Do dado à ação: o que o Haiti ensina sobre alimentação escolar resiliente a crises

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Blog do IFZ | 06/10/2026

Um novo estudo do Global Food Institute (GFI), da George Washington University, e da Summits Education mostra como dados rotineiros de programas de alimentação escolar podem deixar de ser apenas registros do passado e tornar-se sinais para agir antes que uma ruptura prive crianças de suas refeições. Publicado em setembro de 2026, o Research in Practice: Deploying Anticipatory Analytics for School Feeding Programs in Fragile Settings apresenta resultados do piloto Crisis-Resilient School Meals (CRSM) no Planalto Central do Haiti.

O trabalho reúne cinco instituições. A Summits Education administra a rede escolar e o programa de alimentação; a Acceso apoia agricultores e os conecta à demanda das escolas; o Global Food Institute lidera pesquisa e análise; a World Central Kitchen contribui para um centro de resiliência; e a Haiti Food System Alliance coordena os parceiros. O estudo é assinado por Sydney Pryor, Erica Gralla, Caitlin Grady e Michael Mann, do GFI, e Cassandre Regnier, da Summits. Há apoio do Longer Tables Fund, da Rockefeller Foundation e da W.K. Kellogg Foundation.

Em um país marcado por insegurança, interrupções no transporte, volatilidade dos mercados e funcionamento escolar irregular, o painel transforma informações já coletadas — frequência, dias de alimentação, voluntariado e estoques — em alertas acionáveis. A ferramenta cobre 311 escolas e dispensa nova coleta onerosa de dados.

Os dados do final do ano letivo 2025–2026 mostram que, entre janeiro e junho, as refeições foram servidas em pelo menos 85% dos dias planejados e em mais de 90% dos dias em que as escolas estiveram abertas, exceto em abril. O painel distingue fechamentos escolares de falhas na alimentação em escolas abertas, identifica unidades com problemas persistentes e converte estoques de arroz, feijão, milho e óleo em dias de alimentação restantes. Também atribui causas e responsabilidades: entre os problemas de parceiros, 80% correspondiam a quantidade insuficiente encomendada ou entregue; entre os problemas escolares, 65% decorreram da decisão de não cozinhar; e, entre os comunitários, 63% estavam relacionados à falta de cozinheiros voluntários. Assim, o alerta pode chegar ao ator capaz de corrigir cada gargalo.

Há forte convergência com o enfoque que o Instituto Fome Zero (IFZ) e o International Institute for Environment and Development (IIED) aplicam, por meio do ASPIRE, à Proteção Social Antecipatória (PSA) no Brasil. Nos dois casos, a alimentação escolar é infraestrutura de proteção social, e não apenas política educacional. Ambos partem de capacidades existentes, valorizam informações territoriais e defendem intervenções antes que falhas se convertam em fome ou evasão escolar.

A diferença está na escala e no estágio. O piloto haitiano começa “por dentro” da operação: detecta tendências com dados administrativos, mas não pretende ainda prever choques. O IFZ–IIED examina o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) junto ao Bolsa Família e ao Programa de Aquisição de Alimentos, perguntando como conectá-los a previsões climáticas, Defesa Civil, Cadastro Único, protocolos, gatilhos e financiamento pré-acordado. O Haiti antecipa falhas operacionais; o ASPIRE busca institucionalizar como o Estado deve adaptar ou ampliar a proteção antes de secas, enchentes e outros choques.

A vizinha República Dominicana oferece uma terceira peça desse aprendizado regional. Seu Programa de Alimentação Escolar (PAE), executado pelo Instituto Nacional de Bienestar Estudiantil (INABIE), alcançou em 2025 mais de 2,1 milhões de beneficiários em mais de 7 mil escolas e superou 1 bilhão de refeições no ano. Em 2026, o INABIE informou distribuir mais de 5 milhões de porções por dia, incluindo café da manhã, almoço e frutas. O país também dispõe de instrumentos de proteção social adaptativa, apoiados no Supérate, no Sistema Único de Beneficiarios (SIUBEN), na ADESS e no Bono de Emergencia, além de coordenação com gestão de riscos e assistência do Programa Mundial de Alimentos.

Entretanto, não se deve afirmar que o PAE dominicano já seja plenamente antecipatório. Há resposta rápida a famílias afetadas, mas falta integrar sistematicamente alimentação escolar, previsões, gatilhos, protocolos territoriais e recursos contingentes. O painel haitiano oferece sinais operacionais; o ASPIRE, a arquitetura institucional e financeira para convertê-los em ação previamente combinada.

Os três casos compartilham uma mensagem essencial: antecipar não significa criar necessariamente um novo programa. Significa fazer os programas existentes enxergarem o risco mais cedo e terem autorização, capacidade e recursos para responder. Um caminho de cooperação na ilha poderia conectar dados de estoque, funcionamento das escolas, preços, produção local e previsão de eventos extremos; estabelecer limiares claros; proteger compras da agricultura familiar; e definir alternativas para manter a alimentação quando aulas, estradas ou mercados forem interrompidos. No Haiti, no Brasil ou na República Dominicana, a pergunta decisiva é a mesma: quando o alerta chega, o sistema consegue agir antes que a criança fique sem comer?

Crédito do estudo

Global Food Institute e Summits Education. Research in Practice: Deploying Anticipatory Analytics for School Feeding Programs in Fragile Settings. Washington, D.C., setembro de 2026. DOI: 10.4079/GFI.2026.09. https://doi.org/10.4079/GFI.2026.09

Baixe aqui o estudo “Research in Practice: Deploying Anticipatory Analytics for School Feeding Programs in Fragile Settings“