Um Estreito Estreito Demais: Como a Interrupção no Abastecimento de Fertilizantes Está Desarticulando a Segurança Alimentar Global

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European Climate Foundation | 21/04/2026

À medida que o conflito se desenrola no Oriente Médio, mercados e consumidores permanecem concentrados no Estreito de Ormuz. As manchetes se concentram nas rotas marítimas interrompidas, na incerteza das cadeias de abastecimento e na alta dos preços da gasolina. Mas muito menos atenção tem sido dada ao modo como essa crise ultrapassa a bomba de gasolina e chega às prateleiras de nossos supermercados.

O choque dos fertilizantes revela riscos sistêmicos para a segurança alimentar

O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas alerta que uma interrupção prolongada no tráfego pelo Estreito de Ormuz poderá levar até 45 milhões de pessoas a mais à insegurança alimentar. Se o conflito continuar, o PMA prevê um aumento de 21% no número de pessoas em situação de insegurança alimentar na África Ocidental e Central e de 24% na Ásia.

Segundo um relatório da Aliança Global para o Futuro da Alimentação, os sistemas alimentares respondem por pelo menos 15% do consumo global anual de combustíveis fósseis. O que inicialmente pode parecer uma crise energética ou de transporte criará um choque sistêmico no sistema alimentar global.

O Oriente Médio desempenha um papel importante na produção mundial de fertilizantes, e cerca de um terço dos fertilizantes comercializados em todo o mundo é transportado pelo Estreito de Ormuz.

O quase fechamento do Estreito em decorrência do conflito obrigou fábricas de fertilizantes da região a interromper ou reduzir sua produção. Isso afeta agricultores do Hemisfério Norte, que estão atualmente se preparando para o plantio da primavera. Esses atrasos certamente terão impacto sobre os rendimentos. A redução da produtividade agrícola leva a preços mais altos, oferta mais restrita e acesso desigual, atingindo tanto as pequenas propriedades quanto os consumidores.

Além dos fertilizantes: uma cadeia alimentar dependente dos combustíveis fósseis

Diante de tamanha instabilidade enraizada em nosso sistema alimentar, por que aprofundamos ainda mais nossa dependência dos combustíveis fósseis?

Os fertilizantes nitrogenados sintéticos e os pesticidas são derivados quase exclusivamente de combustíveis fósseis e respondem por um terço do consumo global de produtos petroquímicos.

Mas e quanto à conveniência dos fertilizantes nitrogenados? Trata-se de uma lógica de curto prazo que cria problemas de longo prazo. Algumas estimativas indicam que metade de todo o fertilizante nitrogenado aplicado ao solo é perdida, enquanto o PNUMA afirma que esse índice se aproxima de 80%, poluindo o solo, os rios e os lagos, criando zonas mortas aquáticas e destruindo a biodiversidade e a saúde humana.

Quando os fertilizantes nitrogenados são liberados na atmosfera, aceleram as mudanças climáticas, respondendo por 60% das emissões antropogênicas de óxido nitroso (N₂O). Seu potencial de aquecimento climático é quase 300 vezes maior que o do CO₂.

Essa questão vai além dos fertilizantes. Os combustíveis fósseis infiltraram-se em todas as etapas da cadeia alimentar. Além da produção agrícola, o processamento de alimentos, a manufatura, a embalagem, o transporte e a distribuição no varejo respondem atualmente por 42% do consumo total de combustíveis fósseis nos sistemas alimentares.

Alimentos altamente processados são produzidos a partir de culturas agrícolas de larga escala, como o milho, cuja produção depende de fertilizantes nitrogenados. Depois, o milho é colhido com tratores e máquinas também movidos a petróleo. Em seguida, essas culturas passam por processos industriais intensivos em energia.

As dietas estão mudando em direção a alimentos mais processados, cuja produção exige de duas a dez vezes mais energia do que a de alimentos integrais e que já representam até 60% da ingestão calórica em muitos países de alta renda.

A demanda por energia no meio da cadeia alimentar deverá aumentar globalmente, expondo-nos ainda mais às oscilações dos preços dos combustíveis fósseis.

Rumo a formas mais ecológicas de agricultura

Em um artigo recente da Euronews, alguns agricultores europeus relatam estar começando a reduzir sua dependência dos fertilizantes nitrogenados e, com isso, sua vulnerabilidade aos choques no fornecimento de fertilizantes, recorrendo à fertilidade natural do solo, a culturas fixadoras de nitrogênio, ao composto, ao esterco e a ciclos fechados de nutrientes.

Estudos de caso realizados em propriedades agrícolas da Finlândia, da Grécia e da Suíça pela Aliança Europeia para a Agricultura Regenerativa (EARA) corroboram ainda mais essas conclusões. Agricultores que adotaram preparo mínimo ou nenhum preparo do solo, culturas de cobertura, rotações diversificadas, plantas fixadoras de nitrogênio, compostagem e sistemas agroflorestais frequentemente alcançaram rendimentos próximos aos das propriedades vizinhas, ao mesmo tempo em que utilizaram 61% menos fertilizantes nitrogenados sintéticos.

Essas propriedades também alcançaram níveis de fotossíntese mais de 25% superiores e 24% mais cobertura do solo, indicadores de solos mais saudáveis, melhor retenção de água e maior resiliência a condições climáticas extremas.

Lições da crise da Ucrânia de 2022

Depois dos choques de preços provocados pela guerra na Ucrânia em 2022, por que não avançamos mais rapidamente para assegurar nossa resiliência coletiva — não apenas no setor energético, mas também por meio da transformação do sistema alimentar?

A estratégia “Do Campo à Mesa” da União Europeia tem como objetivo reduzir em pelo menos 50% as perdas de nutrientes provenientes dos fertilizantes até 2030, o que deveria resultar em uma redução mínima de 20% no uso geral de fertilizantes. Por que isso não foi levado mais a sério?

O choque dos fertilizantes provocado pelas complicações geopolíticas no Estreito de Ormuz ocorre em um momento particularmente sensível para a formulação de políticas públicas na Europa.

Representantes do setor agrícola reuniram-se em Bruxelas no início deste mês para discutir as graves consequências do conflito para os agricultores e os preços. A Comissão Europeia está preparando seu Plano de Ação da UE para os Fertilizantes, a ser apresentado em abril.

Ao mesmo tempo, o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) exige que os importadores da União Europeia paguem um preço pelo carbono associado a determinados produtos importados de fora do bloco, com base nas emissões de gases de efeito estufa geradas durante sua produção. Agricultores da Polônia, Irlanda, Itália e Espanha intensificaram as pressões pela suspensão do CBAM em razão do aumento dos custos dos insumos.

Declarações recentes do comissário europeu para Agricultura e Alimentação, Christophe Hansen, suscitaram preocupações de que as salvaguardas ambientais possam, mais uma vez, tornar-se a variável de ajuste em tempos de crise. Sua sugestão de que os picos nos preços dos fertilizantes e o conflito no Irã poderiam justificar uma “revisão” da Diretiva dos Nitratos e da Diretiva-Quadro da Água ecoa a resposta dada a choques anteriores.

Essa história é conhecida demais. Um choque revela fragilidades sistêmicas, e a maioria se sente tentada a entrar em outro ciclo de soluções de curto prazo, em vez de enfrentar os fatores estruturais que produzem a vulnerabilidade.

Por que esta crise pode representar um ponto de inflexão

A instabilidade geopolítica não é o único risco. Muitos observadores reconhecem a crescente probabilidade de um forte episódio de El Niño, um fenômeno natural que também pode desestabilizar nossos sistemas alimentares.

Os eventos de El Niño alteram os padrões climáticos globais, aumentando a probabilidade de secas, ondas de calor e inundações em várias regiões agrícolas importantes ao mesmo tempo. Para os agricultores, isso significa rendimentos reduzidos, janelas de plantio mais estreitas e maior incerteza — muitas vezes meses antes que os impactos se tornem plenamente visíveis nos mercados.

Esta crise expõe uma realidade central: a dependência estrutural da Europa de combustíveis fósseis importados e de seus derivados, como os fertilizantes, representa riscos significativos para nossas economias, nossa segurança e a resiliência de nosso sistema alimentar.

Eventos climáticos extremos, estresse térmico, secas e inundações já estão tornando mais difícil a produção de alimentos, muitas vezes simultaneamente em várias regiões. O alerta de especialistas e agricultores não diz respeito a uma única crise, mas ao efeito cumulativo de todas elas.

Estamos presos em um ciclo de retroalimentação: o uso excessivo de combustíveis fósseis — por exemplo, na produção de fertilizantes sintéticos — acelera as mudanças climáticas; as mudanças climáticas comprometem a produtividade agrícola; e, quando exatamente esses suprimentos de fertilizantes são interrompidos, o sistema já não dispõe de nenhuma margem de segurança.

A dependência da Europa em relação ao gás importado, aos fertilizantes sintéticos e às cadeias de abastecimento globalizadas deixa seu sistema alimentar exposto precisamente aos tipos de choques geopolíticos e climáticos que estão se tornando cada vez mais frequentes.

Mas toda crise também traz uma oportunidade.

Os formuladores de políticas públicas devem evitar repetir os erros cometidos após o choque provocado pela guerra na Ucrânia em 2022, quando prevaleceu o pensamento de curto prazo e uma transformação mais profunda ficou estagnada.

Em vez disso, esta crise poderia catalisar uma mudança em direção a sistemas agrícolas mais sustentáveis, diversificados e resilientes às mudanças climáticas.

Já no setor energético, vemos a Comissão Europeia responder à crise ao delinear uma mudança estrutural que reduz a dependência dos combustíveis fósseis importados e favorece as energias renováveis e a eletrificação. Uma mudança semelhante em relação ao uso extensivo de combustíveis fósseis, especialmente na produção de fertilizantes, deve ocorrer.

As escolhas que fizermos nos próximos meses determinarão se este momento se tornará mais um episódio de retrocesso nas políticas públicas ou o início de um sistema alimentar preparado para o futuro.

Publicado originalmente pela European Climate Foundation
https://europeanclimate.org/stories/how-fertiliser-disruption-is-unravelling-global-food-security/

Baixe aqui o relatório “Power Shift Why We Need to Wean Industrial Food Systems Off Fossil Fuels