Acelerar a transformação dos sistemas alimentares: prioridades para 2027

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A transformação dos sistemas alimentares pode gerar múltiplos benefícios por meio de escolhas alimentares mais inteligentes. O que, então, precisa mudar a partir de 2027 para que essas metas sejam alcançadas?

Dr. Lawrence James Haddad* | Economist Enterprise | 14/10/2026

Cinco anos após a primeira Cúpula das Nações Unidas sobre Sistemas Alimentares, em que estágio se encontra a transformação dos sistemas alimentares? Em escala global, o cenário não é animador. Segundo a iniciativa Food Systems Countdown, em seu relatório de 2026, três quartos dos 40 indicadores de sistemas alimentares avaliados na África estão distantes ou muito distantes das metas globais para 2030. Os demais continentes, inclusive a Europa, não apresentam resultados muito melhores.

Quando, porém, estendemos o horizonte até 2050, as chances de alcançar essas metas aumentam substancialmente. Elas abrangem fome, desnutrição, emprego, clima, meio ambiente, resiliência e governança. A transformação dos sistemas alimentares pode gerar múltiplos benefícios por meio de escolhas alimentares mais inteligentes. O que, então, precisa mudar a partir de 2027 para que essas metas sejam alcançadas?

Primeiro, precisamos atrair mais financiamento para o setor agroalimentar, direcionando os recursos para oportunidades que proporcionem retorno econômico e, ao mesmo tempo, contribuam para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Isso significa identificar oportunidades capazes de gerar impacto econômico e social e, em seguida, reduzir os riscos associados a elas.

Precisamos ampliar o fluxo de projetos aptos a receber investimentos, articular diferentes participantes para viabilizar investimentos de pequeno porte e compreender quais fatores os investidores consideram fontes de risco, para que possamos mitigá-los. Ao mesmo tempo, precisamos reequilibrar os investimentos, afastando-os de iniciativas que comprometem o impacto social — como os subsídios a alimentos não saudáveis — e direcionando-os para as compras públicas e a pesquisa e o desenvolvimento (P&D) públicos que tornem mais acessíveis os alimentos saudáveis em sua forma integral ou minimamente processados. Isso exige ampliar o apoio à horticultura, às leguminosas, à avicultura, à produção de leite e à aquicultura.

Por fim, quando identificarmos oportunidades de investimento em empresas que fornecem alimentos saudáveis, precisaremos apoiá-las com os instrumentos financeiros adequados para que possam crescer e ampliar sua atuação.

Segundo, precisamos agir mais rapidamente. A falta de urgência é uma força corrosiva na transformação dos sistemas alimentares. Muitos limites, uma vez ultrapassados, não podem ser revertidos. É o caso da degradação ambiental grave, dos pontos de inflexão na temperatura do mar, da privação que desencadeia emigração e conflitos e dos alimentos inseguros que provocam novos surtos de doenças virais.

Isso significa deixar de se limitar a planos e estratégias e passar a identificar os obstáculos determinantes que impedem o avanço — infraestrutura precária, políticas incoerentes, barreiras à abertura de empresas, dados de baixa qualidade e falta de financiamento — para, então, removê-los.

Transformar uma estratégia em um fluxo contínuo de oportunidades capazes de atrair investimentos exige diagnósticos que identifiquem os gargalos que obstruem o fluxo de recursos. Em seguida, é preciso trazer os financiadores para a mesa desde o início, para que ajudem a construir as soluções e a fazer os investimentos acontecerem.

Terceiro, vivemos em um mundo cada vez mais turbulento, no qual planejar, fazer previsões e projetar cenários se tornou cada vez mais difícil de maneira a produzir informações relevantes. Precisamos estar cada vez mais preparados para o que vier.

Nos sistemas alimentares, como em qualquer sistema, resiliência significa diversificar: o que se cultiva, onde e como se produz e quem produz; como os alimentos são processados, transportados, armazenados e comercializados no varejo; e como são preparados, consumidos e descartados.

Hoje, o sistema alimentar mundial se aproxima mais de uma monocultura do que de um sistema diversificado: apenas dez culturas agrícolas fornecem 83% de todas as calorias colhidas. Mas diversificar não basta. Precisamos desenvolver deliberadamente variedades vegetais e raças animais capazes de resistir a choques, sejam eles naturais ou provocados pela ação humana.

Também precisamos proteger a saúde das pessoas que mantêm o sistema alimentar em funcionamento. A Covid-19 mostrou como rapidamente o sistema alimentar perde capacidade de operar quando os trabalhadores do setor adoecem. Programas que apoiam a saúde e a nutrição desses profissionais contribuem para tornar mais robustas as cadeias de valor e a força de trabalho.

Quarto, precisamos usar a inteligência artificial (IA) de maneira mais criativa. As aplicações voltadas à produção eficiente de alimentos nas propriedades rurais avançam rapidamente, mas os usos da tecnologia para além da porteira parecem estar ficando para trás.

Onde estão as ferramentas que utilizam imagens para verificar a segurança dos alimentos em mercados populares de produtos frescos ou detectar a adulteração do leite? E aquelas capazes de avaliar o valor nutricional das refeições escolares? Ou de analisar os dados existentes para identificar pequenas e médias empresas do setor de alimentos nutritivos prontas para receber investimentos? E as aplicações de voz que poderiam ajudar os agricultores a explorar alternativas de diversificação da produção, com o cultivo de culturas nutritivas?

Essas ferramentas podem existir, mas ainda são poucas, pouco testadas e não foram disseminadas em escala. Precisamos de toda a ajuda que a inteligência artificial, utilizada de forma responsável, pode oferecer.

Por fim, não podemos perder a confiança na abordagem sistêmica. Em um mundo em que os recursos destinados à ajuda são escassos, podemos seguir por dois caminhos. As soluções milagrosas são a opção mais sedutora: fáceis de vender, implementar e avaliar, além de permitirem associar uma iniciativa ao nome de seu financiador.

Mas será que elas transformam os sistemas ou acabam simplesmente neutralizadas por alguma outra mudança previsível, mas não antecipada, em outro ponto da cadeia alimentar?

Se não examinarmos o sistema, identificarmos como destravá-lo e agirmos levando em conta o conjunto, nada mudará.

Muitas vezes me perguntam o que eu faria se pudesse escolher uma única medida para consertar o sistema alimentar. Minha resposta é sempre a mesma: parem de fazer essa pergunta.

A transformação dos sistemas alimentares costuma ser vista como uma empreitada de alto risco porque depende do alinhamento de inúmeras ações e incentivos para que todo o seu potencial se concretize. Mas, diante do histórico desalentador do mundo na tarefa de melhorar a saúde das pessoas e do planeta, não trabalhar de forma sistêmica é o maior risco de todos.

Não podemos nos dar ao luxo de passar mais cinco anos procurando soluções milagrosas.

(*) Dr. Lawrence James Haddad é diretor executivo da Aliança Global para a Melhoria da Nutrição (Global Alliance for Improved Nutrition GAIN)

Publicado originalmente na Economist Enterprise
https://insights.economistenterprise.com/energy-environment/accelerating-food-systems-transformation-priorities-for-2027