CAFÉ COADO #238

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Instituto Fome Zero | 23 de setembro a 03 de outubro

Acabamos de passar nosso cafezinho!

Do Fome Zero às urnas: o Brasil que queremos

Por José Graziano da Silva

Hoje, 3 de outubro, véspera do primeiro turno das eleições, volto a um documento que ajuda a compreender o sentido desta escolha. São as primeiras diretrizes do Projeto Fome Zero, datadas de dezembro de 2000: https://ifz.org.br/antes-do-lancamento-a-construcao-um-documento-historico-do-projeto-fome-zero/.

Neste mês completam-se 25 anos da apresentação pública, em outubro de 2001, da proposta que Lula transformou em prioridade de governo em janeiro de 2003. Reler essas diretrizes é reencontrar uma ideia fundamental: nenhum projeto de desenvolvimento pode ser bem-sucedido enquanto parte da população passa fome.

O objetivo Fome Zero como ficou conhecido mundialmente quando se adotou os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável pelas Nações Unidas em 2015, já estava definido com clareza: desenhar políticas capazes de erradicar a fome no Brasil no curto prazo. Mas o documento também advertia que para cumprir essa tarefa era preciso dimensionar o problema, avaliar os programas então existentes, identificar custos, redefinir responsabilidades e estabelecer metas e resultados esperados. O compromisso político precisava encontrar instrumentos concretos para mudar a vida das pessoas.

De fato, o Projeto Fome Zero foi construído com base em estudos, opiniões de especialistas e debates públicos. Suas diretrizes reconheciam experiências anteriores existentes como as transferências de renda do Bolsa Escola, a aposentadoria rural, a alimentação escolar, os restaurantes populares e os planos de abastecimento municipais. Nenhuma ação deveria ser descartada por preconceito: o critério seria sua capacidade de enfrentar a fome, alcançar quem precisava e utilizar adequadamente os recursos públicos.

Havia também uma compreensão ampla da alimentação. O roteiro incluía qualidade dos alimentos, tributação, estoques reguladores, logística e sustentabilidade. A preocupação ultrapassava a entrega de comida: tratava-se de organizar políticas que permitissem às famílias alimentar-se com regularidade e dignidade. Governo, sociedade civil e empresas tinham responsabilidades nessa construção.

Lula deu centralidade a esse compromisso ao assumir a Presidência em 2003. O combate à fome tornou-se parte de uma estratégia que combinava proteção social, emprego, valorização do salário mínimo, apoio à agricultura familiar e acesso à alimentação. A população mais pobre passou a ocupar outro lugar nas prioridades do Estado: seus direitos deveriam orientar as decisões do país.

Essa trajetória contribuiu para a primeira saída do Brasil do Mapa da Fome, em 2014, durante o governo Dilma Rousseff. Infelizmente o desmonte das políticas sociais e de combate à fome no governo Bolsonaro levaram o país de volta ao Mapa da Fome antes mesmo da pandemia. Depois desses retrocessos, a retomada dessas mesmas políticas sob Lula 3 levou à segunda saída, anunciada oficialmente pela FAO em 2025. Foram conquistas coletivas, construídas por governos e pela sociedade, com a liderança política de Lula como elemento decisivo.

Essa experiência única a nível mundial de sair, voltar e sair rapidamente de novo do Mapa da Fome, nos ensina que avanços sociais precisam ser protegidos. A extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional pelo governo Jair Bolsonaro, em 2019, e sua recriação por Lula, em 2023, mostram diferenças concretas sobre participação social e responsabilidade pública diante da fome.

É essa história que ilumina a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Flávio apresenta-se como continuidade do bolsonarismo. Sua candidatura precisa, portanto, ser examinada à luz desse legado. A escolha envolve não apenas a prioridade ao combate à fome mas também o lugar dos mais pobres no orçamento, a proteção dos direitos e a disposição de enfrentar uma desigualdade que historicamente reservou oportunidades e privilégios a poucos.

Esquerda e direita continuam sendo referências políticas, mas a dimensão desta eleição ultrapassa esses rótulos. Estamos discutindo humanidade, solidariedade e justiça. Queremos um país em que a riqueza produzida amplie oportunidades para todos ou uma sociedade que continue tratando a exclusão como inevitável?

Ainda há muito a fazer porque sair do Mapa da Fome não significa necessariamente garantir alimentação saudável a todas as famílias. E acima de tudo, precisamos avançar e impedir novos retrocessos!

Amanhã, levaremos às urnas essa responsabilidade. Vinte e cinco anos depois, a estratégia Fome Zero permanece como compromisso com um Brasil que pertence a todos. É por essa história, e pelo futuro que ela permite construir, que minha escolha é Lula.


O QUE FOI NOTÍCIA NO BRASIL E NO MUNDO

FOME

Endividamento e alta taxa de juros fazem conta de consumo de alimentos não fechar, avalia ex-ministro -Brasil de Fato
Pesquisa revela reconstrução e expansão da agenda agroecológica no governo federal entre 2023 e 2026 – Midia Ninja
Eleições: a necessidade da Agroecologia – Outras Palavras
O Brasil precisa ser governado por quem já passou fome – Brasil de Fato
PL e PP lideram ameaças à agroecologia no Congresso, enquanto PT e Psol encabeçam defesa, aponta estudo – Brasil de Fato
Jorge Moreira da Silva: “45 milhões de pessoas podem ser empurradas para uma situação de fome até ao final do ano” – CNN
Wellington Dias e chanceler espanhol cobram aceleração global contra fome até 2030 – Brasil 247
Entre os cinco principais presidenciáveis, apenas Lula detalha políticas de combate à fome – O joio e o trigo

COMIDA E CLIMA

‘O gado está morrendo de sede e fome’: o impacto devastador do El Niño no Corredor Seco da América Central – G1
El Niño pode agravar desigualdade e fome infantil na América Latina – UOL
‘Árvore contra a fome’ pode alimentar milhões no mundo. Mas por que quase ninguém a cultiva? – Exame

COMIDA E CIDADE

Bahia amplia combate à fome com inauguração de cozinhas comunitárias em quatro municípios – Bahia pra você
Programa Bahia Sem Fome amplia cozinhas comunitárias em quatro municípios e prevê 252 mil refeições em um ano – Jornal Grande Bahia

COMIDA E CULTURA

Quintal agroecológico preserva diversidade de alimentos e saberes do campo em assentamento da reforma agrária em MG – Brasil de Fato
Mulheres que cultivam o futuro – Le Monde Diplomatique
‘Chorei querendo comer’: o efeito silencioso das canetas emagrecedoras – Viva Bem
Documentário inédito sobre as Cozinhas Solidárias é lançado no Youtube, cinco anos após iniciativa nascer para o combate à fome – Pretessências

INTERNACIONAL

Banco dos Brics pode lançar fundo contra a fome até dezembro, diz o Brasil – O Cafezinho
Fome ameaça mais 12 milhões de mulheres devido a conflitos no Médio Oriente – ONU – Saúde Mais
Aliança Global liderada por Brasil e Espanha defende nova etapa no combate à fome e à pobreza – Diplomacia Business