janeiro de 2023 e avançando, ainda que de forma insuficiente, sobre suas causas. Ao mesmo tempo, especula-se sobre o que pode acontecer com os dois subgrupos de Alimentação e Bebidas no restante do ano de 2026.

Como de praxe, são usadas informações do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) relativas ao IPCA, em nível nacional, e de seus componentes: o grupo Alimentação e Bebidas e seus dois subgrupos, Alimentação no Domicílio e Alimentação Fora do Domicílio. No caso do primeiro subgrupo, a análise acaba por abordar também alguns de seus itens e subitens.

2 – Alimentação e Preços ao Consumidor

Nos três anos decorridos desde 2023, em dois deles, 2023 e 2025, o IPAB ficou abaixo do IPCA. Em 2023, o IPAB foi de 1,02% e o IPCA, de 4,62%, enquanto, em 2025, respectivamente, os valores foram de 2,94% e 4,26%. Em 2024, todavia, o IPAB alcançou 7,70%, superando o IPCA, de 4,83%, fazendo com que o limite superior da meta de inflação do CMN fosse ultrapassado, ainda que em meros 0,33%, ao contrário do observado nos outros dois anos.

É importante perceber que, atualmente, Alimentação e Bebidas constitui o principal grupo em termos de participação nos gastos do consumidor brasileiro, à frente dos demais oito grupos. Em janeiro de 2026, o IPAB representou 21,42% do IPCA, subdividido em 15,33% do Índice de Preços da Alimentação no Domicílio (IPAD) e 6,09% do Índice de Preços da Alimentação Fora do Domicílio (IPAF).

O baixo valor do IPAB em janeiro de 2026 foi ressaltado na cobertura midiática como o menor observado nos últimos 20 anos, o que é bastante alvissareiro em uma perspectiva de longo prazo. No curto prazo, deve-se destacar que, nos meses de verão, com chuvas mais intensas, o IPAB costuma ser maior do que nos meses de inverno, reforçando o quanto seu resultado foi positivo, em janeiro último, sob o ponto de vista do consumidor brasileiro.

Considerando-se os dois subgrupos de Alimentação e Bebidas, seus resultados se diferenciaram em janeiro de 2026. Enquanto o IPAD foi de 0,10%, o IPAF alcançou 0,55%, acima, inclusive, do IPCA. Como se procurará mostrar a seguir, esse comportamento tem-se mostrado recorrente nos últimos três anos, exceto nos quatro meses finais de 2024.

3 – Alimentação no Domicílio e Fora do Domicílio

Na Figura 1, visualmente, fica evidente que as flutuações no IPAD são muito maiores do que as do IPAF entre os meses de um determinado ano. Na média dos 37 meses considerados, o IPAD aumentou 0,24% a.m., com coeficiente de variação de 352,26%, enquanto o IPAF variou mais que o dobro, com média de 0,50% a.m., mas com flutuações bem menos intensas, com seu coeficiente de variação restringindo-se a 43,48%.

Percebe-se, também, que, nos meses de 2024, com exceção de julho e agosto, o IPAD ficou acima do IPAF. Ao contrário, nos outros dois anos, na maior parte dos meses, o IPAF foi maior. Uma provável explicação para a excepcionalidade de 2024 é que houve grande desvalorização do real perante o dólar, pressionando para cima o preço das commodities agrícolas e, em consequência, o de seus alimentos derivados. Com isso, entre setembro de 2024 e abril de 2025, o IPAD registrou valores acima de 0,5% e, em cinco deles, acima de 1,0%.

Dois destaques entre os itens da Alimentação no Domicílio podem ser apontados como pressionando a inflação de alimentos em 2024: um deles, Bebidas e Infusões, com preços subindo 14,21% no ano, em decorrência, principalmente, do aumento de 39,60% no subitem Café Moído. O outro foi o item Carnes, com quase 80% de participação da carne bovina, cujos preços aumentaram 20,84% em 2024, de maneira muito concentrada em seus quatro últimos meses.

Figura 1 Variações mensais do IPAD e IPAF, Brasil, janeiro de 2023 a janeiro de 2026

No caso da Alimentação Fora do Domicílio, entende-se que seus preços são afetados por outros fatores, além dos preços agrícolas. Sua sensibilidade à variação da renda dos consumidores é maior do que a da Alimentação no Domicílio, com seus preços sendo pressionados no período mais recente, em vista da diminuição do nível de desocupação e do aumento da renda das famílias. Ademais, nos custos da Alimentação Fora do Domicílio, a importância de variáveis não agrícolas tende a ser considerável, entre elas os salários urbanos e os aluguéis, que também se elevam em períodos de aquecimento da economia.

4 – Perspectivas para 2026

Começando pelo IPAD, seus preços devem continuar pressionados no restante de 2026. A diminuição da incidência de Imposto de Renda para quem ganha menos no Brasil aumentará o consumo de alimentos, elevando de maneira mais forte a demanda por Alimentação Fora do Domicílio. Possibilitar ao povo brasileiro comer mais e com mais opções é sempre uma boa notícia, em especial se os preços dos alimentos não inibirem tal avanço social.

Como em outros serviços, Educação e Saúde, por exemplo, a política de juros altos do Banco Central não tem conseguido evitar que o aumento de preço da Alimentação Fora do Domicílio venha, há três anos, superando o IPCA. O remédio não pode continuar sendo aumentar juros; seus efeitos colaterais são muito nocivos à economia brasileira. Resta pensar em políticas que aumentem a produtividade e reduzam os custos médios das refeições em bares, lanchonetes e restaurantes. Fácil dizer, mas muito difícil pensar na implementação de medidas específicas para que isso aconteça, ainda mais no curto prazo.

Quanto à Alimentação no Domicílio, a Tabela 1 mostra que sete de seus itens aumentaram de preço em janeiro de 2026, enquanto nove diminuíram. Entre os que aumentaram, não causa maiores apreensões o ocorrido com Tubérculos, raízes e legumes, Hortaliças e verduras e Frutas. São compostos por produtos in natura, muitas vezes sem comércio internacional expressivo, com seus preços tendendo a aumentar no período de entressafra, que coincide, em grande parte, com o verão.

Tabela 1 Variação e participação porcentual dos itens da Alimentação no Domicílio, Brasil, janeiro de 2026, ordem decrescente de variação

No caso de Carnes, seu aumento de 0,84% deve ser motivo de maiores preocupações, não pelo seu valor em si, mas pela importância desse item na Alimentação no Domicílio, pouco acima de 18% e o maior entre todos os itens. É possível que esteja se configurando, nos moldes do final de 2024, um foco de pressão altista dos alimentos na cadeia da bovinocultura de corte.

Em outros itens com grande participação nos gastos do consumidor — Panificados, Açúcares e derivados, Bebidas e infusões, Cereais, leguminosas e oleaginosas (que incluem arroz e feijão) e Leite e derivados —, o ano começou sem maiores amargores.

José Giacomo Baccarin é Professor Economia Rural e Política Agrícola UNESP, campus Jaboticabal (SP). Credenciado Pós-Graduação Geografia UNESP, campus Rio Claro (SP). Diretor Instituto Fome Zero. E-mail: [email protected]

Gustavo Jun Yakushiji é Engenheiro Agrônomo e Mestrando em Estatística e Experimentação Agronômica pela ESALQ/USP.


Referência

BGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. Rio de Janeiro: SIDRA, 2026. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/home/ipca/brasil. Acesso em: 18 fev. 2026.


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