Em seu mais recente boletim, a jornalista Thin Lei Win analisa a crescente influência do setor financeiro sobre a agricultura e a alimentação e apresenta dados que ajudam a compreender por que a fome persiste em um mundo que produz alimentos suficientes.
Blog do IFZ | 25/09/2026
O mais recente boletim da jornalista Thin Lei Win, publicado após sua participação na Semana do Clima de Nova York, chama atenção para um dos aspectos menos discutidos dos sistemas alimentares: a crescente concentração econômica e financeira por trás da produção e do comércio de alimentos. Intitulado The Opacity Is the Point — “A opacidade é o objetivo” —, o texto apresenta os principais resultados do relatório Food, Land & Money, elaborado pela Friends of the Earth dos Estados Unidos com o apoio de outras doze organizações.
Segundo o estudo, as cem maiores empresas mundiais dos setores de alimentação e agricultura faturaram, juntas, US$ 4,5 trilhões em 2022. O montante supera o Produto Interno Bruto da Alemanha naquele ano e equivale a quase o dobro do PIB combinado de toda a África Subsaariana. Por trás desses números encontra-se uma concentração ainda mais preocupante: apenas três grandes gestoras de ativos detêm 22% das ações dessas empresas. Considerando vinte gestoras e um fundo soberano, essa participação chega a 41%.
Thin destaca também que somente vinte empresas dos setores de grãos, fertilizantes, carnes e laticínios distribuíram US$ 53,5 bilhões aos seus acionistas entre 2021 e 2022. O valor supera os US$ 51,5 bilhões então estimados pelas Nações Unidas como necessários para fornecer assistência alimentar às 230 milhões de pessoas mais vulneráveis do mundo.
O título do boletim sintetiza um aspecto central do problema: a falta de transparência não seria apenas uma falha do sistema, mas uma característica que beneficia aqueles que controlam os fluxos financeiros, comerciais e produtivos. Mercados de commodities, derivativos e estruturas acionárias são apresentados como temas excessivamente técnicos, afastando do debate público decisões que influenciam diretamente o preço da comida, a renda dos agricultores e a capacidade das famílias de manter uma alimentação adequada.
A jornalista chama atenção ainda para a financeirização dos sistemas alimentares. Segundo o Relatório sobre Comércio e Desenvolvimento 2025 da UNCTAD, mais de 75% das receitas das principais empresas comercializadoras de alimentos já resultariam de operações financeiras, como derivativos agrícolas, e não propriamente da comercialização de trigo, café, cacau ou outros produtos.
Isso ajuda a explicar por que o mundo pode produzir alimentos suficientes e, ao mesmo tempo, conviver com fome, obesidade, concentração de terras e destruição ambiental. Como afirmou Jeff Conant, coautor do relatório, não se trata apenas de um sistema alimentar, mas de um “complexo financeiro do agronegócio”, no qual a produção de comida pode se tornar secundária diante do objetivo de gerar retornos aos investidores.\
Thin Lei Win encerra seu boletim destacando experiências que oferecem caminhos alternativos: redes de agricultores negros, indígenas e LGBTQIA+; programas que conectam unidades de saúde a propriedades agroecológicas; mobilizações populares contra privilégios concedidos a grandes empresas de agrotóxicos; e iniciativas de valorização dos alimentos e conhecimentos indígenas.
Essas experiências transformam esperança em ação concreta. Enfrentar a fome e construir sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis exige revelar quem controla a terra, o dinheiro e os mercados. A opacidade protege a concentração de poder; a transparência, a participação social e políticas públicas orientadas pelo direito humano à alimentação ajudam a democratizá-lo.
Baixe aqui o relatório “Food, Land and Money“
Baixe aqui o sumário executivo “Food, Land and Money | Executive Summary“
Acesse o site do relatório https://foodlandmoney.org/
