O consumo de alimentos ultraprocessados — como refrigerantes, salgadinhos e refeições prontas — cresce em todo o mundo, apesar das evidências cada vez mais contundentes de que fazem mal à saúde.
Por Kelly Garton e Boyd Swinburn no The Conversation | 01/05/2026
Os alimentos ultraprocessados (UPFs, na sigla em inglês) já representam cerca de 70% dos produtos alimentícios embalados nas prateleiras dos supermercados — e uma fatia ainda maior nas lojas de conveniência.
Em nossa pesquisa mais recente, investigamos como as empresas que produzem esses alimentos se aproveitam de aspectos da natureza humana para fazer com que seus produtos pareçam a opção mais fácil, recompensadora e irresistível.
Mostramos que os UPFs são desenvolvidos para despertar desejo e estimular o consumo. Eles são comercializados para todos os públicos — especialmente para as crianças — de modo a parecerem a alternativa mais saborosa, prática e com a melhor relação custo-benefício, apesar dos inúmeros danos associados à saúde.
Nossa atração pelos ultraprocessados não é mero acaso. As empresas do setor combinam diferentes estratégias para ampliar o consumo. Muitas delas exploram diretamente a maneira como pensamos, sentimos e nos comportamos.
Por que continuamos consumindo ultraprocessados
Os UPFs são os alimentos mais processados disponíveis no mercado. Segundo a revista médica The Lancet, tratam-se de formulações industriais produzidas a partir de ingredientes baratos extraídos ou derivados de alimentos integrais, combinados com aditivos e, em geral, com pouca ou nenhuma presença de alimento in natura no produto final.
Os ultraprocessados são amplamente promovidos por meio de marcas e campanhas de marketing, e a maior parte deles é produzida por grandes corporações internacionais.
Dietas ricas nesses produtos, porém, estão associadas a um maior risco de desenvolver uma ampla gama de problemas graves de saúde, incluindo sobrepeso ou obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, câncer, doença renal crônica e depressão, além de maior risco de morte prematura.
Nossa pesquisa partiu da seguinte questão: por que continuamos consumindo dietas ricas em ultraprocessados mesmo sabendo o quanto elas são prejudiciais? Para responder a isso, ampliamos o foco da análise e investigamos o sistema que desenvolve, produz e comercializa esses produtos — e como a natureza humana acaba envolvida nele.
Revisamos uma década de estudos publicados sobre ciência dos alimentos e estratégias de marketing relacionadas aos ultraprocessados. Em seguida, trabalhamos com especialistas dessas áreas para criar e aperfeiçoar diagramas capazes de visualizar o funcionamento desse sistema.
Esses modelos, conhecidos como “diagramas de ciclos causais”, permitem identificar mecanismos de retroalimentação positiva que impulsionam o sistema em direção ao seu objetivo central: vender cada vez mais ultraprocessados.
Constatamos que o sistema é formado por múltiplos ciclos interligados, nos quais aspectos da biologia e do comportamento humano desempenham papel essencial.
Produtos concebidos para maximizar o consumo
Um desses ciclos envolve o uso de combinações potencialmente viciantes de ingredientes, sobretudo carboidratos refinados e gorduras. Do ponto de vista biológico, carboidratos — incluindo açúcares, mas não apenas eles — e gorduras ativam diferentes circuitos de recompensa entre o intestino e o cérebro. Quando consumidos em conjunto, seus efeitos tornam-se potencialmente viciantes.
Esses ingredientes podem ser combinados em inúmeras proporções para atingir os chamados “pontos ideais” sensoriais. Em outras palavras, busca-se maximizar as respostas de prazer e desejo enquanto se minimizam reações negativas.
Outras estratégias incluem métodos de processamento que reduzem a sensação natural de saciedade ou aceleram a digestão, produzindo uma sensação imediata — mas rapidamente passageira — de recompensa. O resultado é que passamos a querer consumir mais, em menos tempo.
Estratégias de marketing dos ultraprocessados
No campo do marketing, os produtos são formulados para serem fáceis e convenientes de armazenar e consumir, além de transmitir a sensação de bom custo-benefício.
Diversas técnicas promocionais procuram capturar a atenção e o desejo dos consumidores, ao mesmo tempo em que criam a aparência de serem saudáveis. Estratégias voltadas às crianças, em especial, recorrem a associações da cultura popular ligadas à diversão, ao entretenimento e à ideia do que é “descolado”.
Outro exemplo de ciclo de retroalimentação é a maneira como as corporações coletam grandes volumes de dados sobre nossos hábitos de compra e nossa vida online, alimentando campanhas de marketing digital direcionadas nas redes sociais. Essas estratégias tendem a ser eficazes para estimular novas compras — gerando ainda mais dados para aperfeiçoar as campanhas futuras.
Ao todo, identificamos 11 diferentes ciclos de retroalimentação reforçadora. Nosso estudo é o primeiro a demonstrar essa rede integrada como parte de um sistema de ultraprocessados concebido, essencialmente, para levar as pessoas a comprar e consumir mais, deslocando alternativas mais saudáveis da alimentação.
Esse sistema, centrado no produto, também se conecta a mecanismos de retroalimentação presentes em níveis mais amplos da cadeia produtiva, envolvendo dimensões econômicas e financeiras da produção global de ultraprocessados.
Isso é particularmente relevante porque dietas inadequadas e excesso de peso corporal respondem por 18% das mortes prematuras evitáveis e dos casos de incapacidade na Nova Zelândia. Ambos os fatores de risco estão associados ao consumo excessivo de ultraprocessados.
Infelizmente, a Nova Zelândia não realiza pesquisas nacionais de nutrição desde os anos 2000. Por isso, é necessário recorrer a dados de países comparáveis, como a Austrália, para estimar que os ultraprocessados respondam por aproximadamente metade da ingestão calórica da população.
O que fazer diante disso
Dietas ricas em ultraprocessados não são resultado apenas de escolhas individuais livres ou de falta de força de vontade, mas de um sistema deliberadamente concebido para estimular esse padrão de consumo.
Nossa pesquisa lança luz sobre a maneira como o sistema dos ultraprocessados se aproveita das pessoas — especialmente das crianças. Especialistas internacionais já classificam os UPFs como um importante problema global de saúde e defendem políticas governamentais rigorosas para regular esses produtos e conter parte desses mecanismos.
Exemplos de liderança política nessa área já existem em várias partes do mundo, especialmente na América Latina. A Nova Zelândia poderia seguir o exemplo de países que adotaram impostos sobre bebidas açucaradas e ultraprocessados, restrições à publicidade dirigida ao público infantil, rotulagem frontal mais clara e políticas de transparência, como a divulgação pública de atividades de lobby junto aos governos.
A complacência não é uma opção. O sistema alimentar precisa ser reequilibrado para que possa servir e nutrir as pessoas hoje e no futuro.
Os autores agradecem a contribuição do Dr. Joshua Clark para a pesquisa.
Kelly Garton é pesquisadora sênior em Saúde Populacional na Universidade de Auckland, Waipapa Taumata Rau.
Boyd Swinburn é professor de Nutrição Populacional e Saúde Global na Universidade de Auckland, Waipapa Taumata Rau.
Publicado originalmente no The Conversation
https://theconversation.com/how-unhealthy-ultra-processed-foods-are-designed-and-marketed-to-make-us-crave-them-281217
