Dietas inadequadas entre as maiores ameaças à saúde no século XXI

  • Post publicado:
  • Tempo de leitura:4 minutos de leitura

Blog do IFZ | 12/10/2026

A alimentação precisa ocupar um lugar central nas estratégias de prevenção das grandes ameaças à saúde. Essa é uma das mensagens da Comissão da revista The Lancet sobre ameaças globais à saúde no século XXI, publicada em 10 de outubro de 2026. Com análises de 204 países e territórios, o relatório examina trajetórias até 2100 e destaca o peso crescente dos riscos metabólicos e alimentares.

Liderada por Christopher Murray e Natalia Kanem, a Comissão utiliza a estrutura de projeções do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME), da Universidade de Washington. Identifica 17 ameaças prioritárias, incluindo obesidade, desnutrição infantil, hipertensão, mudanças climáticas, desigualdade e pandemias. Seu propósito é estimular prevenção e preparação, superando respostas que chegam apenas depois das crises.

Ao comentar os resultados, Lawrence Haddad, da Aliança Global para Melhoria da Nutrição (GAIN), observa: “Cinco das sete principais causas dos DALYs estão ligadas a dietas inadequadas”. Em tradução de sua declaração, o que impressiona é “o aumento relativo da importância da glicemia elevada, do índice de massa corporal elevado e da pressão arterial elevada”.

Os DALYs, ou anos de vida ajustados por incapacidade, combinam perdas por morte prematura e por problemas de saúde. O relatório distingue a carga futura atribuível aos fatores de risco da parcela potencialmente evitável, calculada pela diferença entre cenários plausíveis mais favoráveis e mais desfavoráveis. Essa distinção permite identificar oportunidades de ação sem tratar projeções como destinos inevitáveis.

Um resultado especialmente expressivo envolve o conjunto formado por índice de massa corporal elevado, alimentação inadequada e baixa atividade física, denominado “obesidade” pela Comissão para simplificar a comunicação. Esses fatores já representavam 10,4% dos DALYs globais em 2023. Entre 2025 e 2100, a diferença entre os cenários analisados alcança 23,1 bilhões de DALYs potencialmente evitáveis, aproximadamente 9,4% da carga total projetada no cenário de referência.

As projeções indicam ainda que, em 2050, 60% dos adultos e quase um terço das crianças e adolescentes poderão apresentar sobrepeso ou obesidade. O conjunto de riscos está associado a doenças cardiovasculares, diabetes, doença renal crônica e cânceres, entre outros problemas. Seus efeitos também podem ampliar desigualdades, sobretudo quando o acesso à prevenção e aos tratamentos depende da renda.

A desnutrição infantil permanece igualmente relevante. O relatório estima 1,02 bilhão de DALYs potencialmente evitáveis relacionados a déficits de crescimento infantil. Os autores reconhecem que essa medida não incorpora plenamente consequências sobre cognição, desempenho escolar e produtividade econômica. A importância social da nutrição, portanto, ultrapassa os impactos sanitários quantificados.

Haddad chama atenção justamente para essa dimensão ampliada. Em seu comentário, relaciona dietas inadequadas a ameaças ao crescimento econômico, à criação de empregos, à estabilidade, aos resultados educacionais e à ação climática. Como afirma, a alimentação saudável “impulsiona o bem-estar humano — em muitos níveis”.

O relatório converge com essa perspectiva ao apresentar sistemas alimentares resilientes como condição transversal para reduzir múltiplas ameaças. Sua organização influencia obesidade, desnutrição e hipertensão, além de se conectar às emissões, à resistência antimicrobiana, aos meios de vida e à segurança alimentar.

Para o Instituto Fome Zero, os resultados reforçam a necessidade de integrar combate à fome e promoção de dietas saudáveis. Proteção social, alimentação escolar, compras públicas e abastecimento orientado pela nutrição podem contribuir para essa agenda. A Comissão recomenda sistemas de saúde preparados, investimentos em inovação e monitoramento contínuo. Na alimentação, antecipar riscos e ampliar o acesso a alimentos saudáveis são caminhos para preservar saúde e desenvolvimento.

Mensagens principais

  • Riscos alimentares e metabólicos ganham peso nas projeções até 2100.
  • IMC elevado, alimentação inadequada e inatividade física representam uma enorme carga potencialmente evitável.
  • Obesidade e desnutrição infantil exigem respostas integradas e atenção às desigualdades.
  • Sistemas alimentares resilientes podem reduzir diferentes ameaças simultaneamente.
  • Promover dietas saudáveis é investir em saúde, educação e desenvolvimento.

Citação do artigo

MURRAY, C.; KANEM, N.; ABED, S. et al. The Lancet Commission on 21st century global threats to health. The Lancet, [S. l.], v. 0, 2026. DOI: 10.1016/S0140-6736(26)01714-9. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(26)01714-9. Acesso em: 12 out. 2026.