Estudo revela como o agronegócio brasileiro ampliou o processamento e transformou o perfil da balança comercial entre 1997 e 2025

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Blog do IFZ | 29/09/2026

Entre 1997 e 2025, as exportações do agronegócio brasileiro cresceram 552,2%, enquanto as importações aumentaram 137,1%. O resultado foi uma expansão de 752,6% do saldo comercial. Em valores corrigidos para 2025, a exportação média passou de R$ 143,2 bilhões no triênio 1997-1999 para R$ 934,0 bilhões no biênio 2024-2025. No mesmo intervalo, o PIB brasileiro cresceu 82,9% e o índice real de preços internacionais dos alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) avançou 33,0%.

O aumento não decorreu apenas de preços mais elevados no mercado internacional. Em toneladas, as exportações do agronegócio cresceram 572,0% no período, enquanto as importações aumentaram 42,5%. O movimento revela uma ampliação muito expressiva da capacidade física de produção e venda externa do país.

O estudo “Evolução e Nível de Processamento da Balança Comercial do Agronegócio e suas Principais Cadeias/Agrupamentos, Brasil, 1997 a 2025”, de José Giacomo Baccarin e Gustavo Jun Yakushiji, examina não apenas quanto o Brasil exportou e importou, mas também o que foi vendido ao exterior em cada etapa de transformação. A pesquisa organiza os produtos em 30 cadeias ou agrupamentos e procura verificar em que medida a expansão internacional do agronegócio ocorreu sobre produtos primários ou sobre mercadorias com maior processamento industrial.

A resposta não é uniforme. Há cadeias em que o avanço das exportações esteve fortemente associado a produtos pouco processados, sobretudo commodities agrícolas. Em outras, a indústria ganhou espaço e consolidou uma posição competitiva no comércio internacional. Por isso, os resultados não sustentam uma leitura única para todo o agronegócio brasileiro.

Uma expansão que ultrapassou preços e crescimento econômico

Os valores utilizados pelos autores são expressos em reais de 2025. A base de comércio exterior é o sistema AgroStat, do Ministério da Agricultura, e o levantamento exclui insumos e máquinas agrícolas, concentrando-se nos produtos agrícolas e em seus derivados agroindustriais. Os itens registrados na nomenclatura comercial foram reorganizados nas 30 cadeias ou agrupamentos analisados. Dentro de cada uma, exportações e importações foram classificadas segundo diferentes níveis de processamento.

Essa metodologia permite distinguir, por exemplo, soja em grão, farelo e óleo; ou café verde, torrado e solúvel. Também permite observar quanto da produção primária permanece no mercado interno e quanto é destinado à exportação.

Há uma ressalva importante. O cálculo da disponibilidade interna considera produção nacional mais importações menos exportações, mas não incorpora variações de estoques nem perdas na colheita e no transporte. Os próprios autores apontam essa limitação e recomendam seu aperfeiçoamento em pesquisas futuras.

O comportamento dos preços internacionais ajuda a dimensionar o resultado, mas não o explica sozinho. O estudo calcula correlação de -0,77 entre a taxa de câmbio e o índice internacional de preços dos alimentos, com R² de 0,59, no período de 1997 a 2025. Os autores observam, contudo, que o câmbio responde a diversos outros fatores e que a relação estatística não deve ser tomada como explicação exclusiva de sua trajetória.

A China ganha espaço, enquanto os destinos permanecem diversificados

A expansão também alterou a geografia do comércio exterior. A China passou de uma participação de cerca de 3% nas exportações do agronegócio brasileiro em 1997 para aproximadamente 35% em 2018, mantendo-se em patamar elevado nos anos seguintes. Em sentido inverso, a participação conjunta da União Europeia e dos Estados Unidos caiu de 54,5% em 1997 para 21,7% em 2025.

Isso não significa que a pauta exportadora tenha ficado concentrada em poucos destinos. Os demais países responderam por mais de 40% das vendas externas em praticamente todo o período. Na média de 1997 a 2025, a China representou 17,9% das exportações, a União Europeia, 24,8%, os Estados Unidos, 10,2%, e os demais países, 47,1%.

Nas importações, a diversificação foi ainda maior. A participação dos três principais países de origem caiu de 57,4% em 1997 para 45,3% em 2025. A Argentina, que respondia por cerca de 40% das compras brasileiras no início da série, passou a representar aproximadamente 20%. A participação dos Estados Unidos caiu de cerca de 12% para 5%, enquanto a União Europeia avançou de aproximadamente 12% para 20%. A China, por sua vez, passou de 1,1% para 7,9%.

Trinta cadeias, resultados bastante diferentes

A análise das 30 cadeias e agrupamentos mostra uma estrutura comercial heterogênea. Dezoito apresentaram saldo comercial médio positivo entre 1997 e 2025, enquanto 12 tiveram saldo negativo. A soja ocupou a primeira posição em saldo positivo, com média de R$ 137,3 bilhões, e o trigo apresentou o maior saldo negativo, de R$ 7,1 bilhões.

Também se observa uma forte presença de outras cadeias exportadoras. Cana-de-açúcar, bovinocultura, produtos florestais, avicultura de corte, café e milho aparecem entre as atividades com maiores saldos médios. Ao mesmo tempo, lácteos, pescados, outros grãos, hortícolas e outros vegetais, batata, uva, arroz, cebola, rações animais, tomate e feijão registraram saldos médios negativos.

As importações, consideradas em conjunto, equivaleram a 14,8% das exportações do agronegócio na média do período. Isso não elimina a dependência externa em produtos específicos, mas mostra que ela é bastante diferente entre as cadeias.

Soja: crescimento extraordinário e forte peso do grão

A soja é o caso mais evidente de expansão das exportações com predominância de produtos de menor transformação industrial. Entre 1997-1999 e 2024-2025, as exportações da cadeia cresceram 874,9%, enquanto as importações aumentaram apenas 27,0%. O saldo comercial avançou 934,7%, e a importação representou, em média, apenas 1,0% da exportação da cadeia.

A soja respondeu, em média, por 28,5% das exportações do agronegócio brasileiro no período. Sua participação chegou a 39,53% em 2021-2023, antes de recuar para 32,09% em 2024-2025. O próprio estudo observa que, nos anos mais recentes, essa participação tende a diminuir, indicando alguma diversificação da pauta exportadora.

A composição da cadeia ajuda a explicar a questão do processamento. Depois de 2017, os grãos passaram a representar cerca de 80% das exportações da cadeia, enquanto o farelo ficou próximo de 15% e o óleo, de 3%. A produção brasileira de soja aumentou 529,2% entre 1997 e 2025, mas a exportação física de grãos cresceu 1.197,2%.

O resultado é uma combinação particular de expansão da produção agrícola, crescimento da demanda externa e menor avanço relativo dos produtos processados. Entre os fatores apontados pelos autores estão a preferência chinesa pela importação do grão e as características da tributação brasileira sobre as exportações de produtos primários.

Há cadeias em que a indústria avançou

O quadro muda quando se observam os produtos florestais. A cadeia reúne celulose, papel, madeira e outros produtos. Entre 1997-1999 e 2024-2025, suas exportações cresceram quase 300%, enquanto as importações aumentaram 28,4%, levando a uma expansão de 421,0% do saldo comercial.

O estudo identifica nos produtos florestais uma exceção importante ao padrão de menor processamento observado em várias cadeias. O crescimento do saldo comercial veio acompanhado de maior transformação industrial das matérias-primas no Brasil. Na celulose, especificamente, as importações passaram a representar menos de 3% das exportações desde 2018, sinal de elevada competitividade externa.

A ressalva é que a própria categoria é heterogênea. Madeira reúne desde produtos de baixo processamento, como toras e lenha, até itens mais elaborados, como móveis e compensados. Por isso, os autores sugerem que esse agrupamento possa ser subdividido em análises futuras.

A avicultura de corte constitui outro contraponto. Suas importações equivaleram, em média, a apenas 0,4% das exportações entre 1997 e 2025. No mesmo período, as exportações cresceram 870,1% e o saldo comercial, 886,5%.

A produção brasileira de carne de frango também aumentou de forma expressiva, enquanto uma parcela relevante continuou destinada ao mercado doméstico. Trata-se, portanto, de uma cadeia em que a inserção internacional se desenvolveu apoiada em uma estrutura agroindustrial mais complexa, e não apenas na exportação de uma matéria-prima agrícola.

Milho e algodão mostram outra trajetória

O milho oferece uma transição importante entre produção primária e processamento. Historicamente exportado sobretudo na forma de grão, passou a ter novo destino industrial com a expansão da produção de etanol de milho. O volume produzido para esse fim, praticamente residual no início da série, alcançou cerca de 8,24 bilhões de litros na safra 2024-2025.

A produção de milho cresceu 330,2% entre 1997 e 2025, enquanto a disponibilidade interna aumentou 210,1%. Depois de 2019, as exportações passaram a representar cerca de 35% da oferta interna. O crescimento do processamento para etanol não eliminou a forte presença do grão no comércio exterior, mas acrescentou uma nova utilização industrial à cadeia.

No algodão, a transformação ocorreu de outra maneira. O Brasil deixou uma posição de dependência de importações e se tornou exportador, mas o avanço foi muito mais intenso no algodão agrícola, especialmente na pluma, do que nos produtos têxteis. A exportação da cadeia cresceu 672,6% entre 1997-1999 e 2024-2025, e o saldo comercial aumentou 3.907,9%.

Os autores observam que o aumento da produção de algodão cria potencial para uma expansão futura da produção interna de derivados industriais, mas os dados analisados não mostram que essa transformação tenha acompanhado, na mesma intensidade, a expansão da produção primária.

Café, açúcar e bovinocultura: ganhos externos com limites distintos

O café permanece fortemente associado à exportação do produto verde. As vendas externas da cadeia cresceram 346,1% entre 1997-1999 e 2024-2025, enquanto a importação, embora tenha aumentado em termos relativos a partir de uma base muito pequena, permaneceu inferior a 1,5% das exportações em todos os momentos da série. Cerca de 90% das exportações continuaram concentradas no café verde, e não no torrado ou solúvel.

Na cana-de-açúcar, o açúcar responde por mais de 90% das exportações na maior parte dos anos. O etanol teve participação maior em determinados períodos, chegando a 30,3% das exportações da cadeia em 2008, mas posteriormente perdeu espaço. A cadeia apresentou forte saldo positivo e baixa dependência de importações.

Na bovinocultura, a transformação da pauta é particularmente visível. A cadeia elevou suas exportações em 500,1% entre 1997-1999 e 2024-2025, enquanto o saldo comercial aumentou 575,0%. A relação entre importações e exportações caiu de quase 15% para cerca de 4% no período.

Mas o conteúdo das exportações mudou. A carne bovina passou a dominar a cadeia, enquanto perderam participação produtos como couro, peles, calçados e artefatos de couro. O valor exportado de carne bovina passou de US$ 684 milhões para US$ 16,0 bilhões entre 1997 e 2025. No sentido oposto, calçados e artefatos de couro caíram de US$ 1,27 bilhão para US$ 224,7 milhões.

Nesse caso, a expansão internacional da produção pecuária veio acompanhada de uma mudança na composição industrial da cadeia, com maior peso da carne e menor participação de segmentos manufaturados derivados do couro.

A disponibilidade interna ajuda a separar exportação de produção

O estudo também acompanha a relação entre produção, exportação e disponibilidade interna. Essa medida permite evitar uma interpretação automática segundo a qual o crescimento das exportações significaria, necessariamente, redução da oferta ao mercado brasileiro.

Na avicultura de corte, por exemplo, cerca de 60% da produção permaneceu destinada ao mercado interno depois de 2005, enquanto aproximadamente 40% foram exportadas. Na soja, o quadro é diferente: nos sete anos mais recentes analisados, a parcela exportada correspondeu a aproximadamente 65% da oferta interna calculada pelos autores.

No café, a expansão das exportações foi acompanhada por redução da disponibilidade interna. A produção cresceu 40,5% entre 1997 e 2025, mas as exportações físicas aumentaram 161,5%, levando a uma queda de 25,1% na disponibilidade interna calculada.

Essas diferenças mostram por que a análise do processamento precisa ser combinada com a dinâmica de produção e consumo. Uma cadeia pode ampliar simultaneamente a produção, as exportações e a oferta doméstica; outra pode direcionar parcela crescente de sua produção ao mercado externo.

Os déficits revelam outra face da inserção internacional

O forte superávit do agronegócio não significa autossuficiência em todas as cadeias. O trigo apresentou o maior déficit médio entre as 30 categorias analisadas, seguido por pescados e lácteos.

Nos lácteos, o Brasil chegou a alcançar superávit entre 2006 e 2008, mas voltou a apresentar déficits a partir de 2009-2011. O saldo negativo aumentou nos períodos seguintes e chegou a quase R$ 7 bilhões no biênio 2024-2025. A produção cresceu 158,4% entre 1997 e 2025, mas perdeu dinamismo depois de 2014, enquanto as importações de leite e derivados voltaram a crescer.

Nos pescados, as exportações cresceram 151,2%, mas as importações aumentaram 245,6%, aprofundando o déficit. Outros grupos, como hortícolas e outros vegetais, batata, uva, arroz, cebola, tomate e feijão, também apresentaram saldos médios negativos.

A existência desses déficits é relevante porque impede que a balança comercial agregada seja tomada como medida suficiente da capacidade de abastecimento interno. O desempenho externo é muito favorável no conjunto, mas há dependências específicas que permanecem ou se ampliam.

Reprimarização: uma hipótese que exige distinções

A questão central proposta pelo estudo é se a expansão do agronegócio brasileiro teria ocorrido por meio de uma reprimarização das exportações, isto é, de uma participação crescente de produtos menos processados.

Os dados sustentam essa hipótese com clareza em algumas cadeias. A soja é o exemplo mais evidente: a expansão das exportações ocorreu sobretudo sobre o grão, enquanto farelo e óleo cresceram em ritmo inferior. O café continua majoritariamente exportado como produto verde. O algodão ampliou sua presença internacional principalmente na forma de pluma. Na bovinocultura, a carne ganhou espaço enquanto produtos de couro perderam participação.

Mas esses casos não esgotam o conjunto do agronegócio. Produtos florestais, especialmente a celulose, mostram avanço expressivo associado à transformação industrial. A avicultura de corte também alcançou elevada competitividade internacional dentro de uma cadeia agroindustrial integrada. O milho passou a incorporar uma utilização industrial de grande escala com o etanol.

Há, portanto, uma diferença entre afirmar que determinadas cadeias se tornaram mais dependentes da exportação de produtos primários e concluir que todo o agronegócio brasileiro tenha seguido a mesma direção. A pesquisa não autoriza essa generalização.

O próprio comportamento da concentração das exportações reforça essa cautela. A concentração entre as cadeias aumentou até 2018, mas depois se estabilizou em nível moderado. A soja ganhou enorme participação na pauta, chegando a responder por 40,3% das exportações do agronegócio em determinado momento, mas sua participação recuou nos anos mais recentes.

Uma força exportadora construída sobre trajetórias diferentes

O principal resultado do estudo está menos em uma oposição simples entre produto primário e produto industrializado do que na diversidade das trajetórias que formam o agronegócio brasileiro.

Em quase três décadas, o país multiplicou sua capacidade de produção e exportação, ampliou o saldo comercial e diversificou seus parceiros. Essa expansão foi especialmente forte em cadeias de produtos primários, como soja, açúcar, café, milho e algodão, mas também se apoiou em segmentos nos quais a transformação industrial ganhou importância, como celulose e avicultura.

O desafio revelado pelos dados é, portanto, desigual entre as cadeias. Onde a produção primária avançou muito mais rapidamente que os produtos processados, a pauta externa permaneceu fortemente associada à matéria-prima. Onde houve investimento e consolidação de estruturas industriais competitivas, a agregação de valor acompanhou em maior medida a expansão da produção.

A trajetória do agronegócio brasileiro entre 1997 e 2025 não cabe, assim, em uma única definição. O país ampliou de maneira extraordinária sua presença no comércio internacional, mas o fez por caminhos distintos: em algumas cadeias, com predominância crescente dos produtos primários; em outras, com avanço consistente da transformação industrial. É essa diferença, mais do que uma classificação geral, que os dados permitem enxergar.


José Giacomo Baccarin é Professor Livre-Docente da Universidade Estadual Paulista (UNESP), nos campi de Jaboticabal e Rio Claro.

Gustavo Jun Yakushiji é doutorando em Estatística e Experimentação Agronômica pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP), em Piracicaba


Baixe aqui o estudo “Evolução e Nível de Processamento da Balança Comercial do Agronegócio e suas Principais Cadeias/Agrupamentos, Brasil 1997 a 2025“

Baixe aqui a “Planilha Balança Comercial Agronegócio, 1997 a 2025“