Segundo o relatório da FAO, ao comparar esses custos com a renda disponível, revela-se que 31,9% da população global não consegue uma refeição adequada
Por Ivette Luna no Jornal da Unicamp | 18/05/2026
No texto anterior, discutimos a histórica saída do Brasil do Mapa da Fome e os desafios persistentes da insegurança alimentar (IA) residual[1]. Embora a fome aguda tenha recuado para níveis inferiores a 2,5%, milhões de brasileiros ainda enfrentam barreiras invisíveis para acessar uma alimentação balanceada e nutritiva. Entre os principais obstáculos, destaca-se o custo elevado da cesta básica saudável: se a dieta ideal exige R$ 432,00 mensais por indivíduo – valor que compromete drasticamente o orçamento de famílias que vivem com pouco mais que isso –, a sobrevivência impõe escolhas forçadas.
Segundo o relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), ao comparar esses custos com a renda disponível, revela-se que 31,9% da população global não consegue uma refeição adequada. No Brasil, esse percentual chega a 23,7% da população, o equivalente a 50,2 milhões de pessoas (FAO, 2025).
Logo, para evitar o estômago vazio, deixa-se de lado a nutrição, abrindo espaço para alimentos baratos e ultraprocessados ou reduzindo a quantidade de alimentos saudáveis que são comprados, o que deteriora a qualidade das dietas.
Em ambos os casos, a insegurança alimentar volta a cercar o ambiente doméstico, vulnerabilizando ainda mais famílias pobres, mulheres, crianças e a população rural, o que potencializa desigualdades estruturais (Pacto Contra a Fome, 2025). As implicações dessas escolhas inevitáveis sobrecarregam a saúde pública e as contas do SUS, atingindo, com prioridade e crueldade, as crianças pequenas. Ao serem afetadas por estados nutricionais aquém do desejável, elas carregam marcas irreversíveis no desenvolvimento cognitivo e físico. Atende-se à quantidade calórica, mas com calorias que não nutrem. Eis o custo social – ou ao menos parte dele –da IA residual.
O paradoxo da malnutrição: desnutrição e obesidade lado a lado
De acordo com o Atlas Mundial da Obesidade, a probabilidade de desenvolver uma doença crônica não transmissível (DCNT) é aumentada por uma série de fatores de risco como tabagismo, sedentarismo, dieta inadequada e o excesso de peso corporal. Juntos, esses elementos respondem por mais da metade das mortes prematuras por DCNTs, aproximadamente 10,7 milhões em 2021. Desse total, 1,6 milhão (15%) foi atribuído ao alto índice de massa corporal (IMC). Mais grave ainda: o IMC elevado é responsável por 55% das mortes prematuras por diabetes tipo II (World Obesity Federation, 2025).
Seguindo os critérios do Atlas, classifica-se como sobrepeso o IMC entre 25 e 30 kg/m² e como obesidade o IMC acima de 30 kg/m². Além disso, um IMC de 35 kg/m² é o limite comum para o encaminhamento a intervenções clínicas nas diretrizes atuais.
Os resultados da pesquisa realizada pela Federação Mundial de Obesidade mostram que países de renda alta, segundo a classificação do Banco Mundial, tendem a manter a prevalência de obesidade (IMC alto) ao longo dos últimos anos (a partir de 2010). Ainda não é o que se observa para os países de renda baixa ou de baixa-média, onde a tendência é de aumento para o período recente e nas projeções até 2030.
O Gráfico 1 valida tal resultado ao ilustrar a evolução temporal da obesidade em nível mundial, na América Latina e Caribe (LAC) e no Brasil. É inegável que o desafio da IA residual apresenta uma tendência de alta que não se atenua com o tempo, mesmo em países que, como o Brasil, celebraram a saída do Mapa da Fome. Arrisco afirmar que o problema se tornou uma regularidade estrutural das economias contemporâneas, indo muito além da carência calórica. Projeções da FAO e de outras instituições internacionais indicam a manutenção dessa tendência, caso intervenções estatais mais rigorosas não sejam implementadas. Ainda, os percentuais para a América Latina e Caribe e para o Brasil estão significativamente acima da média global.
Gráfico 1. Prevalência de obesidade em adultos (%)

Segundo dados do Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), pesquisa anual do Ministério da Saúde, a prevalência de obesidade na população adulta brasileira atinge 25,8%, sendo levemente maior entre as mulheres (26,8% versus 24,7% entre os homens) (BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, 2026). Esse padrão de disparidade de gênero repete-se globalmente e mantém-se regular ao longo do tempo (World Obesity Federation, 2025).
Quando afunilamos o olhar para a primeira infância – crianças de até 4 anos –, o cenário mostra-se cruel. Globalmente, os níveis de sobrepeso mantiveram uma tendência estável até sofrerem uma inflexão crescente a partir de 2020 (Gráfico 2). A América Latina e Caribe sustentam a curva ascendente observada em adultos desde o início da série histórica. O Brasil, contudo, ultrapassa a média da região desde 2008: em 2024, as estimativas da FAO apontam que 10,9% das nossas crianças nesta faixa etária apresentam sobrepeso, o que equivale a 1,4 milhão de indivíduos. Assim como a IA leve e moderada antecedem a fome aguda, o sobrepeso funciona como o estágio que antecede condições nutricionais críticas, como a obesidade e seus consequentes riscos de exposição às DCNTs.
No outro extremo da malnutrição, a Fundação Abrinq aponta que 3,8% das crianças menores de 5 anos padeciam de desnutrição crônica (na relação peso por idade) em 2023, com maior incidência nas regiões Norte (4,7%) e Nordeste (4,1%). Quando o indicador observado é a relação altura por idade – que reflete o déficit de crescimento –, o índice salta para alarmantes 11,8%. No mesmo período, 5% das crianças já se encontravam em estado de obesidade (Fundação Abrinq, 2025).
Gráfico 2. Percentual de crianças menores de 5 anos com sobrepeso

É vital salientar que, assim como a IA fragmenta-se de forma heterogênea dentro do mesmo lar, as condições nutricionais dos membros de uma família também divergem. Quantas vezes não testemunhamos relatos de pais que deixam de comer para garantir a refeição dos filhos? Ou de um irmão mais velho que abdica do prato para que não falte ao mais novo? Essas estratégias extremas compõem o rol de escolhas forçadas que, sob a ótica de Amartya Sen (2010), aprofundam a vulnerabilidade de quem já sofre privações econômicas. Ao comprometer o desenvolvimento cognitivo e o aprendizado escolar, a IA residual cobra seu preço mais alto: o cerceamento das futuras “capacidades” e oportunidades desses cidadãos.
O Gráfico 3 apresenta um retrato das consequências desses estados nutricionais aquém do desejado para as nossas crianças pequenas, afetadas por atrasos no crescimento, com base em estimativas da FAO. Os dados revelam uma inflexão preocupante a partir de 2020, com o aumento mais intenso no número de crianças prejudicadas em seu desenvolvimento físico. Contudo, tanto na América Latina e Caribe quanto no Brasil, os valores estimados encontram-se abaixo das médias globais. Ainda assim, em 2024, o Brasil apresentou aproximadamente 8,9% de suas crianças nessa situação – quase uma em cada dez. Pode parecer pouco em termos percentuais, mas esse índice representou cerca de 1,2 milhão de vidas no início de um futuro que pode – e deve – ser promissor. Pouco não é.
Gráfico 3. Percentual de crianças menores de 5 anos com atraso no crescimento

Este é o paradoxo da malnutrição: a obesidade de um lado e a desnutrição do outro. O Brasil tornou-se uma referência na América Latina e Caribe ao reduzir os indicadores de fome e sair do Mapa da Fome em duas ocasiões no período observado. Contudo, o país ainda patina diante das condições nutricionais de uma parcela significativa da população, para a qual a eutrofia (estado nutricional saudável) passa longe.
Pior ainda, o futuro da nação, representado por crianças que já manifestam os efeitos da malnutrição, encontra-se sob risco. Trata-se de um cenário que impõe um custo social elevado hoje e que, no futuro, cobrará uma conta altíssima de todos, distanciando o país de atingir a meta 2.1 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 2): erradicar a fome e garantir o acesso de todas as pessoas a alimentos seguros e saudáveis. Em suma, se não investirmos nessas 1,2 milhão de crianças hoje, o Estado pagará a conta amanhã na saúde pública, como veremos mais adiante.
O cenário retrata também o que o Pacto Contra a Fome chama de “contradição alimentar”: enquanto a fome e a insegurança alimentar (IA) persistem, avança a malnutrição expressa pelo aumento da obesidade e do consumo de ultraprocessados (Pacto Contra a Fome, 2026; Swinburn et al., 2019).
O Gráfico 4, elaborado com dados do Instituto Desiderata (2024), detalha o estado nutricional de crianças de até 4 anos em valores percentuais para o binômio sexo-raça[2]. Nota-se que, independentemente da raça declarada, há uma incidência maior de meninos em condições não eutróficas, predominando o sobrepeso e a obesidade. Nesse contexto, entre 30% e 40% das nossas crianças em cada grupo de sexo-raça sofrem de malnutrição.
No grupo de crianças pretas, por exemplo, 7,72% das meninas apresentam sobrepeso, contra 8,2% dos meninos. Já a obesidade (incluindo a forma grave) atinge 5,89% das meninas pretas e 7,07% dos meninos. Por outro lado, pouco mais de 3% em ambos os grupos sofrem de magreza, e pouco menos de 3% de magreza acentuada.
Ao todo, na base de dados consultada, aproximadamente 6% das crianças nessa faixa etária sofrem de obesidade, 7,97% apresentam sobrepeso, 2,96% magreza, e 2,33% magreza acentuada. Esses padrões gerais tendem a se replicar em outras faixas etárias.
Gráfico 4. Estado nutricional de crianças brasileiras com até 4 anos de idade por sexo e raça declarados (2024)
![Gráfico 4 - Estado nutricional de crianças brasileiras com até 4 anos de idade por sexo e raça declarados]](https://jornal.unicamp.br/wp-content/uploads/sites/32/2026/05/Custo-do-futuro-grafico-4.jpg)
Comportamento alimentar e ecossistema de consumo
Segundo a pesquisa do Pacto Contra a Fome (2026), diversos fatores levam a uma alimentação inadequada. Além da renda, outras características do ecossistema alimentar promovem o consumo de itens baratos ou com baixo valor nutricional. Entre elas estão a conciliação de preferências alimentares e o tempo necessário para o preparo de refeições saudáveis, o que gera um “custo invisível” de esforço. Fatores estruturais como a jornada de trabalho, os desafios da mobilidade urbana, a divisão social do cuidado e a modalidade de trabalho também influenciam essa dinâmica.
A Tabela 1 sintetiza o percentual de crianças que consomem determinados grupos alimentares, conforme dados do Instituto Desiderata. Nota-se que, a partir dos 6 meses de idade, o consumo de ultraprocessados surge e se intensifica nas faixas etárias seguintes. Esses dados são coerentes com a pesquisa do Pacto Contra a Fome, que aponta esses produtos como uma alternativa conveniente para otimizar o tempo e atender às demandas do dia a dia, que se tornam ainda mais intensas na presença de crianças e outros dependentes no lar, o que muitas vezes exige o sacrifício da qualidade nutricional em favor da praticidade.
Assim, mesmo ciente de que não são a melhor escolha nutricional, o brasileiro opta por esses itens pela praticidade. Quando há restrições de renda, a escolha é reforçada pelo custo menor, reduzindo a pressão no orçamento familiar. Além disso, o consumo desses alimentos surge como um momento de alívio ou fuga da rotina, estimulado pelo marketing e pela expansão dos serviços de entrega.
Tabela 1. Padrão de consumo alimentar entre crianças e jovens de 6 meses até os 19 anos

Para as famílias de menor renda, a propensão a entrar em um novo ciclo de pobreza aumenta: uma criança mal alimentada apresenta menor desempenho escolar, o que resulta em menor qualificação profissional e, consequentemente, menor renda no futuro. Portanto, enquanto a fome aguda é uma emergência humanitária imediata, a IA residual atua como uma armadilha de pobreza geracional.
Portanto, o custo social de longo prazo acaba sendo o PIB que deixamos de produzir por não investirmos na qualidade do prato hoje. Trata-se de uma conta que será paga por todos.
E o SUS?
Os gastos públicos com saúde são um componente central do custo social presente e futuro da nação. Segundo Giannichi et al. (2024), mantendo-se a tendência atual de ganho de peso da população, a projeção de gastos entre 2021 e 2030 é de 1,8 bilhão de dólares internacionais em custos diretos para o SUS (tratamentos e hospitalizações) e 20,1 bilhões de dólares em custos indiretos (perda de produtividade, absenteísmo e mortes prematuras).
Por outro lado, o mesmo estudo demonstra o retorno financeiro da prevenção: uma redução de 6,7% na prevalência de sobrepeso até 2030 pouparia mais de 74 milhões de dólares aos cofres públicos.
O impacto financeiro da má nutrição precoce projeta sombras longas sobre o orçamento público. Segundo estudo do Instituto Desiderata e da Fiocruz, citado em reportagem realizada pela Radioagência Nacional, a obesidade infantojuvenil poderá gerar custos diretos de R$ 3,84 bilhões ao SUS até 2060, com quase 95% das despesas concentradas em internações hospitalares (RADIOAGÊNCIA NACIONAL, 2025). Além disso, o gasto anual deve saltar dos atuais R$ 83 milhões para R$ 115 milhões nas próximas décadas.
O Estado como indutor da saúde e protetor do futuro
Fica evidente que subsidiar a “comida de verdade” e combater a IA residual não é um gasto, mas uma estratégia de responsabilidade fiscal e de sobrevivência do SUS. Trata-se de um investimento preventivo em saúde pública.
Além disso, políticas de transferência de renda e de segurança alimentar são estratégicas não apenas para manter o Brasil fora do Mapa da Fome, mas para reduzir os efeitos da IA residual e o custo social das condições nutricionais inadequadas.
Ante o exposto, é necessário olhar para todas as formas de insegurança alimentar – da leve à severa – e integrar políticas que combatam simultaneamente a fome, a obesidade e outras formas de má nutrição. O Brasil construiu uma trajetória positiva no combate à fome, destacando-se regionalmente na redução da prevalência de subalimentação (PoU) e influenciando os resultados da América do Sul. Contudo, ainda é preciso enfrentar a fome e a IA em grupos que permanecem invisíveis ou não atendidos pelas políticas públicas vigentes.
Nesse cenário, a urgência em combater a malnutrição infantojuvenil é absoluta. Do ponto de vista racional, uma economia faz o que pode com os recursos e capacidades que possui, e a sementeira dessas capacidades é composta por nossas crianças. Qual será o nosso futuro como nação se não combatermos a malnutrição na infância e na juventude? Estamos dispostos a pagar para ver?
Por fim, não se trata de assistencialismo, como muitos qualificam as políticas sociais de transferência de renda e de combate à fome. Trata-se de garantir o direito humano à alimentação adequada para toda a população, conforme estabelecido pela Constituição Federal. Até porque, mesmo sendo exemplares no combate à fome, a obesidade persiste apesar de todos os esforços, o que prova que o Estado, embora capaz de produzir efeitos positivos sobre esses indicadores, precisa ser ainda mais insistente e estratégico na luta contra essa mazela da sociedade.
Ivette Luna é professora associada do Instituto de Economia da Unicamp. Com doutorado em engenharia e pós-doutorado em Economia, coordena projetos de pesquisa em Ciência de Dados, ligados à tecnologia e os seus efeitos na sociedade. É pesquisadora do Centro de Estudos em Economia Aplicada, Agrícola e do Meio Ambiente (CEA) e do Brazilian Institute of Data Science (BI0S).
Referências
BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE E AMBIENTE. Doenças e Agravos Não Transmissíveis. Acesso em: 13 mai.2026.
FAO. The State of Food Security and Nutrition in the World 2025The State of Food Security and Nutrition in the World 2025. Roma: FAO; IFAD; UNICEF; WFP; WHO;, 25 jul.2025.
FUNDAÇÃO ABRINQ. Cenário da infância e adolescência no Brasil. [S.l.: S.n.].
GIANNICHI, B. et al. The projected economic burden of non-communicable diseases attributable to overweight in Brazil by 2030. Public Health, v. 230, p. 216–222, 1 mai. 2024.
PACTO CONTRA A FOME. Análise técnica SOFI 2025. [S.l.: S.n.]. Acesso em: 13 mai. 2026.
PACTO CONTRA A FOME. COMPORTAMENTO ALIMENTAR: Percepções e Desafios da Alimentação Saudável. [S.l.: S.n.]. Acesso em: 13 mai. 2026.
PANORAMA DA OBESIDADE INFANTIL. Panorama da Obesidade Infantil. Rio de Janeiro: [S.n.]. Acesso em: 13 mai. 2026.
RADIOAGÊNCIA NACIONAL. Obesidade poderá gerar custos de mais de R$ 3 bi ao SUS até 2060. Matéria de rádio (Áudio), 10 out. 2025.
SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. 11. ed. [S.l.]: Companhia das Letras, 2010.
SWINBURN, Boyd A. et al. The Global Syndemic of Obesity, Undernutrition, and Climate Change: The Lancet Commission report. The Lancet Lancet Publishing Group, 23 fev. 2019.
WORLD OBESITY FEDERATION. Atlas Mundial da Obesidaded. Londres: [S.n.].
[1] A Insegurança Alimentar (IA) Residual é a persistência da má qualidade nutricional e do acesso desigual a alimentos saudáveis em populações que, embora já não sofram de fome aguda (privação de calorias), continuam vulneráveis a dietas inadequadas devido a barreiras financeiras e estruturais.
[2] É importante salientar que os padrões gerais ilustrados se replicam em outras faixas etárias.
Publicado originalmente no Jornal da Unicamp
https://jornal.unicamp.br/artigo/2026/05/18/ivette-luna/o-custo-do-futuro-a-inseguranca-alimentar-residual-e-a-saude-infantil/
